10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
02.10.1998
Suzanne Vega Regressa Com Álbum De Sucessos
Canções À Prova De bala
Suzanne Vega está de volta com uma colectânea intitulada “Tried and True”
que reúne alguns dos seus maiores sucessos, como “Luka”, “Marlene on the Wall”
e “Book of Dreams”. Um formato que a cantora gostaria de explorar com mais
assiduidade, em retrospectivas temáticas com versões acústicas ou de todas as
“canções subordinadas ao tema da saúde mental”, por exemplo.
“Podia perfeitamente pegar em todas as minhas canções e voltar a editá-las
de maneiras diferentes, de modo a que as pessoas pudessem experimentá-las
também de maneiras diferentes”. Coleccções arrumadas em versões acústicas de
vlehas canções, ou por temas específicos, como a “saúde mental”. Por aqui se vê
que Suzanne Vega, uma das compositoras-intépretes mais importantes da moderna
música popular norte-americana é adepta incondicional deste tipo de discos:
“Tenho a casa cheia de discos de ‘Greatest Hits’!”, garante. Por detrás deste
interesse está a necessidade de olhar constantemente para o passado e a vontade
de recontextualizar a obra feita. “Se dependesse de mim, lançava uma colectânea
todos os anos”, diz a cantora que, até à data, já editou cinco álbuns de
originais: “Suzanne Vega”, “Solitude Standing”, “Days of Open Hand”, “99,9º F”
e “Nine Objects of Desire”. Embora ela própria não tivesse tido ainda a
oportunidade de paresentar as suas próprias versões, outros, como Peter
Behrens, Mats Höjer, Michiagn & Smiley, Nikki Sudden, Beth Watson e DNA, já
o fizeram, no álbum “Tom’s Dinner”, um apanhado de versões “engraçadas”,
“brilhantes” ou “estranhas”, nas palavras da compositora.
Entre 1996, ano de edição de “Nine Objects of Desire”, e a actual
colectânea, Suzanne Vega passou o tempo com a família e aproveitou para pôr em
ordem a colecção das letras dos seus discos, que sairão reunidas em “The
Passionate Eye”, livro a editar nos Estados Unidos na Primavera do próximo ano.
Esta preocupação com os textos constitui desde sempre uma das
características principais da autora de “Luka” - uma canção sobre os maus
tratos infantis - ao mesmo tempo que reflecte a influência que sobre ela
exerceram “singer songwriters” clássicos como Bob Dylan, Lou Reed, Leonard
Cohen, Paul Simon e Laura Nyro. Vega já tocou, aliás, ao vivo, com um destes
seus heróis, Lou Reed. Com Leonard Cohen, gostaria de poder gravar algum dia,
um disco.
De Suzanne Vega, pese embora a nomenclatura do seu nome, não se espere o
comportamento típico de uma estrela. O que Suzanne Vega é, é o que está nos
discos. O resto, a indústria e as suas pressões, podem esperar. A próxima
digressão, por exemplo, está condicionada pelos horários escolares da filha.
Por isso será preciso esperar até ao próximo Verão, época de férias, para ser
reatado o convívio com a estrada.
Não que a cantora tenha especial predilecção pelas longas deslocações que
qualquer digressão exige. Para Vega actuações ao vivo e digressões não são bem
a mesma coisa. “Embora adore cantar ao vivo para as pessoas, gostaria de o
poder fazer sem ter de me deslocar até aos locais dos concertos”. Lembra, a
propósito, um dos concertos que mais a amrcou, em 1989, no festival de
Glastonbury, onde foi obrigada a actuar em circunstância muito especiais:
“Houve ameaças de morte contra mim e contra o baixista, Mike Visceglia. Fui
forçada a actuar em frente de uma fila de polícias, com helicópteros a
sobrevoar constantemente o palco. Cantei vestida com um coleta à prova de bala.
Acabou por correr tudo bem, mas foi, sem dúvida, o concerto mais stressante de
toda a minha carreira”.
Mas o mais vulgar nos concertos de Suzanne Vega não é a cantora ser
recebida a tiros mas de braços abertos, embora as reacções variem bastante de
país para país. A diferença entre o público japonês e o norte-americano, por
exemplo, constitui um enigma: “No Japão são muito calmos e respeitadores mas,
estranhamente, parecem compreender bem as letras das canções. Na zona ocidental
dos Estados Unidos, pelo contrário, as pessoas são mais barulhentas e
apreciativas, quando gostam em particular de uma canção, só quem também
estranhamente, parecem não fazer a mínima ideia do que é que ela fala, nem
parece que falamos a mesma língua. É uma daquelas coisas misteriosas que não
consigo explicar”. Já na Inglaterra “as pessoas são muito sarcásticas e
interrogativas, mas é porque estão a gostar”. Po enquanto Suzanne Vega não
poderá saber qual o tipo de reacção do públioc português. Mas a julgar pelo bom
acolhimento aos seus discos, não estará longe de ser um dos “Nine Objects of
desire” que dão título ao seu último disco de estúdio.
