10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
05.12.1997
Tim Tim Por Tim Tum Na Sua Estreia Discográfica
Homens Com O Centro Na Bateria
“Diálogo de Baterias” é o álbum de estreia dos Tim Tim por Tim tum,
quarteto de bateristas formado por José Salgueiro, Acácio Salero, Alexandre
Frazão e Marco Franco. Quem assistiu ao seu concerto realizado na Primavera
passada no CCB terá reparado na forte componente cénica e lúdica do grupo, algo
impossível de passar para uma gravação. A questão foi contornada com o recurso
a uma faixa interactiva em CD-ROM para PC-Windows que inclui imagens de
actuações ao vivo do grupo, Às quais se acede através de uma espécie de jogo.
A oportunidade para a gravação do disco surgiu na altura em que se
encontrava em Portugal o baterista norte-americano Jim Black - acompanhante
habitual do contrabaixista português Carlos Bica e músico de créditos firmados
na cena jazzística internacional -, convidado para um “workshop” com os
bateristas dos Tim Tim. Foram juntos para o teatro da Malaposta, onde estiveram
dois dias a trabalhar. “Senti que havia ali uma forma espontânea do que estava
a acontecer e pedi os meios para gravar”, explica José Salgueiro, principal
força impulsionadora deste projecto único em Portugal. “gravou-se como se grava
um disco de ‘jazz’, um disco de ‘takes’, tocado em tempo real com o técnico de
som junto a nós, com a mesa e os gravadores na borda do palco. Criámos um ambiente,
carregámos no “rec” [“record”, gravar] e estava a andar.”
Disco de bateristas, por oposição a um disco de percussionistas, “Diálogos
de Bateria” constrói-se a partir de um respeito mútuo entre todos os músicos
participantes e da sua capacidade para se “ouvirem uns aos outros”. “Não
tentamos sacar malhas uns aos outros”, garante José Salgueiro, para quem “Tim
Tim por Tim Tum é igual a comunicar”. Representou ainda a possibilidade de
explorar um instrumento, a bateria, do qual andara arredado nos últimos tempos.
“Sempre fui baterista, toquei bateria nos Trovante durante oito anos. Depois,
quando o grupo acabou, houve uma altura em que comecei a ser requisitado como
percussionista. De repente dei por mim sem trabalho na bateria”, diz José
Salgueiro, baterista de gema mas que nos últimos anos se tem notabilizado como
percussionista em grupos como os O Ó Que Som Tem, de Rui Júnior, que abandonou
recentemente, ou nos Gaiteiros de Lisboa.
“Diálogo de Baterias” tem sabor a “jazz”. Alimentado pela improvisação. Um
dos temas, “um verdadeiro diálogo de baterias, sobre um ritmo típico do Max
Roach”, é dedicado a este baterista, uma das lendas vivas do jazz que, de certa
forma, foi também responsável pela génese do grupo. “Fiz um ‘workshop’ com ele
e o seu grupo, só de percussionistas, os M’Boum, em Barcelona. Foi um estalo. a
experiência repetiu-se em Portugal, na Gulbenkian, desta feita sem o grupo, e
foi aqui que se decidiu fazer a coisa com músicos portugueses. O Max Roach
falou connosco e pôs-nos a tocar, dando-nos pistas musicais, mais do que
ensinando-nos pormenores técnicos. Os Tim Tim germinaram nessa altura na minha
cabeça.”
No horizonte do grupo perfila-se a hipótese de realização de uma série de
espectáculos no estrangeiro. “Há imenso espaço para os Tim tim”, diz José
Salgueiro. “Para já, começámos a trabalhar com a companhia de dança do Paulo
Ribeiro, na mesma peça de percussões com as
mãos e o corpo que fizemos no CCB, só que agora também dançamos, eu e o
Marco Franco.” Além disso, já existem contactos no Brasil, Bélgica e talvez nos
Estados Unidos.
Neste momento, além dos Tim Tim por Tim Tum, José Salgueiro reparte a sua
actividade pelos Gaiteiros de Lisboa, pelo projecto “Suite da Terra”, com
Carlos Barreto e Mário Delgado, uma tentativa de recriação original da música
tradicional, “com linguagem de improvisação”, que sairá proximamente em disco,
e pelo quarteto de João Paulo Esteves da Silva, com o qual irá também gravar em
breve. Quando chegar a Expo-98, José Salgueiro terá em mãos espectáculos com os
Tim Tim, com os Gaiteiros e com João Paulo Esteves da Silva, além de um outro
girando em torno do adufe. “É um instrumento sobre o qual, curiosamente, não
percebo muito. Vou ter que pesquisar para fazer um espectáculo de percussão em
que o adufe seja a estrela.” “Já tenho uma agenda nova e ando a ver se consigo
conciliar estas coisas”, desabafa com satisfação José Salgueiro, um músico para
quem o ritmo é uma paixão.