10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
03.07.1998
Entrevista a Andreas Reihse (Kreidler)
Kreidler Passeiam Pelo Lado Mais Afastado Do Parque
A Saudade Que Veio Do Frio
Frios mas sensíveis à saudade, os Kreidler voltam a povoar, com “Appearance
and the Park”, os sonhos do pós-rock com uma actividade febril. Ou fabril.
sonham em japonês, com as máquinas dos Kraftwerk e os mistérios de Düsseldorf.
Como um “haiku2 a sua música vai directa ao essencial. Manipulando “a um nível
abstracto” as emoções de quem a ouve.
Quando da saída de “Weekend”, álbum de estreia dos germânicos Kreidler,
falámos com Stefan Schneider, também membro dos To Rococo Rot. Desta feita a
conversa foi com o teclista e sintetista Andreas Reihse, um admirador de Kurt Dalhke
(Pyrolator), Kraftwerk e das bandas que fazem história em Düsseldorf. Mas
durante as gravações de “Appearance and the Park” os Kreidler seguiram o
“método Can”.
FM - “Appearance and the Park” é um título estranho. O parque é o mesmo que
aparece na capa do álbum anterior, “Weekend”?
ANDREAS REIHSE - Sim, “The Park” faz o elo de ligação com “Weekend”.
“Appearance” assinala o novo e o inesperado, também a distância relativa ao
álbum anterior e algo mais de que não tovemos consciência no momento da gravação.
O “e” liga o antigo ao novo, jogando com a ausência de lógica. O título procura
também captar um certo mistério que paira no ar, como os “Ficheiros Secretos”.
FM - A melodia de “Tuesday” é puro Pyrolator (do ambiente de feira de
“Wunderland” não dos experimentalismos de “Inland”). E nas notas de capa
agradece ao próprio Pyrolator, ou eja, Kurt Dalhke, cada vez mais citado pela
snovas bandas alemãs de música electrónica, dos FX Randomiz aos
Schlammpeitziger. Será que ele é o elo, nos anos 80, que faltava entre o
“krautrock” dos anos 70 e as actuais vagas do pós-rock e da “Electronica”?
ANDREAS REIHSE - Houve quem se
lembrasse de “Could it be I’m Falling in Love”, dos Spinners... Infelizmente “Wunderland” é o único álbum dos
Pyrolator que nunca ouvi. De qualquer forma gosto do modo como ele usa melodias
“naive” e um “kitsch” que é muito apelativo, como fazem os Kraftwerk. Mas há
mais música importante de Dçsseldorf, dos anos 80, como os primeiros Die Krupps
e os Der Plan. E Holger Hiller Dorau gravou também nesta cidade. Sob a
designação Deux Baleines Blanches nós próprios gravámos várias vezes nos
estúdios Ata Tak. No ano passado gravámos o 12” “Fechterin”, que foi produzido
por Kurt. Foi também Kurt que nos enviou um gravador DAT durante as gravações de
“Appearance”, depois de três dos gravadores do estúdio em St. Martin terem
rebentado!...
A editora Atatak é, de facto, um elo que liga um determinado tipo de
“krautrock” ao som de Düsseldorf personificado pelos Kraftwerk e pelos Neu! mas
também através de Michael Rother, Cluster e Harmonia, bem como dos grupos de
“electronica” actuais. Também é possível perceber reminiscências de Pyrolator
na cena tecno de Colónia, de bandas como os Modernist, bionaut, Ike Ink ou
Sweet Reinhard.
FM - Kurt remisturou uma faixa dos Kreidler, em “Resport”. Ficou satisfeito
com o resultado total desse projecto?
ANDREAS REIHSE - A princípio não. Porque me sinto mais ligado à música de
dança, ao tecno ou à “house”. Teria ficado mais feliz com uma mistura desse
tipo. Mas não fui eu que escolhi os autores das remisturas, à excepção de Kurt.
Claro que é a minha remistura preferida. Mas acabei por reconhecer qu eo som
está bastante consistente. Talvez não resultasse numa linha mais ortodoxa de
música de dança.
FM - O som é mais importante do que a estrutura na música dos Kreidler?
ANDREAS REIHSE - Detlef Weinrich e eu somos os que estamos mais conscientes
do som enquanto matéria-prima. Não gostamos muito de samples porque são
barulhentos, sujos e demasiado cheios de informação e de História. É muito mais
fácil criar um determinado ambiente manipulando o auditor a um nível mais
abstracto, jogando com memórias sonoras que se conservam no cérebro. Por isso
preferimos sons puros e frios. De maneira a manter uma distância que permita uma
possibilidade de acesso ao suditor completamente diferente. Não como um diário,
não de uma forma egocêntrica, mas como senso-comum, pop, um modelo.
Método Can
FM - E “She Woke up and the world
had changed” parece que os Cluster encontraram os New Order. É um dos aspectos mais interessantes da vossa
música, a forma como combinam elementos e influências diferentes num todo que
soa completamente original. Compõem em cas? No estúdio? De que modo manipulam
os sons e as ideias?
ANDREAS REIHSE - “Au-pair” e “Coldness”, por exemplo, foram trabalhadas em
casa no meu Apple. Outras canções foram tocadas primeiro em concertos, durante
um ano, numa espécie de remistura de teste, ao vivo, às reacções do público.
