10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
29.05.1998
Entrevista a Carla Lopes e Quico (Frei Fado D'el Rei)
Frei Fado D’el Rei Lunares
“Não Fazemos ‘Apartheid’ Entre O Norte E O Sul”
Na Lua procuraram os Frei Fado d’el Rei a dama que iluminasse com o seu
sorriso a música do novo álbum do grupo, “Encanto da Lua”. Lua cheia, lua lisa,
lua sorridente. Eles acham que não e defendem o direito à loucura. Mas a Idade
Média que cantam não é propriamente a idade das trevas. Haja luz.
Carla Lopes e Quico, respectivamente vocalista e teclista e autor das
programações dos Frei Fado d’el Rei, defenderam dianto do PÚBLICO a sua causa.
estão longe dos Madredeus e de uma pose que apenas apela à serenidade,
garantem...
FM - A quem se deve a temática lunar deste vosso novo trabalho?
QUICO - Ao José Martins (baixo e badoloncelo), que é o elemento mais
sonhador do grupo. a ele se deve a pesquisa de textos e o nome do álbum.
CARLA LOPES - O título-tema fala do encanto do Sol pela Lua. O contraste
entre a noite e o dia. Não sei se é uma Lua demasiado bonitinha, como escreveu
na crítica ao disco...
FM - Não acham então que é uma Lua bastante calma e sem grandes relevos? Ao
nível da produção, por exemplo.
QUICO - Mesmo ao vivo, o grupo faz este tipo de som, a base são duas
guitarras de nylon, um baixo acústico e percussão. Como teclista, nunca poderia
fazer nada agreste, tinha de ser algo que encaixasse. Não há propriamente no
disco um trabalho de produção, de limpeza ou de limagem de arestas. Num tema
como “Encanto da Lua” não há, de facto, picos, é uma coisa muito polida e
planante. Mas tenho que reconhecer que por mais que grave, os sons gravados não
são a mesma coisa que os sons feitos ao vivo. E este grupo, ao vivo, tem outra
vida.
CARLA LOPES - Há músicas que não demonstram essa calma, como a “Bailia de
Vigo”, que tem muita vivacidade e bastante percussão. Está cheia de energia. Ao
vivo ainda se nota mais.
FM - De que forma estabeleceram a vossa relação com a Idade Média?
QUICO - Foi, uma vez mais, através do José Martins, que tem uma ligação
grande a esse tipo de música, assim como também é um fã dos Dead Can Dance. E
de Pedro Caldeira Cabral e dos La Batalla. É algo que nos toca. Eu também sou
um bocado apaixonado por essa área e reconheço os estilos, enquanto harmonia no
tempo. “Mediantal”, por exemplo, é um tema épico, gótico à maneira dos Dead Can
Dance.
FM - A gaita-de-foles de Amadeu Magalhães, dos Realejo, traz a vertente
celta. É outra das vossas ligações?
QUICO - Sim, tocar gaitas sintéticas não é propriamente a nossa ideia...
FM - E a presença da convidade galega, Uxia?
CARLA LOPES - É uma bonita voz.. O tema em que canta, “O Anel do meu
amigo”, pertence ao cancioneiro galaico-português, a letra é em galego.
QUICO - Sou amigo da Uxia. Assim como também já trabalhei com os Vai de
Roda, em tempos. A verdade é que andamos sempre entre Portugal e a Galiza. O
Porto, o Norte, a Galiza, está tudo misturado.
FM - O que não impediu de também convidarem dois homens do Sul, Vitorino e
Janita Salomé...
CARLA LOPES - Porque algumas músicas têm muito a ver com o Sul, com a parte
árabe de Portugal. Não fazemos “apartheid” entre o Norte e o Sul... Pegamos e
ligamos influências de vários sítios, dos celtas aos ´rabes.
FM - São um grupo de fusão?
QUICO - Não propriamente. Conseguimos sempre sentir as raízes da música,
popular ou outra qualquer.
CARLA LOPES - O conceito do grupo passa por esse agarrar em diversas
influências. Por exemplo, no outro disco, havia alguma mistura com o fado ou
com o flamenco. Agora inflectimos noutras direcções.
FM - Têm sido frequentemente comparados com os Madredeus, embora este disco
marque um afastamento em relação a eles. Essa comparação prejudica-vos?
CARLA LOPES - As pessoas fazem essa relação talvez pela afinidade de
instrumentos, mas quando ouvem o disco ficam espantadas com a diferença. E
temos percussão, um trunfo nosso, por assim dizer.
FM - Os Frei Fado d’el Rei são um grupo discreto de que só se ouve falar
quando sai um novo disco. A que se deve tanta discrição?
QUICO - Somos um grupo complicado, em termos do tempo de que cada elemento
dispõe. Conseguimos uma disciplina engraçada, ensaiamos religiosamente duas
vezes por semana. Mas não podemos vir todos a Lisboa, não podemos tocar todos
os dias da semana. É complicado.
CARLA LOPES - Eu acho que é por outras razões. Não fazemos uma música
consumista. Se calhar não tem passado na rádio tanto como nós gostaríamos que
passasse. Mas as pessoas que nos ouvem nos concertos ficam a gostar bastante. E
voltam sempre.
FM - Finalmente, o que vos chocou mais quando caracterizámos a vossa música
como “bonitinha”, pretendendo falar de uma beleza apenas superficial?
CARLA LOPES - O sarcasmo...
QUICO - O álbum tem algumas coisas muito profundas. Uma das preocupações
que tenho com este grupo é manter uma sonoridade rude. Se as guitarras estão
desafinadas, muitas vezes vão desafinadas para a gravação. Sinceramente, estou
cansado dos discos “perfeitos”.