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A Crítica Musical Como Ela É

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10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães

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11.07.1997

Reedição Dos Primeiros Álbuns A Dois

Balada De John E Yoko

Yoko Ono destruiu os Beatles. Esta é, pelo menos, a opinião de Paul McCartney. Seja quel for, porém, o papel desempenhado pela japonesa na dissolução dos fabulosos quatro, Ono considerava-se uma artista. A questão que se colocava, então, para ela era como dar a conhece risso, sendo casada com um deles. A reedição em CD dos quatro álbuns gravados por Ono com John Lennon explica, entre outras coisas, o efeito devastador provocado pela união musical deste casal “kamikaze”.

 

“Unfinished Music No. 1 Teo Virgins” (1968), “Unfinished Music No. 2 Life With The Lions” (1968), “Wedding Album” (1969) e “Plastic Ono Band” (1970) constituem o primeiro pacote de remasterizações, reeditadas pela MVM, aumentadas com temas extra e fotos inéditas, da obra gravada do casal Lennon & Yoko.

Na época em que surgiram, no final dos anos 60, ou seja, imediatamente antes da dissolução dos Beatles, estes trabalhos surgiram à revelia da estética geral que caracterizava o final da década, na transição do psicadelismo para o progressivo. Experimentais, herméticos, nalguns casos no limite do ridículo, os quatro álbuns agora reeditados representam, em simultâneo, a afirmação de Yoko Ono, enquanto “performer”, em transição do gueto das vanguardas para o expositor privilegiado da música pop, ao mesmo tempo que a subjugação de John Lennon à voracidade artística da sua mulher.

Yoko Ono, antes de se tornar a senhora Lennon, tinha já um passado de artista radical, feito de sucessivas “perfomances” em áreas diversificadas, como a música, mas, sobretudo, no domínio da pura conceptualização. Em 1960, a sua linguagem, recuperada quase três décadas mais tarde, pelos niilistas “punk”, tomava como base o grito e o gesto e, principalmente, a organização e montagem de eventos “multimedia” que partiam de instruções prévias para a criação de modelos interactivos. Tome-se como exemplo um destes trabalhos, colectados no seu livro, publicado em 1964, com o título “Grapefruit”: “Bata com a cabeça numa parede”.

 

“Sim!”

Era óbvio que obras de arte deste tipo não agradavam a Paul McCartney, desde sempre adepto da canção pop limpinha, da qual, aliás, era um genial inventor. Seja como for, a japonesa intrometeu-se, quebrando um equilíbrio que, a partir de “Sgt. Pepper’s”, era já instável. O álbum seguinte do grupo, o célebre duplo branco, por alguns considerado superior ao seu universalmente aclamado antecessor, teve em Ono um fantasma ominipresente nas sessões de gravação, sendo a sua inspiração determinante na composição do tema mais experimental do siscos, composto por Lennon, “Revolution no. 9”, na linha das suas próprias concepções musicais.

Recuemos de novo ao período anterior ao casamento. Ono convivia então com gente como o guru da estética minimalista, LaMonte Young, organizando em conjunto com ele exposições e “perfomances” várias, ou um dos cultores originais do “free jazz”, o saxofonista Ornette Coleman. Fez ainda parte do movimento Fluxus, formação mítica que se manteve até aos nossos dias, com as suas concepções de uma arte total e actuante, em constante mutação.

Yono [sic] investiu igualmente na cena pop, infiltrando-se no meio e travando conhecimento, entre outros, com Eric Clapton e Mick Jagger. Mas foi John Lennon quem mordeu o isco. Aconteceu por acaso, através de uma peça criada pela japonesa em 1966, integrada num “show” inteiramente idealizado e protagonizado por si. A “peça” em questão era constituída por uma escada pela qual o visitante era convidado a usbir. Chegado ao cimo, este deveria espreitar por um pequeno orifício, onde deparava com uma simples palavra escrita do outro lado: “Sim.” Foi suficiente para Lennon pensar que tinha encontrado a alma gémea. A ligação efectiva entre ambos deu-se dois anos mais tarde, mais ou menos na mesma altura em que Paul encontrou Linda Eastman, vindo os quatro a casar no mesmo mês, em Março de 1969.

