10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
26.09.1997
Entrevista a Anne Clark
Poesia Electrónica Na Aldeia Global
No novo álbum, “Word Processing”, Anne Clark entregou os seus textos nas
mãos de gente como Global Youth, Sleepers Revenge ou Juno Reactor. Uma série de
remisturas tecno que oblitera o lado poético desta autora que se apresentará,
amanhã, ao vivo, na Aula Magna, com um espectáculo acústico.
“A anrquia criativa” é o método de composição seguido por Anne Clark, com o
qual tem procurado estruturar um novo papel para a linguagem poética. Entre o
niilismo punk, o romantismo acústico e o processamento electrónico.
FM - Nos anos 80 esteve ligada ao projecto Psychic TV, cujos métodos de
trabalho passavam por processos de manipulação através do som e da palavra. Já
fez alguma coisa semelhante?
AC - Hoje em dia o meu trabalho tem mais a ver com um combate contra a
manipulação das imagens do que com a linguagem propriamente dita, que está a
sofrer. Afastei-me do tipo de trabalho efectuado pelos Psychic TV ou, antes,
pelos Throbbing Gristle. De uma forma ou de outra toda a gente usa a linguagem
como uma forma de manipulação. Comunicação é manipulação. Tanto pode ser
negativa como positiva.
FM - “Word Processing” assenta numa base lectrónica tecno. Não acha que, a
este nível, se pode falar ainda de manipulação através do som?
AC - Há um lado ritual, quando milhares de pessoas se juntam a dançar ao
som de música tecno. É um regresso ao tribalismo, algo necessário, agora que
deixou de existir segurança e se estão a perder os valores religiosos. Não
penso que seja negativo o facto de uma quantidade de pessoas ficarem ligadas
pela música.
FM - Qual é o lado positivo?
AC - As pessoas sentirem que fazem parte de uma tribo, sentirem-se
confortáveis. Há como que uma libertação e uma partilha. Acontece o mesmo com
um livro, a pintura, o cinema ou a televisão. As pessoas lêem um livro para saberem
se há mais alguém a pensar como elas.
FM - Concorda com a utilização de drogas como o “ecstasy” para reforçar
esse estado de espírito?
AC - Não, nem dessa nem de outra droga qualquer. Já há tantas maneiras para
sair da realidade que não são necessários os químicos. Mas as pessoas que
sentem essa necessidade não devem ser proibidas de o fazer.
FM - O que pensa da utilização de textos subliminares?
AC - Interessei-me bastante por técnicas desse tipo, no passado, mas acabei
por achá-las lamentáveis. Eram algo de ameaçador.
FM - No fundo da caixa do seu novo CD está impresso um texto com informação
técnica detalhada relativa à gravação, um jargão saturado que acaba por esconde
rmais do que revelar...
AC - Todo este projecto tem a ver com levar o meu material até aos seus
limites, através da tecnologia. Precisamente o “word processing” do título. Não
coloquei quaisquer reservas ou limitações aos diversos autores das remisturas,
tiveram inteira liberdade para fazer o que quisessem. Nalguns casos processaram
as minhas palavras de maneiras bastantes estranhas... Gosto bastante das faixas
remisturadas pelos Mouse On Mars, e de “Nida”, pelos Saafi Bros.
FM - “A linguagem é um vírus” como escreveu uma vez “William Burroughs?
AC - “Do espaço exterior”, não é? Parece que os incas também vieram de
lá... um vírus? Não creio. A linguagem, no seu todo, enquanto fonte imediata de
imagens, está a desaparecer.
FM - Com a substituição da linguagem por outras formas de comunicação
electrónica, como a realidade virtual, os poetas correm o risco de ficar sem
emprego?
AC - Penso que sim [risos]. A informação está a tornar-se cada dia que
passa mais sensacionalista, mais tablóide. Tudo se reduz ao superficial, deixou
de haver profundidade. Há milhões de revistas e jornais a falarem de todas as
coisas, enquanto os livros a sério são cada vez menos.
FM - No romance de George Orwell “1984”, o governo apagava sucessivamente
as palavras, como forma de aumento de poder e de controlo. Sem palavras não há
pensamento.
AC - Penso que a situação actual tem mais a ver com as formas de poder de
Aldous Huxley do “Admirável Mundo Novo”, do que com George Orwell. Em Orwell é
o controlo através do medo. No “Admirável Mundo Novo” é o controlo através do
prazer e do consumo. A única forma de resitência a isto é tentar modificar o
estilo de vida, não comprar um carro novo todos os anos ou trocar de mulher de
três em três meses...
FM - Acredita na existÊncia da alma humana?
AC - Acredito na energia humana. Quanto à alma, gostaria realmente que ela
existisse.
FM - Costuma referir-se a um “anarquia criativa” que determina os seus
métodos de trabalho.
AC - O que tento fazer é atravessar o mundo e procurar compreendê-lo, as
coisas que fazemos uns aos outros. As pessoas vêm ter comigo para me mostrar
novos sons e novos textos.
FM - Procura fazer passar nos seus textos alguma forma de mensagem
explícita, como fazia na altura em que fazia parte da cena punk dos anos 70?
AC - Limito-me a mostrar, enquanto indivíduo, as minhas reflexões sobre o
mundo que me rodeia. Na altura do punk aconteceram uma quantidade de coisas
malucas ao mesmo tempo; as pessoas juntavam-se para tocar sem nunca terem
pegado num instrumento antes. Eu gostava de poesia e de música. Por que não
reunir as duas?
FM - As palavras tanto podem ferir como curar. Qual o efeito das suas?
AC - Como toda a gente, provoco as duas coisas. Espero que os meus textos
ajudem a curar, mas sei que já feri as pessoas - faz parte da natureza humana.
FM - O que pensa de uma cantora como Diamanda Galas? É alguém que pode
deixar marcas profundas...
AC - Adoro-a. Gostaria de um dia trabalhar com ela. Lembro-me de assistir a
um concerto dela, há alguns anos, em Londres, e de ver pessoas a sentirem um
sofrimento físico. É uma “performer” que desafia realmente a audiência e que se
pode tornar assustadora.
FM - Vai fazer algum tipo de “perfomance” no concerto de Lisboa?
AC - Vou trazer uma banda de seis pessoas e um dançarino. Música gerada
exclusivamente por meios electrónicos corre o risco de se tornar muito
aborrecida de se ver, com uma quantidade de máquinas e apenas uma pessoa.
FM - A seguir a este disco já está a preparar outro, sobre a poesia de
Rilke.
AC - Gosto de experimentar diferentes estilos e ambientes. Como ser humano
que sou, posso acordar numa manhã com um determinado estado de espírito e mudar
ao longo do dia para outro. É um “work in progress” constante. Num dia posso estar voltada para a música
electrónica e no seguinte preferir uma linguagem acústica, mais intimista.