10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
18.07.1997
Cantora Dos Madredeus E Mestre Da Guitarra, Lado A Lado
Salgueiro Entre Ciprestes
Uma pequena vila da Toscânia, na Itália, rendeu-se ao fado, à guitarra portuguesa e à voz de Teresa Salgueiro. Foi em Montecastello di Pontedera, na Villa Malaspina, a convite de uma maqrquesa, que o trio Teresa Salgueiro, António Chainho e Fernado Alvim encheu a noite toscana de saudade.
O concerto, integrado na programação italiana do Festival Sete Sóis Sete
Luas, teve lugar na noite do passado sábado, constituindo, sob todos os
aspectos, um êxito. A experiência não era nova. Já antes a vocalista dos Madredeus
cantara com o mestre da guitarra portuguesa, António Chainho. Mas esta foi uma
ocasião especial. Um encontro com a noite, de nostalgias e alegria partilhadas.
António Chainho, acompanhado à viola por Fernando Alvim, fez de anfitrião.
Teresa Salgueiro, enquanto voz convidada, fez figura de jóia da coroa,
jogando-se muito do sucesso e da viabilidade (em termos de afluência de
público) desta colaboração no facto de Teresa pertencer aos Madredeus, grupo
que, sobretudo a partir da aceitação internacional obtida com a banda sonora de
“Lisbon Story”, de Wim Wenders, no álbum “Ainda” tem neste momento um cartel
bastante forte em Itália, sendo este concerto, aliás, precedido por uma
minidigressão de sies concertos do grupo, neste país.
A noite, enquadrada pelos ciprestes que acentuam a nobreza da paisagem
toscana, convidava ao intimismo. O recinto, na ocasião o páteo de uma daquelas
“villas” italianas que imaginamos dos filmes, transformado em auditório,
encheu-se de italianos vindos não só das pricipais cidades mais próximas, como
Florença e Pisa, como também de outras mais distantes, como Milão. Todos
atraídos pela combinação de uma voz onde o fado baila disfarçado com a mestria
das guitarras antigas, tangidas por quem sabe. A expectativa fora criada previamente,
tendo o concerto sido anunciado com bastante antecedência, em diversas
publicações italianas.
Chainho e Alvim jogaram declaradamente no virtuosismo, com a preocupação de
prender a assistência desde o início. Sobretudo o primeiro, solou em constantes
acelerações, descendo no braço da guitarra às tonalidades mais latas, passe o
paradoxo, em exercícios de estilo que deixaram o público italiano boquiaberto.
Com um disco gravado recentemente com a Orquestra Sinfónica de Londres, António
Chainho tem, neste momento, “uma aposta”, como ele próprio nos confidenciou,
durante a ceia oferecida pelosproprietários da Villa Malaspina a todos os
convidados, após o concerto: “Fazer com que a guitarra portuguesa seja mais
conhecida.” A publicidade, pelo que se viu, foi boa.
O primeiro encontro entre ele Chainho e Teresa Salgueiro tivera lugar na
celebração dos 30 anos de carreira do guitarrista, com a presença dos
Madredeus. Nessa ocasião, Chainho, José Peixoto, Pedro Ayrtes de Magalhães e
Teresa Salgueiro improvisaram juntos. Em Itália, ficou assinalado o sexto
encontro entre o guitarrista e a cantora.Só que a responsabilidade desta era
maior.
Consumada a afirmação orgulhosa - e portentosa - da guitarra, aumentava a
excitação entre os italianos, ansiosos por ouvirem a voz dos Madredeus neste
seu novo contexto. teresa surgiu, como habitualmente, de negro, pose recolhida,
a voz aquecida entrando numa nota de lirismo, com “Cantiga de Amigo”, de Oulman
e Meninho. Estavam previstos cinco temas. Teresa Salgueiro cantou o dobro,
incluindo dois “encores”. Ao todo, ouviram-se, além daquele, ainda os seguintes
fados: “Nome de Rua”, “Fado Malhoa”, “Rua do Capelão”, “Dá-me o braço anda
daí”, uma série, cantada pela primeira vez por Teresa, constituída por
“Solidão”, “Havemos de ir a Viana” e “Fadinho da Tia Maria Benta”, masi “Maria
Lisboa” e “Espelho Quebrado”.
