10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
04.07.1997
A Nova Idade Dos Madredeus
O auditório do Inatel, na Costa da Caparica, foi o local escolhido pelos
Madredeus para os ensaios e a apresentação da música do que será o seu próximo
álbum de originais, a gravar em Itália no final deste mês. Num pequeno concerto
aberto ao público, a nova formação, em quinteto, da banda portuguesa com maior
sucesso no estrangeiro eu a conhecer uma música de contornos “new age”, em que
a voz de Teresa Salgueiro se destaca cada vez mais.
Foi uma sonoridade nova aquela que os reformulados Madredeus - com baixo
acústico do novo elemento Fernando Júdice, a ocupar o lugar dos dois
dissidentes, Francisco Ribeiro e Gabriel Gomes - apresentaram, em três pequenos
concertos realizados no auditório do Inatel, nas tardes de segunda, terça e
quarta-feira passadas.
Tocaram uma dúzia de temas, “Coisas pequenas”, “Praia do mar”, “Claridade”,
“Paraíso”, “À margem”, “A Tempestade”, “Não muito distante”, “Os dias são à
noite”, “Andorinha da Primavera”, “O sonho”, “Alvorada” e “Canção dos novos”,
os quais, segundo Pedro Aires Magalhães, serão todos gravados, ficando por
decidir se serão, ou não, incluídos na sua totalidade no próximo álbum de
originais, que começará a ser gravado no final deste mês, em Veneza, com edição
provável no Outono.
Ontem mesmo o grupo seguiu para Itália, onde efectuará uma minidigressão,
com ínício em Vicenza, que terminará no dia 10. Teresa Salgueiro não regressará
com o grupo, ficando para actuar, como convidada, ao lado dos guitarristas
António Chainho e Fernando Alvim, num espectáculo de fados clássicos, integrado
no festival Sete Sóis Sete Luas.
O desaparecimento do som cheio do ioloncelo e do acordeão da antiga
formação determinou uma saliência ainda maior das guitarras, ao mesmo tempo que
trouxe novas responsabilidades e protagonismo ao teclista da banda, Carlos
Maria Trindade. Este músico, que no seu álbum a solo, “Deep Travel”, criou uma
larga paleta de sons electrónicos, circunscreve agora o seu desempenho nos
Madredeus a uma serenidade e simplicidade de processos próximos da “new age”.
“Seria agressivo introduzir no grupo uma electrónica mais pesada. Digamos que
uso sons quase acústicos, emulações de timbres pacíficos”, diz.
Carlos Maria Trindade reconhece que os “ex libris” dos Madredeus são “a voz
da Teresa e o trabalho de guitarra ibérica”. “Tudo o resto são ornamentações”,
afirma o teclista, que, pelo seu lado, procura encontrar para cada arranjo uma
determinada “cor tímbrica”, a tal cor que seria perigoso não substituir pela
ausência do acordeão e do violoncelo”.
Também para José Peixoto, a ausência de Gabriel Gomes e Francisco Ribeiro
dos Madredeus não acarretou qualquer espécie de traumas. “percebemos que o
Pedro, a Teresa, o Carlos e eu formávamos um núcleo principal auto-suficiente e
que era possível trabalharmos os arranjos e a composição sem a sensação de
falta”, diz o guitarrista, que subtilmente tem empurrado a música do grupo para
as sonoridades mediterrânicas. Para o autor, a solo, de recente “A Voz dos
Passos”, apenas “mudou a cor”. E um som que se tornou “mais coeso e objectivo”.
Teresa Slagueiro, pelo contrário, acha que houve “nítidas mudanças”, como
sempre existiram “de disco para disco”, só que agora muito mais nítidas, devido
à instrumentação “completamente diferente e com arranjos muito mais simples”.
Para Fernando Júdice, o novo recruta, a principal dificuldade que sentiu na
sua integração foi “compreender a música e encontrar o tipo de linguagem” que
melhor se adequasse ao grupo. “Ainda estamos em fase de rflexão”, explica.
Pedro Ayres de Magalhães, autor da maior parte das músicas e letras dos
Madredeus, considera que “depuração pode ser uma palavra pesada” para definir o
novo som do grupo, até porque “o anterior não era impuro”. Mas admite que a
música se tornou “ainda mais vocal”.
Parece óbvio que a actual combinação entre a expressividade vocal de Teresa
Salgueiro e a serenidade cada vez mais acentuada do lado instrumental
corresponde às expectativas criadas pelo público internacional, que recebeu da
melhor maneira o álbum “O Espírito da Paz”. “Um pouco por todo o lado, pudemos
sentir uma espécie de carinho pelo nosso projecto e também a confirmação de uma
atenção que é justificada por aquilo que o grupo promete. Tomámos, então, como
referência essespalcos tão diferentes em que tocámos. O critério da escolha dos
novos temas e os respectivos arranjos têm muito a ver com essa experiência, em
parte para responder a uma certa esperança que muita gente nos mostrou em
relação ao futuro do grupo.”