10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
07.05.1997
Entrevista a Jaki Liebzeit (Can)
Canibalismos
Jaki Liebzeit recorda os Can a propósito de álbum de remisturas
Os Can foram um dos grupos mais importantes da cena musical alemã dos anos
70. A sua música, marcada pela espontaneidade e pela inovação, tinha a força de
um ritual. Muito por culpa da batida hipnótica do baterista Jaki Liebzeit, um
dos poucos “homens-máquina” de carne e osso. Entre histórias de vómitos, vodu e
futebol, uma certeza: “Os Can nunca foram um grupo de ‘krautrock’!”
Admirador dos Kraftwerk e dos Einstuerzende Neubauten, sem nunca ter ouvido
os Faust, Jaki Liebzeit compara a música dos Can a um jogo de futebol. As
regras são conhecidas mas, iniciado o jogo, nunca se sabe o que vai acontecer.
É esse sortilégio da incerteza e a precisão com que dominaram o acaso que
fizeram a mística do grupo. Liebzeit desfez, diante do PÚBLICO, alguma dessa
magia: “A música dos Can tornou-se inofensiva.”
FM – Nos Can, ficou célebre a batida metronómica da sua bateria. Tratou-se
de uma reacção contra as suas raízes no free jazz?
JL – Em parte, sim. Toquei free jazz durante um ano, mas não me sentia
satisfeito, sentia necessidade de um ritmo que permanecesse constante. Foi
nessa altura que tomei a decisão de tocar d euma maneir amais “monótona”.
FM – Desenvolveu alguma técnica especial?
JL – De início, tocava oa mesmo tempo que uma caixa-de-ritmos. Ao fim de 20
anos, posso dizer que consigo tocar como uma máquina.
FM – O efeito que a sua bateria provocava era equivalente ao das batidas
electrónicas da actual música tecno?
JL – É a mesma coisa. Estou actualmente a tocar bateria convencional numa
espécie de tecno, ao lado de dois jovens músicos, em computadores de ritmo e
sintetizadores. Vai sair em breve um disco.
FM – Nos anos 60 e 70 um concerto dos Can podia estender-se por sete ou
oito horas...
JL – Acontecia, de facto, quando o público e o ambiente eram propícios. era
um divertimento! Em todos os concertos tocávamos sempre de uma forma
espontânea, não havia qualquer alinhamento prévio de canções, como acontece
hoje. Às vezes tocávamos um único tema durante meia hora ou mais. Era tudo
bastante improvisado, talvez “improvisado” não seja o termo indicado, mas essa
tal espontaneidade. Como se conversássemos ou discutíssemos em palco. Podemos
compara com um jogo de futebol. As regras do jogo são conhecidas, mas, antes do
jogo começar, nunca se sabe o que irá acontecer. era esse o nosso sistema. O
fundamental era o modo como fazíamos música no próprio instante. Ainda aqui há
semelhanças com a cena tecno. Apesar de o som não ser o mesmo, existe uma
idêntica abordagem na forma de criação, com a dispensa da escrita. Os Can nunca
escreveram uma única canção. a música desenvolvia-se toda no estúdio, a partir
de uma ideia qualquer.
FM - As pesoas costumavam falar de uma comunicação telepática entre os
cinco membros do grupo. Era assim tão profuno?
JL - Não era telepatia, mas, na realidade, a partir de certa altura, a
comunicação entre nós era tão boa que podia dar de facto essa impressão...
FM - Corria também uma estranha história acerca de certos ritmos vodu que
lhe teriam sido ensindos por um certo personagem, mas que não podiam ser
tocados ao vivo sem autorização, sob pena do infractor ser executado...
JL - Essa é outra história, mas que nunca aconteceu com os Can. A
personagem de que fala era um tocador cubano de congas que veio para a América
nos anos 50, chamado Chano Pozo. A mim nunca me ensinou nada...
FM - Mas há quem jure que você era capaz, num concerto, de voluntariamente
fazer vomitar qualquer elemento da assistência...
JL - Mas isso pode acontecer com qualquer músico, se tocar muito mal!
[Risos.] Bem, fiz de facto algumas experiências, quando tocava free jazz, mas
as pessoas vomitavam por causa do som péssimo, penso eu...
FM - O LSD ajudou a criar a música dos Can?
JL - Não. A música é que devia parecer de tal modo estranha a certas
pessoas que as levava a pensar que andávamos a tomar LSD a toda a hora. Admito
ter tentado algumas vezes, mas sempre sem qualquer relação com a música. Música
e drogas não combinam. A droga não faz tocar melhor, a única coisa em que pode
melhorar aexecução é o que vem de entro do músico. A droga excita e revela
apenas o lado cerebral.
FM - Tantas histórias em redor do grupo apenas comprovam que este se tornou
uma lenda, não é verdade?
JL - Sim, mas apenas na maneira como fazíamos música. É isso que interessa
aos jovens, saberem que não é preciso escrever primeiro, como aconteceu oa
longo dos últimos séculos. Depois, nós e os Kraftwerk fomos os primeiros grupos
a ter os nossos próprios estúdios, no nosso caso, um pequeno castelo nos
arredores de Colónia. Mais tarde, mudámo-nos para uma sala de cinema.
