10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
14.08.1998
Rivalizando Com Os Clássicos
O rocka mbicionou rivalizar com os clássicos ao entrar na chamada “idade
adulta”, algures entre 1969 e 1974. Dos King Crimson aos Procol Harum, passando
mesmo pelos Deep Purple, a música eléctrica jogou a cartada do prestígio e da
seriedade. E nem tudo foi tão desastroso quanto a reacção punk quis fazer crer.
Em 1970, um crítico do jornal inglês “melody Maker” intitulava a sua
recensão de “Lizard”, terceiro álbum dos King Crimson: “Rivalling the
Classics”, rivalizando com os clássicos, título demonstrativo, em partes
iguais, de espanto e de admiração. Espanto porque “Lizard” representa, de
facto, um salto qualitativo enorme. Admiração, perante a complexidade ostensiva
e a riqueza “orquestral” dos arranjos de um álbum que ficou como um dos marcos
da música progresiva e que, devido a essa complexidade estrutural, podia de
facto rivalizar com as grandes construções sinfónicas da música clássica.
Mas “Lizard” representa uma excepção numa música que sofreu nas décadas
seguintes com o anátema redutor de “rock sinfónico” que alguma crítica pouco
esclarecida lhe colou, provavelmente confundindo a parte tardia e americana, de
aventesmas como os Journey e os Boston, com o todo. Mas, como se pode ler numa
das últimas edições da revista “Wire”, a propósito do novo (e excelente) álbum
dos 5Uu’s, nos anos 70 e na música progressiva em particular, para cada
Emerson, Lake & Palmer, Renaissance e Procol Harum existiram sempre uns
Soft Machine, Magma ou Faust.
Seria, contudo, fácil ver na década de 70 um cadinho de excessos, mas tal
não se verificou. A complexidade do progressivo orientou-se noutra direcção,
aumentando não o formato clássico da canção pop da década anterior (Beatles,
Stones, Kinks, Beach Boys), mas sim o esqueleto dos blues. São os blues, e a
sua derivação para o rhythm’n’blues, que em Inglaterra partem para a grande
aventura do progressivo, através da inclusão de estéticas que, essas sim, eram
alheias às raízes negras. Dos Jethro Tull aos Blowding Pig, dos Atomic Rooster
aos Colosseum, dos Jody Grind aos Grounhogs.
Assiste-se então, sobretudo entre 1969 e 1974, à proliferação de faixas
longuíssimas que deveriam ocupar lados inteiros de um LP ou, melhor ainda, um
disco inteiro (“Tales from Topographic Oceans”, dos Yes, preenchia dois...).
Por outro lado, era ponto de honra mostrar nas capas fichas técnicas não menos
extensas, com a descrição detalhada de todos os instrumentos utilizados, do
sintetizador mais sofisticado à campainha de porta. A música clássica entrava,
como era evidente - até pela formação erudita que tinham sobretudo os teclistas
das bandas -, nesta equação, bem como a utilização de instrumentos clássicos. Exemplares
desta cultura intelectualizante e erudita foram os Gentle Giant, que faziam
gala em integrar na sua música o violoncelo, o timbalão de orquestra, o oboé e
o fagote. Mas os Gentle Giant eram geniais, apesar de usarem, num dos temas do
seu álbum de estreia, “Gentle Giant”, algumas notas de piano de “Fur Elise”, e
Beethoven, sem mencionarem a fonte.
Por outro lado, a utilização de orquestras (que, aliás, já vinha dos anos
60, dos Beatles aos Moody Blues) serviu sempre mais de balão de oxigénio do que
de veículo de enormes inspirações épicas. “Concerto for Group and Orchestra”,
dos Deep Purple, ou “Live in Edmonton”, dos Procol Harum - que viraram ao
contrário a “Suite nº 3 em Ré Maior” de Bach, em “A Whiter Shade of Pale”... -
são meras redundâncias orquestrais que funcionaram para os respectivos autores
do mesmo modo que uma injecção de corticóides num atleta.
depois há as imitações de composições clássicas. Os Emerson, Lake &
Palmer gravaram um álbum inteiro com a sua recriação das “Pictures at an Exhibition”,
de Mussorgski. Os Renaissance fizeram a sua própria “Schherazade”, de
Rimsky-Korsakov. Mesmo os Egg, paradigma do lado mais criativo e experimental
do progressivo, não resistiram a mostrar no álbum de estreia que eram capazes
de interpretar à sua maneira a “Tocata e Fuga em Ré Menor”, de Bach, ao mesmo
tempo que se inspiraram num dos andamentos da sua “Symphony nº 2”, “Danse des
Adolescents”, e na “Sagração da Primavera”, de Stravinsky. Rick Wakeman, dos
Yes, enfiou a sua adaptação do terceiro andamento da “Quarta Sinfonia em Mi
Menor”, de Brahms, em “Frasgile”. Os Beggars Opera, em “Act One”, transformaram
em “hard rock” a música de Franz Von Suppé. Richard Harvey, dos Gryphon, gravou
a solo “Divisions on a Ground”, um exercício de música barroca onde mostrou
todo o seu virtuosismo na flauta de bisel. Vivaldi era presença assídua no
violino de Daryl Way, dos Curved Air.
Mas estes foram pecados menores de uma música que viajou tão longe quanto
lhe foi concedido pela indústria, antes de ser estrangulada pelo punk. Nesta
medida, na vontade nietzscheana em transcender os seus próprios limites, a
música progressiva, rivalizou, de facto, com os clássicos.