 

Paz na Cama

“Two Virgins”, primeiro álbum gravado pela dupla, é o mais interessante. É o disco em que os dois aparecem na capa como vieram ao mundo, de frente e de costas, numa exposição literal do conceito de inocência. Este e o álbum seguinte, “Life with the Lions”, surgiram na sequência dos diversos “bed in” que Lennon e Yoko empreenderam na Primavera e no Verão de 1968, em hotéis como o Hilton, de Amsterdão, ou em Montreal. Um “bed in” era a abertura total da intimidade conjugal à imprensa, com os dois expostos aos fotógrafos e jornalistas, numa cruzada a favor da paz no mundo. “Two Virgins” foi gravado em estúdio mas o tema extra “Remember Love” foi captado no quarto 1742 do hotel La Reine. Os dosi temas principais, partes 1 & 2 de “Two Virgins”, são uma colagem de vozes, ruído ambiente e sintetizadores agressivos que prenunciam o surrealismo mágico dos Nurse With Wound. Na segunda, Ono usa pela primeira vez a sua voz de sirene (antecipando em muitos anos as imprecações de Diamanda Galas), que um crítico da época considerou o som mais original depois do sintetizador “Moog”...

“Life With The Lions”, do mesmo ano, capítulo segundo da “Unfinished Music”, tem início com os 26 minutos de “Cambridge 1969”, nova sessão de gritaria, ainda mais alucinada, de Ono, na personificação de bruxa. Estranhamente, este tema foi gravado em 1969, quando a indicação da data de gravação do álbum se refere a Novembro de 1968. Dois expoentes da “free music”, John Tchicai e John Stevens, colaboram na parte final. Há ainda “Two Minute Silence”, que é isso mesmo, com menos dois minutos e 33 segundos que a peça de Cage, “Baby´s Heartbeat”, uma pulsação horrível de ruído que pretende ser o batimento cardíaco de um bebé, “Radio Play”, 12 minutos intoleráveis de “cut-ups” de emissões de rádio, e “No bed for Beatle John”, no qual Ono usa o lado infantil ??? vocal. Sobre esta obra, o comentário mais acurado pertence ao produtor dos Beatles, George Martin: “Sem comentários!”

A loucura prossegue no álbum seguinte, “Wedding Album”, gravado integralmente num quarto de hotel do Hilton, em Amsterdão, em mais um “bed in” causador de escândalo. O tema inicial, “John & Yono”, dura 22 minutos, ao longo dos quais John grita “Ono!” e Ono grita “John!”, sobre uma textura electrónica rude e repetitiva, numa multiplicidade de registos vocais e emocionais. Um caso nítido do foro psiquiátrico. “Amsterdam” (24m54s) é uma longa melopeia em que os dois amantes gritam “peace!”, em busca de uma qualquer harmonia oculta debaixo dos lençóis. Inclui explicações teóricas, pelos próprios protagonistas, na cama. Nos trmas extra, há a destacar a beleza invernal da balada “Listen, the snow is falling” (com uma formação rock convencional que incuía Ringo Starr, Nicky Hopkins e Klaus Voorman, e a produção de Phil Spector) e a verificação dolorosa de como Lennon era um executante limitado com uma guitarra acústica nas mãos.

Por fim, “Plastic Ono Band”, intitulado a partir da banda entretanto formada em homenagem a Yoko, tem a particularidade de incluir a participação de Ornette Coleman, recolhida durante um ensaio do tema “AOS”. É o álbum mais convencinal do lote, apenas perturbado pela inclusão do tema extra “The South Wind”, nova oportunidade concedida à japonesa de poder libertar a sua líbido selvagem, com a conivência tímida de John, o Beatle.

Tudo junto era demais. Os Beatles não aguentara. Trinta anos depois, continua a ser difícil de aguentar.