Livro De Sonhos
Suzanne Vega, em discurso directo, sobre cada uma das cancções de “Tried
and True: The Best Of...”:
“Luka”
Foi um grande sucesso em 1987. É, provavelmente, a minha canção mais
conhecida. Fala de um rapaz chamado Luka que sofre maus tratos dos pais. Toda a
gente quis saber se existiu de facto, um Luka. A resposta é sim. Vivia no andar
de cima do meu prédio. Mas, na verdade, os pais não lhe batiam.
“Tom’s diner”
Existe um “Tom’s Diner” na rua 102 da Broadway, chamado “Tom’s Restaurant”.
A versão aqui incluída foi remisturada pelos djs D. & A.. Ao contrário do
que tem sido dito, gosto bastante dela, motivo pelo qual a editei em single.
“marlene on the wall”
Pertence ao meu primeiro álbum e foi escrita a partir de um ponto de vista
inspirado num poster de Marlene Dietrich que tinha colado no meu quarto.
Procura responder aquelas pessoas que se interrogam sobre quem era Marlene.
“Caramel”
Uma espécie de tributo à bossa nova dos anos 60. Costumava ouvir Astrud
Gilberto, que cantava “A Rapariga de Ipanema”. Sempre quis compor uma canção
como essa. É a minha versão.
“99,9º F”
O assunto é, na verdade, muito simples. É sobre namorar com alguém. O tema
não é a doença, ao contrário do que algumas pessoas pensam.
“Small blue thing”
Outra canção de amor, embora não convencional. Basicamente descreve um
ambiente especial. E responde à questão: “se eu fosse uma coisa pequena e azul
que tipo de coisa pequena e azul é que seria?”.
“Blood makes noise”
Deu-me imenso gozo a gravar. Cantei numa das pistas através de um megafone
e noutra com a minha voz natural. É uma canção sobre não se ser capaz de comunicar
com alguém por causa da ansiedade e do medo. Como estar preso numa casca de
noz.
2Life of center”
Foi escrita para o filme “Pretty in Pink”, em especial para o personagem
principal, desempenhado por Molly Ringwold”. a partir do guião, escrevi-a a
pensar na sua personagem mas também na minha.
“In Liverpool”
Escrevi-a para um amigo de longa data, quando chegou de Liverpool. Pertence
a uma época em que andava em digressão e visitei essa cidade.
“Gypsy”
Outra canção escrita para essa mesma pessoa. Portanto, ele tem duas canções
que lhe dizem respeito, embora, de facto, não as mereça. Não voltei a vê-lo
desde esse Verão, já há muito tempo, o que acho bem. Há coisas que devem ser
deixadas como estão.
“Book of Dreams”
Está ligada a um período que se seguiu a uma digressão, em que estive sem
actuar ao vivo durante um ano, a recuperar e em que dormia muito. Descobri que
sonhava muito. Muitas das canções de “Days of Open Hand” estão relacionadas com
sonhos e com introspecção. É a canção central deste álbum.
“No Cheap Thrill”
Fala de romance utilizando a linguagem do jogo. Penso que fala por si.
“World before Columbus”
Composta para a minha filha. Pretendi escrever algo que expressassse os
meus sentimentos por ela, um bebé, mas sem que isso soasse como uma canção de
embalar ou uma canção para bebés.
“When heroes go down”
Uma canção curta, 1m54s, que também fala por si.
“The Queen and the Soldier”
trata-se, provavelmente, de uma das minhas canções mais misteriosas. Não
consigo dizer, exactamente, de onde é que surgiram as imagens, embora já muita
gente me tivesse feito essa pergunta. Há quem afirme que foi escrita da
perspectiva da rainha mas isso não é verdade. Senti-me na pele tanto da rainha
como na do soldado.
“Book & a cover” e “Rosemary”
Duas canções inéditas. “Book & a cover” fala de não julgar as pessoas
com base nas aparências. “Rosemary” é uma canção sobre o desejo de se ser
recordado, o que julgo ser uma maneira apropriada de finalizar uma
retrospectiva.