Nesta progressão, a voz foi ganhando força e conquistando o público. O
fado, que Teresa Salgueiro aprendeu a amar e a cantar desde muito nova, ganhou
nela uma luz menos velada, transformando-se o luto em claridade. Teresa não é
fadista. Ou, pelo menos, não o é da mesma maneira a que estamos habituados.
Chainho reconhece isso. “É como transportarmos uma canção e dar-lhe um cunho de
fado”, disse, referindo-se a experiências semelhantes de outros cantores na
área do fado. Ou será melhor chamar-lhe “neofado”? A própria Teresa Salgueiro
admite que os Madredeus “podem ter uma influência do fado”. Ainda que, para
ela, o mais importante, para lá de todas as formas e estilos, seja a “vivência”.
O modo como se entrega. A alma com que se afirma.
O público adorou, não regateando aplausos ao trio. António Chainho
conseguiu o pretendido, chamar a atenção para
a sua música e para a música e musicalidade da guitarra portuguesa.
Teresa Slagueiro, por seu lado, pôs em prática, uma vez mais, o que considera
ser a sua “paixão”, só possível nos intervalos das digressões e do trabalho dos
Madredeus, um grupo em plena fase de transição, cujo próximo álbum - “hélas” -
será gravado em solo italiano, mais concretamente em Veneza, havendo a
possibilidade de, pela primeira vez, ter lançamento mundial. As gravações
estarão, em princípio, concluídas em 17 de Agosto. Depois, os Madredeus
partirão para nova digressão, no México, onde nunca actuaram antes, nos Estados
Unidos e Canadá.
No dia seguinte, na Villa Comunale de Pontedera, foi a vez de o cineasta
Manoel de Oliveira, apresentar e comentar a sua última longa-metragem “Viagem
ao Princípio do Mundo”. No debate realizado no final, entre interrogações do
porquê de alguns fundos parecerem desfocados (“Não é uma deficiência técnica
mas uma opção estética”, teve de explicar o realizador português...) e uma
verdadeira sessão de hermenêutica, disparada por uma entusiasmada italiana,
aluna de uma escola de cinema, houve o genuíno interesse do público e um Manoel
de Oliveira em noite de interessantíssimas divagações filosóficas em torno do
seu cinema.
Riccardo Tesi, toscano de geam, e a sua Banditaliana actauram na
segunda-feira numa minúscula aldeia das redondezas. Concerto inesquecível. No
meio dos anciãos da aldeia, de crianças barulhentas e até da intrusão do ruído
de alarme de automóvel de Ettore Bonafé (extraordinário vibrafonista!),
estacionado mesmo lai, Riccardo Tesi e a sua banda deram uma lição de profissonalismo,
mostrando que a arte de viver não está desligada da arte de tocar.
Quadros De Uma Disposição
O ambiente não podia ser mais poético. Sob o céu estrelado da Toscânia, em
frente aos muros de uma típica “villa” italiana, o cenário parecia tirado de um
filme dos irmãos Taviani. Moldura, humana e paisagística, a condizer. Uma aura
de mistério no ar. Ciprestes acentuanod as sombras. Pquenas velas dispostas em
volta, iluminando os fantasmas que a música convocava. A Villa Malaspina, onde
se realizou o concerto de António Chainho com Fernando Alvim e Teresa
Salgueiro, é propriedade de um casal de nobres italianos. Soava mais fundo, a
música, como que inebriada nos corredores do tempo.
Após o concerto, foi servida uma ceia no interior da velha habitação.
Mudança de cenário. A maqrquesa, envergando uma “T-shirt” com marca de
estilista célebre, com o nome de Placido Domingo nas costas, quis falar
pessoalmente com os músicos. Instalou-se a comitiva. Palavras de ocasião. O
cerimonial, de início, de quem quer atravessar a ponte, mantendo-se as
distâncias. Perguntas da praxe. Qual o próximo disco, o fado, sempre o fado. De
Fernando Alvim, a discrição em pessoa, nem uma palavra. Depois, o gelo a
quebrar-se com um copo de tinto. Teresa Salgueiro e a marquesa à conversa. Mais
animada. Os salões, amplos e quase sem mobília, a colorirem-se de quadros
inexistentes. A Toscânia lança um feitiço. Três músicos portugueses, a música
portuguesa, trespassaram com a sua tradição uma outra tradição. Ficaram os
quadros. De um estado de espírito. Em verde e vermelho. Cores de duas bandeiras
com as mesma cores.