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25.07.1997

Eliza Carthy

Eliza Carthy & The King Of Calicutt (8) - (conj.)

Topic, distri. Megamúsica

A folk britânica está nas mãos de três mulheres. São inglesas e têm uma visão romântica da música tradicional, enquanto projecção de estados de alma subjectivos ou lugar onde as forças cósmicas confluem no indíviduo. A alegria, em eliza Carthy. A sensualidade, em Kathryn Tickell. A magia em Maddy Prior. Entre cada uma delas existe uma diferença de idades de mais ou menos dez anos, começando em eliza e acabando em Maddy. Aproxima-as a entrega à música que amam. E uma visão: de que a Tradição é algo sempre vivo e inacabado.

Eliza Carthy é a mais nova das três. Filha de pai e mãe ilustres, Martin Carthy e Norma Waterson, gravou com eles um par de álbuns de luxo que vieram reorientar a “folk” inglesa no sentido de ajustamento ao veio mais sólido da tradição, “Waterson: Carthy” e “Common Tongue”.
Só que no seu novo álbum, “Eliza Carthy & The Kings of Calicutt”, a jovem Carthy decidiu romper com os progenitores, pondo os seus talentos de violinista e vocalista ao serviço de uma música com outro tipo de energia que deve tanto às danças “morris” como ao rock. A sua ligação aos Kings of Calicutt - quarteto de bateria, baixo, acordeão-vox e saltério-voz - corresponde, no fundo, a um fenómeno de retorno periódico dos “folkers” ingleses ao “folk rock”, dando razão aos que não encontram nas bases tradicionais material suficiente para uma progressão e manutenção, a longo prazo, no sentido da sua modernização. Exemplos não faltam: dos Fairport Convention aos Steeleye Span, dos Fotheringay aos Woods Band, dos Home Service aos Albion Band, dos New Celeste aos Pyewackett, dos Whippersnapper aos Blowzabella.
Com o quarteto, uma secção de sopros (na velha tradição dos Brass Monkey, Albion Band e Home Service, mas também da música do princípio do século, como foi recriada pelos New Victory Band) e o violinista convidado, John McCusker, dos Battlefield Band, o grupo recria de forma eficaz os “jigs” e demais danças da praxe, por vezes num registo próximo do “bluegrass”, resguardando-se os instrumentos solistas numa linguagem mais tradicional, enquanto a secção rítmica se socorre dos compassos rock. Como vocalista, Eliza continua a evoluir a passos largos. Ouçam, para comprovar, a profundidade a que já consegue chegar, em “Mother, go make my bed”. Imagine-se a música dos pais, sem o tom épico do pai e da tragédia da mãe, aumentada pela alegria juvenil de quem já reservou o seu lugar na História. (Topic, distri. Megamúsica, 8)

Maddy Prior, essa já ocupa o seu há muito tempo. Para esta cantora carismática, o tempo tem sido repartido, nos últimos tempos, pelo seu grupo de sempre, os Steeleye Span, as aventuras pela Música Antiga, com os Carnival Band, e álbuns a solo, com ou sem a participação do seu marido, Rick Kemp, também elemento dos Steeleye Span. Depois do fabuloso “Year”, a voz que compartilha com June Tabor os louros de melhor cantora folk inglesa actual regressa com “Flesh And Blood”, que inclui, uma vez mais, um longo tema conceptual, neste caso a suite “Dramatis Personae”, composta de parceria com o marido.
É menor a tensão criativa que pulsava em “Year”. A voz opera prodígios, como sempre, mas sente-se que a altura é de descompressão, de pausa num período de intensa actividade na carreira da cantora. Entram no reportório uma composição de Todd Rundgren e outra do clássico Sibelius, entre três tradicionais e um tema do grupo (Nick Holland, teclados, Troy Donockley, “uillean pipes”, guitarras, “whistles” e cistre, Terl Briant, bateria e percussão, e Andy Crowdy, baixo). Sem sobressaltos, mas também sem grandes rasgos. Um prazer, a abertura de “uillean pipes” na “Finlandia” de Sibelius. Certas facilidades rítmicas, nos restantes temas (aos quais falta, desta vez, a força dos Steeleye Span, que também usaram e abusaram do rock...) eram dispensáveis.
“Dramatis Personae”, com os seus sete segmentos unificados pelo conceito da personalidade e o recurso ao esoterismo e à topografia mágico-biológico dos “chakras” (centros nervosos etéreos), constrói-se em torno de um piano clássico, com assento na “new age”, numa peça que só por simpatia podemos associar à “folk”. Para abreviar, estamos em presença da melhor “folk progressiva”, com mudanças constantes, predominância dos teclados e alternância entre momentos épicos e contemplativos, um pouco à maneira dos Renaissance. Bom álbum, embora inferior ao anterior, “Year”. (Park, distri. Megamúsica, 7)

Quem não se debate com problemas de qualquer espécie é Kathryn Tickell. É bonita, toca “Northumbrian pipes” como se fosse o instrumento mais sensual do planeta e “The Gathering” é daqueles álbuns que faz correr água na boca de princípio ao fim.
As “pipes” provocam arrepios logo a abrir, com “Raincheck”. Não poderiam soar desta forma nas mãos e no coração de um homem. Apetece apertar, beijar quem assim faz da música algo tão próximo do Paraíso sobre a Terra, perdoe-se-me o tom, talvez demasiado literal, da linguagem. É que “The Gathering” pertence àquela categoria de discos onde a análise sucumbe e os sentidos se deleitam. Quanto a técnica, ouçam o tema seguinte, “Lads of Alnwick”, e estamos conversados. O mesmo se podendo dizer, no difícil registo dos compassos lentos e interiorizados, de “Redesdale”.
Na segunda parte do disco, o violino de Kathryn adquire maior predominância, num ábum que ainda por cima é abençoado pelo ecletismo, seja na valsa “cajun”, “La betaille dans la pétit arbre”, seja em dois duetos alucinates com a harmónica de Brendan Power. Quem ainda chora a saída do grupo da acordeonista Karen Tweed pode ir secando as lágrimas - “The Gathering” é um dos grandes discos deste ano. (Park, distri. Megamúsica, 9)

Nota: Duas correcções relativas às reedições da semana passada. “Space Cabaret”, dos CMU, foi editado em 1973 e não em 1983, como por lapso se escreveu. E não foi Shirley Collins quem participou no álbum “Bells, Boots & Shambles”, dos Spirogyra, mas sim a sua irmã Dolly Collins, responsável pelos arranjos de um dos temas.