10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
11.09.1998
Entrevista a Amélia Muge
Amélia Muge Responde “Taco A Taco” A Recusa De Três Anos
Quatro Pistas Para Uma Identidade
“Taco a Taco2 é o terceiro álbum de originais de Amélia Muge. Editado com
três anos de atraso, porque antes não foi considerado “suficientemente
interessante para o mercado”, é nele que a cantora se descobre e desdobra
vocalmente através dos sintetizadores para chegar a uma nova forma de
irreverência.
“Taco a Taco” permitiu a Amélia Muge avançar mais uma etapa no seu percurso
de autodescoberta e de pesquisa de novas formas de intervenção estética. Mais
do que politicamente correcto, o álbum deixa o ouvinte completa liberdade de
interpretação. Um jogo de escondidas com a modernidade que passa pela
interacção com a tecnologia para chegar à descoberta d euma nova identidade
musical.
FM - Que diferenças existem, ao nível da lógica e dos processos de criação,
entre “Taco a Taco” e os seus dois álbuns anteriores, “Múgica” e “Todos os
Dias”?
AMÉLIA MUGE - À medida que fui avançando para este trabalho - e talvez
muito marcada pela morte de uma pessoa a quem eu admirava especialmente, o
Mário Viegas, em particular por um dos seus últimos trabalhos, “Europa Não,
Portugal Nunca” - questionei-me sobre o que se poderá entender como
politicamente correcto no sentido de uma maior liberdade musical. Todos os
modelos, por muito bons que sejam, com o tempo acabam por caducar. Não na sua
natureza, mas na sua eficácia.
FM - Refere-se à transição de um modelo essencialmente ético para um modelo
estético?
AMÉLIA MUGE - Se calhar a passagem de uma ética para uma outra ética
diferente... Ainda tomando como referência, ao nível da intervenção, o Mário
Viegas, ele tinha uma lucidez e uma capacidade de crítica social que,
inclusive, passava pela música. Era capaz de pegar em coisas do Zeca e
dizê-las. Havia nele uma tentativa, quase tágica, desesperada, de voltar um
pouco ao contrário esses valores, no sentido de ir ao encontro da necessidade
das pessoas de se sentirem mais leves em relação ao seu passado e ao seu
futuro. Era aí que entrava a lucidez, a inteligência e o humor, uma arma
perigosa.
FM - Como definiria a linha estética de “Taco a Taco”?
AMÉLIA MUGE - O principal foram cada momento, cada tema e o que se passa
dentro de cada tema. Como se, de repente, aquilo que nos preocupa no nosso
dia-a-dia, coisas mosntruosas, como a poluição, deixassem de ser determinantes
para eu trabalhar melhor. No fundo, tentei encontrar respostas novas no
spróprios materiais de criação. Como se tivesse havido um corte com as coisas a
que eu estava mais apegada para me voltar sobre aquilo que, de facto, estava a
fazer. Senti-me completamente liberta. Esse mundo antigo de referências,
sociais e políticas, era como se não estivesse presente.
Pós- Moderna?
FM - Comparando com os discos anteriores, cresceu a importância dos
arranjos e da produção?
AMÉLIA MUGE - Digamos que houve mais espaço e mais tempo. Normalmente, a
pressão para se fazer as coisas é enorme. Enquanto se decide como se faz ou não
se faz, anda-se ali muito tempo sem perceber., até os próprios recursos que se
tem à disposição. Neste caso, como todo o álbum foi gravado antes de haver uma
editora, sobrou um espaço menos condicionante.
FM - Nota-se que o estúdio esteve mais presente do que é habitual, nos
tratamentos electrónicos da voz, por exemplo...
AMÉLIA MUGE - Passei daquela fase, quase elementar, de gravar em casa,
directamente, a voz, um piano ou um adufe, para um estádio onde, de repente,
passei do gravador normal para um gravador de quatro pistas. [N.R.: Na verdade,
de oito pistas, como explicou António José Martins, produtor de “Taco a Taco”,
que acompanhou de perto as gravações do disco, ainda nesta fase doméstica.]
Comecei a ter vontade de perceber o que era esse mundo. A grande questão não é
a do som sintetizado em si - e este disco começou por ser gravado só com sons
sintetizados -, mas a forma como esse som actua sobre nós. Que novas estéticas
é que essa tecnologia e esse novo som determinam. Cheguei a uma forma final em
que essa tecnologia age como uma espécie de interferência no som acústico.
FM - Ess questão, da tecnologia electrónica e das suas aplicações, introduz
um outro tipo de discussão mais vasta. Até que ponto é que essa interiorização,
digamos assim, da tecnologia, determinou uma inflexão profunda na sua música?
