10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
19.09.1997
Robert Wyatt - Mercador De Sonhos
Seis anos de silêncio depois de “Dondestan”, cortados pela colecção de
gravuras sonoras do mini-CD “A Short Break”, Robert Wyatt tem um novo álbum de
originais, “Shleep”, gravado no estúdio de Phil Manzanera, com a participação,
entre outros, de Brian Eno, Paul Weller, Evan Parker e Annie Whitehead. Um
disco de “sonhos maus” por um sonhador que tem experimentado na carne a dor, a
utopia e a revolução.
“Shleep” é o melhor álbum de Robert Wyatt, desde “Rock Bottom”, a
obra-prima gravada em 1974 a seguir ao acidente que o atirou para uma cadeira
de rodas. O mesmo acidente que acelerou o processo de descoberta de uma “voz
pessoal” que nos últimos 25 anos insite em se fazer ouvir com o poder de
transfiguração de um guerrilheiro que faz da poesia a principal arma.
“Shleep” é uma mistura de “Sheep” com “Sleep”. De massificação com
dormência. Wyatt explica que “começou por ser apenas o título de uma canção”,
embora sejam lícitas outras conotações, como “The Little Sleep”, uma novela
policial de Raymond Chandler.
O sono e o sonho. Robert Wyatt teve problemas com o primeiro, transformando
em arma o segundo. “Há dois, três anos, tive uma fase em que, pura e
simplesmente, não conseguia dormir.” “Shleep” resgata o onirismo, da mesma
forma que “Rock Bottom” exorcizava os traumas deixados pelo acidente que o
tornou paraplégico, e “Nothing Can Stop Us” era a reacção violenta contra uma
situação política considerada “intolerável”.
Cada canção de “Shleep” é então como que o “polaroid de um sonho”. “Prefiro
os sonhos maus aos sonhos bons. Quando acordo de um sonho bom, o choque com a
realidade od dia-a-dia é maior.” Não se trata, diz, de um projecto iseológico -
“Nunca injecto os meus discos com qualquer forma de ideologia, tento sempre que
sejam totalmente independentes.” Mesmo “Nothing Can Stop Us” ou um tema como
“East Timor” de “Old Rottenhat”? “Talvez nessa altura, nos anos 80, sim, a
situação política em Inglaterra estava a tornar-se intolerável, com a
emergência de movimentos racistas e nazis. Foi uma época em que passava mais
tempo a participar em comícios do que a ouvir ou a preocupar-me com música.”
Trata-se, afinal, tão-só da projecção intuitiva de estados de alma que
tanto exigem, para se fazerem ouvir, do canto panfletário da Internacional
Socialista, como se encolhem num balbuciar triste e, por vezes, incoerente, de
uma criança ferida. Ou de um louco encarcerado na certeza das suas próprias
convicções. De um pouco como “Rock Bottom” não se sai igual ao que se entrou.
Os álbuns seguintes, de “Ruth Is Stranger Than Richard” a “Dondestan”,
demonstram essa mesma impossibilidade de fazer frente, com a constância dos
iluminados ou dos masoquistas, ao reflexo do espelho. Mas aí está “Shleep” para
nos fazer crer o contrário.
Gravado no estúdio de Phil Manzanera, companheiro de longa data de Wyatt,
“Shleep” reúne memórias e fragmentos da anterior discografia, num “puzzle” que
necessita de tempo para se fazer compreender na sua totalidade. Um tempo que o
próprio músico reserva para si, de forma a tornar coerente “um processo de
composição orgâncio, feito de intuições”. Processo que tem início em casa, num
gravador de quatro pistas, em articulação estreita com a sua mulher, Alfreda
Benge - autora dos textos e das capas de grande parte da discografia recente do
músico -, com quem Wyatt tem partilhado inúmeras experiências e viagens pelo
mundo.
Para “Shleep”, Robert Wyatt convidou velhos amigos, como Phil Manzanera e
Brian Eno, este último “um aventureiro que lida com a música como uma criança”,
cuja influência foi determinate no resultado final de um tema como “Heaps of
Sheeps”, a fazer lembrar álbuns como “Taking Tiger Mountain (By Strategy)” ou
“Another Green World”.
Mas é ainda no modo de articulação dos músicos convidados que “Shleep” se
afasta de “Rock Bottom”, embora sejam evidentes traços comuns entre os dois
discos (as “drones” de sintetizador, o piano sincopado a 16 rotações, inspirado
em Cecil Taylor, as melodias de “nursery rhyme” em contraste com sequências
instrumentais de “big band” espectral). Mas enquanto “Rock Bottom” era grande
dor, redimida pelo génio, suportada pela companhia de amigos, “Shleep” é a
partilha fraterna com esses mesmos amigos, numa assunção do colectivo como
força impulsionadora do acto criativo.
