10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
05.12.1997
Celso De Carvalho Estreia-Sa Solo Em Edição De Autor
30º Celsius
Celso de Carvalho, 47 anos, antigo elemento dos Plexus e da Banda do
Casaco, violoncelista numa orquestra sinfónica, participante em gravações de
estúdio ou em concertos dos mais diversos artistas nacionais e estrangeiros
(Quarteto 1111, José Afonso, Rão Kyao, Filipe Mendes, António Pinho Vargas,
Steve Potts, Gunther Hampel, Marcos Resende, Né Ladeiras, Jerry Marotta,
António Emiliano, Chico Buarque, Ramuntcho Matta, Amélia Muge, e Ala dos
Namorados, entre outros), acabou de “lançar” o seu primeir álbum a solo, intitulado
“Celsianices”, do qual é autor, intérprete, produtor, arranjador, misturador,
programador e engenheiro de som.
Mas este álbum tem uma particularidade: trata-se de uma edição de autor do
qual foram apenas prensados 30 exemplares, numerados e assinados, que têm sido
distribuídos “por pessoas amigas, por amantes de música em particular e mesmo
por pessoas que o autor não conhece pessoalmente, sendo, contudo, apreciador
dos seus critérios musicais, gente ligada à crítica e à divulgação nos ‘media’.
Porque, quando Celso de Carvalho quis dar a conhecer a sua música,
“flataram-lhe todos os apoios”. “É que a coerência e a opção pelo não-comercial
têm os seus custos”, diz. Foi assim que tivemos conhecimento de “Celsianices”,
um álbum gravado entre Julho de 1994 e Julho de 1995, passado para CD em
Fevereiro de 1996, inteiramente realizado com teclados Roland JV-90 e Yamaha
PS-S-680, e recurso ao programa de computador Korg Audio Gallery.
Para trás ficaram o baixo eléctrico, o violoncelo e o vibrafone, instrumentos
nos quais se notabilizou ainda na década de 60 com o primeiro grupo de “free
music” português, os Plexus, do qual também fez parte o violinista Carlos
Zíngaro. Mais tarde, Celso de Carvalho marcou presença em sete álbuns da Banda
do Casaco e recentemente foi visto a acompanhar a cantora Amélia Muge na sua
última digressão.
destes 30 exemplares prensados, fica a esperança de que alguns cheguem às
mãos de quem eventualmente possa estar interessado em editar este trabalho.
Para já, não existe qualquer certeza, mas apenas um interesse vago manifestado
por pessoas como o engenheiro de som José Fortes ou Nuno Rodrigues, da MVM,
antigo companheiro de Celso na Banda do Casaco. “É o meu manifesto, para
mostrar que estou vivo e a fazer coisas”, desabafa Celso de Carvalho.
Problemas de saúde atrasaram a distribuição de “Celsianices”. “Um ‘bad
timing’ absoluto”, agravado por dificuldades com o texto do livrete, com um
desenho da autoria do próprio Celso quando tinha cinco anos. Os temas de
“Celsianices” abrangem um período compreendido entre 1972 e 1995, tendo a
maioria sido composta nos últimos quatro anos. “É um tipo de composições que
nunca consegui meter nos Plexus nem na Banda do Casaco porque não se adaptavam
muito bem. Ficaram sempre na prateleira. “Por feitio ou por ter uma vida muito
ocupada, a sua música foi sendo adiada, em termos de projecção pública. O
computador surge como uma maneira de se autonomizar, sem que tal implique que
Celso tenha esquecido as suas raízes, pop e jazzísticas. “Tento fugir ao som que
eles me impingem no programa, fazendo, por exemplo, sobreposições várias,
alterações de timbre ou glissandos com o botão de ‘portamento’, equivalentes ao
que faria no violoncelo.”
Essa abordagem orgânica do som é uma das características mais interessantes
de “Celsianices”, álbum nem sempre fácil mas sem dúvida preocupado em escapar
ao exercício de estilo e ao hermetismo, evidenciando uma espécie de “swing”
electrónico que se vislumbra em músicos como Wayne Horvitz, teclista e
companheiro de longa data de John Zorn, ou nos Weather Report, que Celso refere
a propósito de “Ah, bom”. O tema de abertura, “Figurante da vida”, inspirado
pelos Genesis dos anos 80, entraria facilmente nas rotas do éter radiofónico.
“Celsianices” cria ainda uma aura autobiográfica, em temas rotulados como
“Celsinho” e “Megacelso”. “Não é narcisismo”, garante o autor, mas apenas uma
reflexão em torno de uma vida, desde a infância, vocacionada para a música,
desde a filtragem de melodias ouvidas em criança, em “Celsinho”, a um dos primeiros
temas compostos e gravados digitalmente, “Megacelso”, onde se concentram, quase
até à saturação, sons e direcções musicais díspares. “Celsianices” inclui-se no
grupo dos não alinhados da música portuguesa. Cabe aos ouvidos inteligentes da
indústria fazerem-no chegar aos ouvidos inteligentes do público. A música
isenta de compromissos exige-o.