10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
03.04.1998
Jimmy Page E Robert Plant Lançam "Walking Into Clarksdale"
“Walking into Clarksdale” é o segundo álbum fruto da colaboração de Jimmy
Page e Robert Plant, as duas figuras carismáticas dos Led Zeppelin, banda
seminal do heavy metal dos anos 70. Estão agora mais maduros e seguros de si. E
tradicionais.
No final dos anos 60, início dos 70, era tudo uma questão de pureza: ou
alucinação pura ou adrenalina pura, conforme o ácido empurrava o cérebro para
pôr em ordem o psicadelismo no quadro mais seguro do progressivo ou obrigava o
corpo a descarregar doses maciças de electricidade e óleos pesados de hard
rock. Os Led Zeppelin, desde o início, confundiram um pouco estes dois
conceitos.
Em 1969, ano de lançamento do álbum de estreia do grupo, intitulado
simplesmente “Led Zeppelin”, o rock visceral com as bases bem firmes nos blues
não dispensava a companhia de melodias psicadélicas, que iam buscar a sua
inspiração à música e ao misticismo orientais. Ao longo de toda a carreira e
discografia dos Led Zeppelin, até ao seu capítulo final, “In Through the out
door”, de 1979, foi notória esta dicotomia entre a procura de uma beleza
depurada próxima das raízes tradicionais e o lado mais violento e visceral do
rock’n’roll. Dicotomia que atingiu a sua máxima expressão no fabuloso quarto
álbum do grupo, editado em 1971, conhecido como o dos quatro símbolos, com a
inclusão do celestial “Staiway to heaven” e a participação da diva da folk
music britânica, Sandy Denny (entretanto falecida), no tema “The Battle of
Evermore”. Acrescente-se que nomes da cena folk inglesa da época, como Bert
Jansch, os Incredible String Band e Roy Harper faziam parte do leque de
preferências de Jimmy Page e de Robert Plant, respectivamente guitarrista e
vocalista dos Led Zeppelin.
Jimmy Page e Robert Plant são os dois personagens principais de uma
história marcada pela magia negra (um dos “hobbies” de Page) e pelo infortúnio
(o baterista da banda John Bonham morreu e apressou as exéquias do grupo) que
agora renasce com um novo capítulo nos anos 90. E esta ligação antiga com a
música tradicional é fundamental para a compreensão das novas direcções
musicais seguidas por esta dupla que, em 1994, lançou o álbum “No Quarter” (que
incluía ainda versões de temas dos Zeppelin como “Gllows pole” e “Kashmir”) e
agora acaba de assinar a continuação com a edição do novo “Walking Into
Clarksdale”.
“No Quarter” bebia a inspiração nos ritmos africanos. A digressão que se
lhe seguiu contava com a participação de uma miniorquestra de músicos egípcios,
em “Kashmir”. Refira-se ainda que um dos músicos da banda que acompanhava os
dois “zeps” no álbum e nos espectáculos ao vivo era o tocador de sanfona Nigel
Eaton, membro ilustre da folk inglesa e ex-elemento dos revolucionários
Blowzabella.
O novo projecto retoma esta convivência com as sonoridades tradicionais,
nomeadamente com amúsica árabe, numa altura em que tanto Page como Plant não
escondem a sua admiração por artistas como os Transglobal Underground (cujo
teclista toca numa faixa do novo álbum, “Most High”), o grupo de percussões
“sikh” The Dhol Foundation e a cantora de ascendência árabe Natasha Atlas.
Antes, já Jimmy Page viajara pelo Nordeste do Brasil e Plant pela rota da seda,
na Ásia Central.
O álbum foi gravado nos estúdios Abbey Road e uma das maiores surpresas foi
a escolha para produtor de Steve Albini, responsável por trabalhos com os
Nirvana, P.J.Harvey, Rapeman, Bush, Big Black e Pixies e conhecido como um
“ditador” que costuma impor, a todo o custo, as suas ideias. Não é essa, porém,
a opinião dos dois Led Zeppelin. Para eles tratou-se tão-só de uma questão de
disciplina e de sintonia, até tendo em conta que qualquer dos projectos atrás
enunciados dependem, em grande parte, da presença das guitarras, que constituem
um dos trunfos musicais da dupla. Considerando que Jimmy Page é considerado um
dos maiores guitarristas de rock de sempre, tratou-se então de tirar o máximo
partido de uma abordagem que, neste álbum, é fundamentalmente espontânea e
ambiental.
Steve Albini funcionou, neste caso, como o homem de vastos recurso
stécnicos que, segundo Plant, “soube colocar o microfone nos sítios certos” e
que não se sentiu constrangido com a reputação dos artistas envolvidos,
emitindo a sua opinião própria sobre o desenrolar das gravações, distinguindo
“as ideias que resultam” das que podem singelamente ser rotuladas como “merda”.
O resultado final não defrauda as expectativas nem o passado do grupo, ainda
que, como reconhecem tanto Plant como Page, “seja impossível, à medida que a
idade aumenta, arrebatar indefinidamente uma audiência jovem e viril”.
Sosseguem, porém, aqueles que ainda sentem os ouvidos a zunir com a batida
infernal de “Whole Lotta Love”” e “Moby Dick”, porque Robert Plant e Jimmy Page
estão longe de ter chegado à andropausa.