10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
10.10.1997
Entrevista a Carlos Martins e Vasco Martins
Carlos Martins e Vasco Martins lançam "Outras Índias"
"Um tipo a bater numas cordas, a fazer um som e a cantar"
Carlos e Vasco Martins partilham uma filosofia comum, com raízes no zen.
Recusam as etiquetas. Cabo Verde é o mundo. E o jazz um ponto - ou uma ponte -
de partida para o caminho do Oriente que ambos perseguem. Em “Outras Índias”,
tudo se prende a algo ancestral: “Um tipo a bater numas cordas, a fazer um som
e a cantar.”
Em “Outras Índias” Carlos Martins e Vasco Martins fizeram, com sucesso, a
fusão das raízes musicais de Cabo Verde com um discurso contemplativo que não
hesitou em voltar as costas ao jazz. Para Carlos Martins, é a concretização do
seu ideal de uma lusofonia verdadeiramente universal. Para Vasco Martins, uma
abertura no seu refúgio “new age” com sede no Atlântico. Uma descoberta a dois.
FM - Quando é que se encontraram e como surgiu a ideia de fazer este disco?
Carlos Martins - Conhecemo-nos há uns anos através de um amigo comum, o
João Freire, uma pessoa que sempre se interessou por Cabo Verde. Numa ocasião
em que ele e o Vasco estiveram em Portugal, andaram à minha procura, só que o
encontro não se proporcionou. Nessa altura eu tocava com a Constança Capdeville
e com a Olga Pratts, que também me disse que o Vasco era de Cabo Verde e
compunha. Fiquei com curiosidade em saber quem era, ainda por cima alguém com o
mesmo apelido do que eu... Até que nos encontrámos finalmente em Roterdão, numa
conferência sobre a diáspora cabo-verdiana. Eu ia falar sobre o que os
emigrantes podem fazer fora do seu país, em termos culturais. O Vasco ia falar
da música de Cabo Verde. Desse primeiro encontro resultou numa ida a Amsterdão,
durante um dia inteiro. Esse dia inteiro fez este disco. Desde a visita oa
museu Van Gogh até às conversas que tivemos. Chegámos ao hotel e tocámos um
bocado. Vimos que as coisas funcionavam.
Vasco Martins - Eu tinha levado apenas uma guitarra para fazer uma
demosntração da música de Cabo Verde.
FM - Já conheci a trilogia atlântica, “Southbound Music”, do Vasco Martins?
Carlos Martins - Já tinha ouvido algumas coisas e não era o tipo de música
que eu queria fazer.
FM - E o Vasco, já tinha ouvido antes a música do Carlos?
Vasco Martins - Era um desconhecido, só sabia que era um músico de jazz com
talento.
FM - Como é que os universos de ambos se ligaram? Esse passeio de que
falaram deve ter sido bonito, mas depois como é que a coisa funcionou no
estúdio?
Carlos Martins - A vantagem é que tudo foi articulado em Cabo Verde. Estive
lá cinco dias antes de vir para cá. esses cinco dias é que fizeram com que o
som se consolidasse. O que se passa é que há uma alma dentro de cada um de nós
que junta, que roça numa extremidade do mesmo universo. Um universo de gostos
comuns, apetências comuns e sonoridades comuns. Depois sobressaiu ainda uma
certa visão zen da música, uma certa orientalidade.
FM - Os discos do Vasco não chegam ao Continente...
Vasco Martins - Gravo pela Celluloid francesa, mas os discos são mal
distribuídos em Portugal. saem em Espanha, nos Estados Unidos, na Alemanha.
Continuo a fazer música electrónica, mas também sinfónica e outras coisas.
FM - A música da sua trilogia é bastante universalista. De que forma
trabalhou nela a influência da música de Cabo Verde?
Vasco Martins - Há duas formas de ver a questão. Uma é a intuição do
ambiente onde o artista vive. A outra é o aproveitamento das raízes, das
tradições. Eu utilizo ambas. Na música da trilogia, está presente a temática de
Cabo Verde, mas não a utilizo de uma maneira objectiva, dou pinceladas, sou
mais um impressionista.
FM - “Outras Índias” é um disco de uma grande serenidade, bastante
diferente do seu discurso mais jazzístico...
Carlos Martins - Uma das coisas que mais gostei de discutir a propósito
deste disco é o facto de existir uma poesia do mundo, ligada a uma certa
dramaticidade da vida, que é algo constante em mim.
escrevo desde miúdo. Quando andava na quarta classe, a minha alcy«unha era
o “Camões”, porque escrevia versos. E continuo a escrever, só que agora mais
música do que texto. Mas há a presença constante da poesia. Logo, não sou um
único Carlos Martins, nem quero sê-lo. Não tenho a mínima culpa de que as
pessoas precisem mais de um único Carlos Martins, para se equilibrarem na sua
crítica.
FM - O Vasco Martins funcionou como um catalisador dessa sua visão poética?
Carlos Martins - Este disco só foi possível de fazer entre mim e o Vasco.
Por isso é que arranjámos um nome, “Outras Índias”, que quer dizer exactamente
“outras coisas”, não digo quais, nem interessa explicar.
FM - A filosofia inerente a este disco não anda longe da partilhada por Rão
Kyao, ou anda?
Carlos Martins - A orientalidade não é um factor que me inspire
musicalmente, linearmente, do tipo “eu penso oriental, a música é oriental”. A
orientalidade está em mim como sensibilidade. O que se passa aqui é que ando á
procura de outro caminho, do Caminho do Oriente. À procura do fado, da morna e
do choro lento. Mas sem tudo o queo que o Vasco tem de Cabo Verde eu não
tocaria desta maneira. É uma relação interactiva.
FM - Este projecto enquadra-se na estética “new age”?
Vasco Martins - A “new age” é muito contestada na Europa porque é tida como
um apêndice de filosofias orientalistas americanas. Hoje em dia, a “new age” já
não é isso. Há bons músicos de “new age” a fazerem bons trabalhos, algun deles
músicos de jazz.
FM - Precisamente, há, sobretudo da parte dos puristas, quem não veja com
bons olhos essa “fuga” de muitos músicos de jazz para essa outra área
musical...
Carlos Martins - Não sou preto, não sou americano, não vivo em Nova Iorque,
não tenho que representar coisa nenhuma do jazz, tenho é que adaptar à minha
música e à minha tradição tudo aquilo que aprendi do jazz, que é uma das
linguagens mais belas deste século e que se tornou universal pela capacidade de
improvisar e sair do seu próprio mundo e de elaborar mundos novos a uma
velocidade vertiginosa. Para mim este disco é um descanso. É uma atitude
assumida. Há quanto tempo é que existem uma guitarra e uma voz a cantar? É
ancestral. Antes da “new age”, antes do jazz, existiu sempre um tipo a bater
numas cordas, a fazer um som e a cantar. É isso que se passa neste disco,
estou-me perfeitamente nas tintas para o resto. Isto para mim representa um
tipo a cantar sobre as harmonias de umas cordas. É antigo, é o que eu sinto e é
o que praticava quando era miúdo, com uma flautazinha no jardim.