AMÉLIA MUGE - Já em “Múgica” essa questão me espantava. Será que havia dois
caminhos paralelos, eu a puxar para um lado e o José Martins e o mundo dele,
dos instrumentos electrónicos, a fugir para o outro? Quanto mais ouvia músicos
como o Hector Zazou ou a Laurie Anderson fui percebendo que mesmo algumas das
tecnologias que eles usam serão no futuro artefactos tradicionais velhíssimos.
Descobri neste novo disco o papel que as novas tecnologias poderão ter nas
músicas tradicionais ou simplesmente acústicas. Para mim representou a
descoberta de mim própria como intérprete. Enquanto antes compunha umas linhas
melódicas mais ou menos adaptadas ao sentido do texto, um trabalho, digamos, de
registo do real, agora como que descobri em mim outras vozes, a partir da
análise das vozes sintetizadas. Um efeito de microscópio, de penetrar mais
fundo. Claro que se o Bobby McFerrin ou a Laurie Anderson me estivessem a ouvir
fartavam-se de rir, porque eles já descobriram isto há muito tempo. Eu não. E
não cheguei aqui por um desejo de ser mais “moderna”, mas pela entrada
progressiva, no meu universo sonoro, que sempre foi muito acústico, do trabalho
do José Martins.
FM - Uma Amélia Muge pós-moderna?
AMÉLIA MUGE - Sempre fui muito reticente em relação a esses conceitos.
Nunca houve, como agora, uma modernidade tão igual. A tendência é sermos
modernos todos da mesma maneira. A ideia de modernidade manifestou-se sempre
através dos símbolos e da forma como estes estabilizam. Dou-lhe um exemplo. O
tema de abertura, “Ai, flores”. Fiz este tema durante uma campanha política.
Aquela coisa de levantar o braço porque estamos nesta estação mas se calhar na
estação seguinte vão ser outros a levantá-lo. O tema tinha um bocado essa carga
política. E de repente, quando estava a ordenar o alinhamento de disco, reparei
que alguns dos primeiros versos dos nossos cancioneiros são “as flores do verde
pinho dizei-me novas do meu amigo”? Surgiu uma segunda leitura do tema a partir
de uma interacção, um “taco-ataco”, entre o que tinha escrito e essa presença
longínqua, que anunciava as novidades, das cantigas de amigo. As flores
adquiriram um valor simbólico. É toda uma simbologia que também está presente
na simagens da capa, que juntam desde sinais da informática a hieroglifos
egípcios. Descobri neste disco a força que têm os próprios significados,
independentemente das intenções prévias da escrita.
FM - Se José Afonso tivesse sido mulher, poderia perfeitamente ter assinado
interpretações como as de “Inda bem que há esquimós”. É outra das facetas
interessantes de “Taco a Taco”, uma corresponde^ncia com o lado mais
experimentalmente daquele compositor...
AMÉLIA MUGE - Concretamente, nesse tema, trata-se de um poema do António
Grabato Dias, que sempre teve pena que o Zeca não musicasse: “Isto era mesmo
para o Zeca!” “Inda bem que há esquimós” está de facto muito afonsino, talvez
porque o sentisse quase como uma encomenda... Cantei-o imaginando o Zeca a
cantá-lo. Depois, lá está, este é um disco onde o lado mais irreverente dos
artistas de quem gosto veio mais ao de cima. Existe uma falsa irreverência nos
dias de hoje. Parece que basta haver meia dúzia de palavras de ordem e meia
dúzia de gritos no “proscenium” e já somos todos revolucionários. Mas no que
continuamos a fazer todos os dias continuamos a estar prisioneiros das
convenções. Na própria liberdade de criação há limitações, para não falar de
proibições... “Taco a Taco” só não saiu há três anos porque não o acharam
suficientemente interessante para o mercado...
FM - Para além dos espectáculos com Jorge Palma e o grupo búlgaro Pirin
Folk Ensemble, colaboração da qual sairá em breve um registo em disco, em que
ponto se encontra outro dos seus projectos, um álbum baseado em romances
tradicionais portugueses?
AMÉLIA MUGE - O projecto “Romances” é uma encomenda da Comissão dos
Descobrimentos, onde, além de mim, colaboram Sérgio Godinho, João Afonso, os
Vai de Roda, Brigada Vítor Jara e Gaiteiros de Lisboa. Eu participo com dois
temas, acompanhada por músicos dos Gaiteiros, aquele romance da donzela
guerreira e um romance da D. Olívia, recolhido na Madeira, para o qual não se
conhece, sequer, qualquer versão musicada, com arranjo do José Manuel David,
dos Gaiteiros.