Por vezes o jogo de memórias cruzadas está escondido, surgindo de forma
indirecta. Como uma linha de sintetizador dos Cluster introduzida por Brian
Eno. Ou a utilização de fitas magnéticas com fundo industrial em “Was a
Friend”, nas quais Wyatt reconhece haver uma relação com a música de outro
amigo seu, Charles Heyward, dos This Heat e Camberwell Now. Noutras, a fonte
revela-se de maneira mais óbvia. Como a fabulosa apropriação das inflexões
vocais de Bob Dylan de “Subterranean Homesick Blues” e dos blues em geral, em
“Blues In Bob Minor”, sobre um ritmo binário decalcado de um tema de “Old
Rottenhat”, na segunda das duas participações de Paul Weller, fundador dos The
Jam, neste álbum.
Evan Parker e Annie Whitehead, representantes da “velha” escola do “new jazz”
britânico, acrescentam a improvisação e a surpresa. Antes mesmo da aventura,
iniciada nos anos 60 ao abrigo do movimento de Canterbury, com os Soft Machine,
Wyatt era presença assídua em gravações de jazz, tocando bateria ao lado de
músicos como Wolfgang Dauner. O acidente - uma queda de um quarto andar, no
decorrer de uma festa mais animada - de que foi vítima terá inviabilizado uma
carreira promissora como instrumentista de “jazz”? Wyatt recusa esta
possibilidade. Prefere dizer que a bateria era um empecilho que o impedia de
trabalhar em profundidade a música que verdadeiramente sentia.
De resto, basta lembrar que na altura em que, em 1970, os Soft Machine
iniciavam a sua própria aventura pelo jazz, com outro dos álbuns que é um marco
da música dessa década, o duplo “Third”, Robert Wyatt contrapunha às longas
improvisações, em compassos esquisitos, dos seus companheiros, a sua própria
“suite” pop vocalizada, “The Moon In June”, canção mágica mas que o votaria ao
ostracismo pelos intelectuais do grupo, Hugh Hopper, Mike Ratledge e Elton
Dean. “Adorava fazer esse tipo de música, mas era óbvio que os outros não
queriam vocalizações. Acabei por ser marginalizado.” Wyatt viria ainda a
reformular a eterna questão - pop contra vanguarda - no projecto Matching Mole
(tradução em inglês da fonética, em francês, “machine mole”, Soft Machine,
precisamente), de cujos dois únicos álbuns gravados, “Matching Mole” e “Little
Red Record”, sairia um hit como “O Caroline” (repescado pelos Mynci Zygoti
Mynci no seu disco de estreia), a par de instrumentais obscuros do mais puro
experimentalismo.
Mas Robert Wyatt desdenhou sempre do jazz mainstream, preferindo a ala mais
radical deste género musical e os cantores de soul que ouvia na juventude.
Regozija-se ao fazermos menção de duas obras, pouco conhecidas, que
resolvem a questão de uma vez or todas, a velha guerra entre vanguarda e
acessibilidade, nas quais a sua participação é decisiva: “The Hapless Child and
Other Incrustable Stories”, de Michael Mantler, discípulo hermético de Don
Cherry (outro dos heróis trompetistas de Wyatt, a par de Mongesi Feza), com a
guitarra de Mike Oldfield, e “Fictious Sports”, com a chancela de Nick Mason,
baterista dos Pink Floyd, e a alta inspiração das composições de Carla Bley,
com quem o ex-Soft Machine viria a tocar em posteriores ocasiões.
Em “Fictious Sports”, Robert
Wyatt cantava “I’m a Mineralist”. Hoje
o compositor de uma banda sonora contra o abuso de animais em experiências
científicas, “The Animals Film”, confessa o seu interesse por duas temáticas,
na aparência, díspares: os insectos e as estrelas. O micro e o macrocosmo,
segundo “uma tradição de simbolismo que sempre existiu, de forma quase
subterrânea, em Inglaterra, em autores como William Blake”. E é de uma estrela
que acaba a falar, Diana Spencer: “A minha reacção à sua morte foi semelhante à
da maior parte das pessoas. Fiquei triste. É sempre bom as pessoas poderem
viver um conto de fadas, ou participar numa ‘soap opera’. E, ao menos por uma
vez, foi possível ver o povo inglês a exprimir uma emoção. “O sono e o sonho,
uma vez mais. A comandarem o mundo, simultaneamente secreto e luminoso,
esculpido em cicatrizes, de Robert Wyatt.