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A Crítica Musical Como Ela É

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10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães

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27.06.1997

Um Hino Que É Uma Vergonha

No passado dia 10, Dia de Portugal, no discuros que proferiu em Chaves, o escritor António Alçada Baptista (A.A.B.) insurgiu-se contra a letra do nosso hino nacional, que em 1890 Henrique Lopes de Mendonça escreveu para a música de Alfredo Keil. “A letra do hino nacional não me parece adequada à nova civilização e não tem nenhum eco no coração da juventude evocar a vitalidade da pátria, gritando ‘às armas’ e propondo-nos marchar contra os canhões’´, afirmou, na altura, o ilustre intelectual. Tem carradas de razão. A malta é jovem mas está atenta aos ventos da “nova civilização”, a qual, como se sabe, prenuncia um novo século de paz e prosperidade planetárias. Há é muita gente que não sabe.

Nós vamos mais longe e mais fundo do que A.A.B. Além de belicista e “desadequado”, o nosso hino é uma completa pouca-vergonha. Sem nos querermos substituir à palavra sábia do diácono Remédios, até porque o hino é um bom hino, valha-nos Deus, mas temos que reconhecer que é preciso rever, cortar, adaptar, ajustar a velha e despudorada letra de Lopes de Mendonça simultaneamente aos anseios da nossa juventude e aos imperativos da moral. Até para evitar que recaia sobre ele a tesoura da censura.

Passemos, então, cuidadosamente em revista a letra de “A Portuguesa”. “Heróis do mar, nobre povo, nação valente, imortal”. Heróis do mar são os presidentes, os comissários e os secretários da Expo. Nobre povo? Será melhor “pobre povo”. “Imortal”, basta um descuido, cai o ‘t’, lá fica “imoral” na boca do povo. Melhor prevenir e eliminar toda a frase, por incorrecta e desnecessária. “levantai hoje de novo o esplendor de Portugal”. É de evitar o verbo “levantar”, verbo ambíguo com óbvias conotações sexuais. Propomos a sua obliteração e substituição por “la la la”: “La la la hoje de novo” etc.

“Entre as brumas da memória”. Aqui, o despudor atinge as raias do descaramento. Entre as brumas? Da memória? Coramos só de imaginar as coisas inconfessaveis que se podem fazer entre as brumas. A memória a levar entre as brumas, francamente... E, depois, não é preciso ir mais longe, brumas-nevoeiro, nevoeiro-nuvem, nuvem-algodão, algodão-macio, macio-colchão, colchão-cama, cama-sexo. Cá está! E memória? Memória-cabeça, cabeça-bacaçhau, bacalhau quer alho. Sem comentários! Deve pura e simplesmente desaparecer!

A seguir vem aquela sequência jarreta da “voz” dos “egrégios avós” – seus velhadas! – “que há-de guiar-te à vitória”. Tretas, meu. Quem guiava e podia levar à vitória ear o Lamy e foi o que se viu. E eis que chegamos à tal parte que tanto irritou A.A.B., “Às armas, às armas! / Sobre a terra, sobre o mar / Às armas, às armas! / Pela pátria lutar / Contra os canhões marchar, marchar!” É, de facto, violento. A nossa sugestão, temporária, vai no sentido de ficar assim: “Às flores, às pombas / Sobre a terra, pelo ar / Às flores, às pombas / Pela pátria a beijocar / contra os canhões, amar, amar!”

Seria, repetimos, uma solução transitória. Porque é preciso um hino inteiramente novo, alinhado, que vá ao encontro da linguagem da gente nova e do povo, sem os corromper. A nossa proposta definitiva é então que a letra do hino nacional passe a ser: “portugal é uma curte, país lindo, à beira-mar plantado”, entoado dez vezes seguidas (de pé). Viva Portugal.