10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
28.02.1998
Anabela Duarte Lança Disco de Poesia
Poemas Com Adrenalina
Poesia mais música era a fórmula utilizada por Os Poetas em “Entre Nós e as
Palavras”. Poesia e voz chegaram para fazer “O Horizonte Basta”, um livro e um
disco em que a voz de Anabela Duarte reinventa as palavras dos poetas Paulo da
Costa Domingos e Hélder Moura Pereira.
É um objecto singelo. Um livro pequeno, em edição bilingue (português e
inglês), com os poemas de Paulo da Costa Domingos e Hélder Moura Pererira
impressos, serve de embalagem a um CD com esses mesmos poemas
ditos/cantados/transformados pela voz de Anabela Duarte, para quem ainda se
lembra, a antiga cantora do grupo pop mler Ife Dada. Chama-se “O Horizonte
Basta”, saiu com o selo Frenesi e reproduz, em condições técnicas não muito
famosas, um espectáculo ao vivo realizado em 1991, por altura do décimo
aniversário daquela editora.
“Este disco reproduz um desses recitais, com uma peça onde a Anabela
encontrou na nossa poesia pontos de contacto ou, pelo menos, pontos onde o
significado que ela acrescenta pela voz ao texto nos aproxima”, explica Paulo
da Costa Domingos, poeta (autor de “Carmina” e “Vaga”, estando para breve a
publicação de “Campo de Tílias”) e editor da Frenesi, um selo que muito em
breve passará também a editar álbuns de música. “O som é muito rudimentar, de
‘bootleg’, mas foi assumido assim mesmo, como um arquivo de uma casa editora. A
mim não me choca. Os próprios Sonic Youth já gravaram um disco pelo telefone,
dos Estados Unidos para Barcelona.”
Em “O Horizonte Basta” a única máquina a servir de suporte à voz de Anabela
Duarte é um módulo de reverberação, adicionando à leitura/canto, por vezes,
efeitos de “delay”. “O resto é tudo acústico”, garante a cantora, para quem “a
palavra discursiva não interessa”. “Este disco é um exemplo flagrante disso
mesmo, uma espécie de antidiscurso. Ao fim e ao cabo isto é uma abordagem
lírica da palavra, uma dimensão canora e fonética.”
A publicação, escrita, dos poemas, aparece “para a pessoa que ouve o disco
poder confrontar o texto donde ela partiu com o trabalho de criação que ela
teve”, acrescenta Paylo da Costa Domingos, que destaca o facto de, no modo como
Anabela Duarte diz os poemas, “haver uma ruptura com a dicção teatral, em que
se tenta seguir escrupulosamente a palavra, acrescentando-lhe uma ênfase que
acaba por trair o poema”.
Para o poeta há neste exercício poético-fonético de Anabela Duarte uma
“revitalização”, colocando o poema “num plano de sentido diferente mas que não
traiu aquilo que é a palavra escrita, que, na essência, cumpre uma função
silenciosa com o leitor - leitor que na interpretação da anabela é muito mais
esmagado por um clima que o trespassa”.
“Tanto eu como o Hélder Moura Pereira, que além de poeta [publicou, entre
outras obras, “A Última Lua da Lua de Outouno”, “Em Cima do Acontecimento” e
“Nem por Sombras”] também escreve sobre música, estando ligado às novas
experiências de vanguarda, não nos sentimos chocados, até porque qualquer um de
nós não pertence àquela geração que se choca quando ouve os seus poemas ditos.
Nós estamos no pólo oposto.” Para Paulo da Costa Domingos apenas há poemas
indizíveis “porque a poesia portuguesa está viciada por uma leitura académica”.
“Hoje a maior parte da poesia portuguesa é produzida por professores, não é
produzida por indivíduos do quotidiano. Não temos uma tradição de oralidade
como têm os americanos ou os alemães. Se houvesse essa tradição, a própria
natureza, o momento da história da poesia portuguesa seria hoje forçosamente
diferente, teria um timbre e uma sonoridade diferente e não haveria tantos
desse poemas ‘indizíveis’.”
O trabalho de Anabela Duarte em “O Horizonte Basta” poderia evocar
experiências paralelas, e levadas a cabo com outros meios, de artistas como
Anne Clark ou Anna Holmer. A cantora que em 1988 gravou a solo o álbum
“Lishbunah”, embora admita gostar da obra da primeira, distancia-se dela: “Tem
um suporte musical, cantando quase em voz ‘off’, o meu trabalho é mais vocal,
dimensão que ela não possui.”
“Entre Nós e as Palavras”, o álbum de poesia musicada lançado o ano passado
por Os Poetas, “pelo apoio e sucesso que teve, abriu, de facto, as portas a
outros projectos deste género”, reconhece Paulo Costa Domingos. Todavia, em sua
opinião esse até nem terá sido o disco mais vendido nessa área específica:
“Tanto quanto ouvi dizer, o disco que vendeu mais depressa foi o do Sinde
Filipe a dizer Fernando Pessoa.”
Poesia dita. Numa altura em que se lê cada vez menos, a edição de discos de
poesia não terá o efeito perverso de aumentar ainda mais essa perversidade?
“Talvez isso aconteça nos tais casos em que há uma dicção teatral que oferece
certas facilidades. Não é preciso ler o livro, basta ouvir o actor a dizer. Mas
quando se vai a um supermercado e se compra um disco da Diamanda Galas, não se
tem facilidades nenhumas mas sim o confronto com uma agressividade. É uma opção
estética. É isso que me interessa, algo que possa, não especificamente agredir
o ouvinte, como é o caso de Diamanda Galas, mas que possa inquietá-lo, tirá-lo
de uma certa letargia no sofá”.
“O Horizonte Basta” de certeza que não é para se ouvir no sofá. “É uma
grande descarga de adrenalina”, garante Anabela Duarte.
Discografia de Anabela
Anabela Duarte pode ser ouvida com os Mler Ife Dada nos álbuns deta banda
“As Coisas Que Fascinam” e “Espírito Invisível” e no maxi-single “Coração
Antibomba” e, a solo, no álbum “Lishbunah” e no maxi-single “Subtilmente”.