10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
19.06.1998
Entrevista a Artur Fernandes (Danças Ocultas)
Danças Ocultas Respiram Em Novo Disco
Ar De Fole
“Ar”, segundo álbum do grupo de concertinas de Águeda, Danças Ocultas,
recria as micropaisagens do universo dos foles, ao mesmo tempo que respira as
altitudes cósmicas da serra. Artur Fernandes carregou no s botões para o
PÚBLICO.
Compor formas de música original para concertina é o objectivo prioritário
dos Danças Ocultas. Mesmo que, para tal, seja preciso inventar um instrumento
novo, como a concertina baixo, e reprimir as tentações de virtuosismo.
FM - “Ar” respira ambientalismo por todos os poros...
ARTUR FERNANDES - Do título, o mais simples possível, à capa, com um mínimo
de texto, a preocupação foi que a música pudesse dizer tudo a partir do
elemento, o ar, que faz funcionar o nosso instrumento. Foi-se embusca de
imagens que se inserissem no contexto estético abordado neste disco, esse tal
ambientalismo ou paisagismo.
FM - Podemos falar de micropaisagens?
ARTUR FERNANDES - Sem dúvida nenhuma. O reportório incluído tem bastantes
pormenores. Poderíamos falar, quase, na teoria do caos, em que há o
macropormenor, o médio pormenor e o micropormenor. Existe um balanço, um ritmo
instalado e depois, aí dentro, aparece uma melodia deste, um pormenor daquele,
uma resposta de um terceiro, até se chegar à densidade que procurámos para este
disco.
FM - Esse trabalho exige um determinado tipo de experimentação?
ARTUR FERNANDES - Seis ou sete dos temas já tinham sido tocados nos
concertos. Fomos experimentando coisas mais arriscadas. Apercebemo-nos de que
músicas mais densas, com mais contrapontos melódicos e informação, não eram
rejeitadas pelo público. Mas no fundo o que continuamos a fazer é ir buscar
aquilo que eu chamo a vontade do instrumento. Há determinados contornos
técnicos dos dedos que são extremamente fáceis e que por vezes resultam em
coisas absurdas mas que, se forem bem arranjadas, podem funcionar bastante bem.
Arranjos que foram feitos na totalidade em oficina, por todos os elementos do
grupo.
FM - Aparecem a tocar pela primeira vez uma concertina baixo.
ARTUR FERNANDES - Precisávamos de ter mais notas nos graves. Ou mandávamos
construir uma concertina com mais botões na mão esquerda, ou inventávamos nós
uma solução. Foi o que fizemos. Juntámos duas partes esquerdas - de baixos - de
concertinas e um fole maior, par apoder ter mais interesse cénico. No lado que
acrescentámos pusemos as tais notas que falatavam.
FM - Que fontes de inspiração jorraram em “Ar”?
ARTUR FERNANDES - A grande referência á Astor Piazzolla, a quem fizemos uma
espécie de homenagem no tema de abertura, “Escalada”. Outras referências
importantes foram Riccardo Tesi, Kepa Junkera, John Kirkpatrick e a Sharon
Shannon. Mas nunca num sentido seguidista.
FM - Todos esses nomes não dispensam, de uma maneira ou de outra, exibir o
seu virtuosismo, ao contrário das Danças Ocultas...
ARTUR FERNANDES - Sem dúvida. Poderá haver aí um factor genético. Por
exemplo, os bascos, como o Kepa Junkera, são muito mais “virtuoses” do que os
portugueses, não só no acordeão como noutros instrumentos tradicionais. Mas nós
procuramos o nosso valor e não as nossas limitações. Valorizar a expressão em
dtrimento do virtuosismo. E virtuosismo não é só tocar depressa... Sentomo-nos
bem a tocar dentro de determinada estética, a tal música paisagista, e tentamos
explorá-la da melhor forma possível. De resto, tanto o Kepa Junkera como o
Riccardo Tesi gostaram imenso do nosso primeiro disco.
FM - Por falar em qualidade musical e ausência de virtuosismo, o tema
“Pinguim no meu jardim” tem alguma coisa a ver com o Penguin Cafe Orchestra?
ARTUR FERNANDES - Tem. É um tema do Bitocas, o técnico de som do grupo, que
sempre gostou muito dos Penguin Cafe. O tema é uma espécie de homenagem a uma
certa forma e fazer música que é a do grupo inglês.
FM - A influência da música búlgara não é muito evidente em “Bulgar”...
ARTUR FERNANDES - Sim... É uma questão de acentuações. A divisão rítmica
está lá, um compasso de 7/4, no início e no fim do tema. No entanto, não
quisemos acentuar demasiado para não se perder o tal lado contemplativo.
FM - O que são as ilusões de “Quatro ilusões”?
ARTUR FERNANDES - São ilusões rítmicas. É uma valsa um pouco mais rápida em
que, de vez em quando, o ritmo ternário se transforma em binário, passando a
ser uma marcha. São quatro melodias que se vão metamorfoseando ritmicamente.
FM - Há alguma razão para continuarem a não deixar entrar mais nenhum
instrumento, além da concertina, no grupo?
ARTUR FERNANDES - Mas tentamos que o grupo não seja o projecto para um
instrumento... A maior parte das formações instrumentais, do tipo quarteto de
saxofones, quarteto de harmónicas, ou trio de cordas, baseiam o reportório em
adaptações, de música clássica ou outra qualquer. Nós fazemos música nova para
a concertina. Acabamos por ser um projecto mais de quatro pessoas que, por
acaso, tocam o mesmo instrumento.
FM - Além da sua participação nos Sons da Lusofonia, faz também parte de
outro grupo, não é verdade?
ARTUR FERNANDES - Sim, os 4 Portango, em que tocamos Piazzolla. Fizemos a
banda sonora do filme “Mortinhos por Chegar a Casa” [de Carlos da Silva e
George Sluizer] e participámos recentemente na Cimeira Mundial de Tango.
FM - Vai ser difícil arrumar este disco nas prateleiras das lojas. “Música
ambiental”, “world music”, “especial instrumentos”?...
ARTUR FERNANDES - Talvez uma estante só para as Danças Ocultas. Em termos
internacionais, poderá ser incluído em “world music”, embora não goste muito da
designação, porque toda a música é “world”.
FM - Onde é que foi tirada a foto da capa?
ARTUR FERNANDES - Num local da serra do Caramulo chamado Urgueira, no
concelho de Águeda. É Portugal, como poderia ser a Colômbia ou o Tibete.