Antes desaa fase cada um de nós leva para a sala de ensaios um “loop”, uma
melodia, alguns acordes, um ritmo, uma ideia para uma linha de baixo. Depois
juntamos as partes mas nunca sob a forma de improvisação. Numa última fase
separamos as melhores, segundo aquilo a que chamo o “método Can”. Fazemos
variações sempre tendo em mente que o resultado final deverá rondar os 4
minutos de duração.
FM - A programação rítmica de “Necessity Now” é muito semelhante à de
“Trans Europe Express”, dos Kraftwerk. E há sons sintéticos que lembram a fase
inicial do grupo de Ralf e Florian. Quando os Mouse on Mars elogiam o álbum
“Organisation”, assiste-se a uma revalorização desta fase inicial dos
Kraftwerk, em detrimento da fase posterior, iniciada em “Trans Europe Express”
que todos elegiam antes como percursora do electro-funk...
ANDREAS REIHSE - O meu álbum favorito dos Kraftwerk é “Menschmaschine”
(“The Man Machine”) porque dá uma ideia bastante clara do que haveria de
acontecer nos anos 80. É frio e cheio de desespero e entropia. Por vezes
sinto-me deprimido quando o ouço. Não penso que os Kraftwerk sejam muito
“funky”. São muito rigorosos e rígidos, tipicamente alemães, quando os
comparamos com Sly & The Family Stone ou Parliament. aprecio a sua
evolução, desde o iníco até “Electric Cafe”. De certa forma, cada novo álbum é
uma actualização do anterior. Não sei se o material mais antigo está agora mais
em voga. Há quatro anos atrás, Triple-R., um dj, incluiu no seu “set” de tecno
um tema de “Ralf & Florian”.
A propósito, Thomas e eu tocámos recentemente com Klaus Dinger, (Neu!, La
Düsseldorf, primeiros Kraftwerk) no Japão, bem como em vários álbuns dos
La!Neu?
FM - Concorda que “Appearance and the Park” é bastante mais melódico do que
o seu antecessor? Por vezes soa quase aos OMD. Um passo na direcção de uma nova
vaga de electropop, talvez?
ANDREAS REIHSE - Bem, preferia que tivesse pensado nos The Normal, nos
Human League ou nos New Order... Ou num grupo funk de Nova-Iorque, como os
Liquid Liquid. De qualquer forma estamos nos anos 90 e não é nosso propósito
sermos uma banda retro.
Haiku de Banana
FM - Quem é Banana (!?) Yoshimoto cuja poesia é referida no álbum?
ANDREAS REIHSE - É uma jovem escritora japonesa com um estilo muito fácil
de leitura (ok, só conhecço as traduções...) mas que é capaz de traduzir
sentimentos muito profundos com um mínimo de palavras, um pouco como os haikus.
Da mesma forma nos Kreidler procuramos usar sons e melodias o mais puro e
simples possíveis para exprimir sentimentos como a saudade e proporcionar algum
conforto, aceitando as coisas de uma forma activa e não passiva, tentando
transformar as más em algo positivo para o auditor. algo que também se encontra
em “Crash”, de David Cronenberg.
FM - Detlef Weinrich também fala dessa “forma de aceitação das coisas”. Há
aí alguma conotação com o zen?
ANDREAS REIHSE - É sem dúvida algo japonês, mas não somos nenhuns budistas!
FM - Curiosamente parece existir uma ligação entre os músicos electrónicos
alemães e o Japão. Estou a lembrar-me de Holger Hiller, que tem um álbum
inteiro, “Little Present”, feito a partir de sons gravados em Tóquio. Além de
que vocês agradecem a uma quantidade enorme de japoneses neste disco...
ANDREAS REIHSE - Conhece “Little Present”! Brilhante! Adoro esse disco.
Quando estive com Klaus Dinger em Tóquio recebi-o como presente. Fiquei muito
impressionado com a cidade, com os seus sons, as cores, as pessoas, tudo. Não
me lembro de alguma vez me ter sentido tão bem (soa um bocado patético, na?). A
cidade tem uma vibração ultra positiva (ainda mais patético!...) que não se encontra
em nenhum lugar da Europa. Fiquei com uma quantidade de amigos em Tóquio. Mas é
uma cidade que transmite igualmente imagens de um desespero muito belo e puro.
FM - E a Itália? O disco tem canções chamdas “Il Sogno di una Cosa” e
“Venetian blind”...
ANDREAS REIHSE - “Il Sogno...” é uma frase original de Karl Marx. Pier
Paolo Pasolini usou-a como título para um dos seus livros. Por outro aldo sinto
que existe uma ligação qualquer entre o Japão e a Itália que não consigo
explicar.
FM - Insistem em conotar os Kreidler com o conceito de “frieza”. Os novos
homens-máquina?
ANDREAS REIHSE - Homens-máquina, nunca! Talvez só por brincadeira é que
joguemos com esse género de atitude. Sentimos mais atracção pelo escuro e pelo
frio, mas também tem que existir um antagonismo. E, evidentemente, sempre uma
espécie der saudade.