FM - Até que ponto a música étnica influenciou a sua forma de tocar?
JL - Tirei, evidentemente, imensas ideias da música indiana, da árabe ou da
espanhola. Vivi durante algum tempo em Barcelona, onde ouvia flamenco.
Impressionou-me, pelso dançarinos, não pela dança em si, pelo modo como
conseguem tocar o ritmo com os pés no chão, como se fosse uma bateria.
FM - O que ram exactamente as “Ethnological Forgery Series” (“séries de
falsificação etnológica”) que apareceram nos álbuns “Limited” e “Unlimited
Edition”?
JL - Foi mais uma piada. Sentávamo-nos a tocar umas músicas estranhas, em
instrumentos acústicos, e acontecia que, por vezes, acabavam por soar a música
étnica...
FM - Sentiu que a entrada de Rosko Gee e Reebop Kwaku Bah para os Can, em
1977, significavam o fim do grupo?
JL - Sim, mas não por causa desses músicos. Acabar, era apenas uma questão
de tempo. Um grupo tem um tempo aproximado de vida, em termos criativos, de
cerca de sete anos. Depois e sete, oito, na melhor das hipóteses, dez anos, a
criatividade e a tensão entre os músicos desaparecem. Toda a gente conhece toda
a gente. É como estar casado. Nos sete primeiros anos é bom, epois as pessoas
divorciam-se. Os Can deixaram de tocar juntos, mas continuam a ser amigos,
talvez até agora mais do que antes.
FM - Com qual dos dois vocalistas gostou mais de tocar, com Malcolm Mooney
ou Damo Suzuki?
JL - Eram ambos excelentes músicos. Mooney trouxe para o grupo uma
influência americana. Suzuki era mais caótico, mas também mais espontâneo,
inventava as palavras enquanto cantava. Por exemplo, num tema como “Blue bag”,
ele simplesmente viu, no chão do estúdio, uns sacos de lixo azuis e isso foi
suficiente para fazer deles uma letra...
FM - Depois dos Can, envolveu-se noutros projectos e com outros músicos.
Peço-lhe um comentário breve sobre cada um. Michael Rother...
JL - Fez parte de uma espécie d ecomunidade que existia em Düsseldorf, em
torno dos Kraftwerk. Toquei com ele, como com muita outra gente, em estúdio,
desde os Eurythmics, no início da sua carreira, aos Depeche Mode...
FM - Phantom Band...
JL - Um projecto breve que durou apenas dois anos. O conceito que esteve na
sua origem nunca ficou bem claro.
FM - Phew...
JL - Gravei dois discos com ela. O primeiro, initulado “Phew”, com Holger
Czukay e Conny Plank, que, entretanto, já morreu. O segundo, “Our Likeness”,
com membros dos Einstuerzende Neubauten, um dos grupos mais loucos da Alemanha.
FM - Jah Wobble...
JL - Um dos melhores baixistas que encontrei, sem dúvida um dos meus
favoritos. Por norma, não gosto muito de tocar com baixistas, mas Jah é dos
poucos com verdadeiro sentido rímico. Fizemos alguns concertos juntos, no ano
passado. Há uns meses tocámos juntos em Inglaterra, com a Orquestra Filarmónica
de Liverpool.
FM - O novo álbum de remisturas de temas dos Can, “Sacrilege”, o que lhe
parece? Concorda com Irmin Schmidt quando ele diz que, no fundo, é apenas o mais
recente desenvolvimento do “work in progress”, que foi, desde sempre, toda a
música do grupo?
JL - Concordo. Se tivéssemos continuado a tocar juntos, talvez chegássemos
a fazer algo parecido com a música deste disco, provavelmente até mais cedo...
O espírito dos Can está completamente presente no álbum: uma espécie de
liberdade.
FM - Os Can estão maispróximos, hoje, do seu tempo, do que estavam há 30
anos?
JL - Evidentemente. Nos anos 70, era mais difícil às pessoas assimilarem e
aceitarem um som que era capaz de lhes soar um bocado alucinado. Quando
ouvimos, hoje, a música dos Can, não soa, de modo algum, louca, mas como
perfeitamente normal. Nos primeiros tempos do grupo, foi difícil arranjar um
contrato para gravar. Achavam que era uma música demasiado excessiva. Hoje,
pode-se considerá-la bastanre inofensiva...
FM - O que pensa da actual onda de interesse em torno do chamado
“krautrock”?
JL - Grande parte deve-se oa interesse suscitado plo livro de Julian Cope
[“Krautrocksampler”, citado na bibliografia deste dossier”]. “Krautrock” que é,
de resto, uma expressão bastante infeliz, inventada por um inglês maluco.
“Krauts” era como chamavam aos alemães durante a II Guerra Mundial. O mais
estranho é que os próprios alemães acabaram por aceitar o termo. A verdade é
que os Can nunca foram uma banda de krautrock, pela simples razão de que nunca
foram uma banda de rock!