10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
13.03.1998
Entrevista a John Herndon (Tortoise)
Tortoise Implodem Com “TNT”
Para Acabar De Vez Com Os AC/DC
Música que vem do nada, música que se basta a si própria, música desligada
da realidade. Parece óbvio que o novo trabalho dos Tortoise, “TNT”, está a
provocar em alguma crítica nacional e internacional uma dose razoável de
perplexidade. Talvez seja apenas a falta de hábito da pop em lidar com álbuns,
como este, inteiramente instrumentais. “TNT” é, tão só, um excelente disco de
música e, possivelmente, uma gigantesca anedota. não chega?
Para John Herndon, com quem o PÚBLICO falou, é mais do que suficiente.
Aliás, o simples acto de falar parece ser um esforço demasiado intenso para o
multinstrumentista dos Tortoise.
Na ausência de John McEntire, mentor e ideólogo dos Tortoise, coube a John
Herndon o papel de porta-voz do grupo. Parco em palavras, lá foi dizendo que é
apreciador de heavy metal (jurou a pés juntos que não estava a brincar...) e de
Herbie Hancock e que a maior dificuldade na gravação de “TNT” foi conferir-lhe
um “ar de coesão”.
FM - O som do novo álbum é bastante diferente do anterior, “Millions now
Living will never Die”. Houve mudanças nos métodos de trabalho?
JOHN HERNDON - Começámos a gravar há dez meses e acabámos há cerca de dois
meses e meio. O som é, de facto, diferente, mas não tentámos fazer nada de
especial para além de ser um álbum novo.
FM - Foi um trabalho de intuição de momento ou o fruto de uma planificação
prévia?
JOHN HERNDON - Foi algo que se foi revelando e desenrolando à medida que
íamos gravando.
FM - O termo pós-rock ainda faz algum sentido para o grupo? Há ainda algo
de comum entre bandas tão diferentes como os Tortoise, Isotope 217º, da qual,
aliás, também faz parte, ou Stars of the Lid?
JOHN HERNDON - Não fomos nós que inventámos essa designação. Pessoalmente,
não me diz nada. Não passa de uma maneira fácil de os jornalistas expressarem
algo que não é fácil de explicar. Nunca procurámos ser uma banda rock ou
pós-rock... Somos apenas um grupo de música.
FM - Há quem critique essa opção da música pela música, como uma coisa
abstracta...
JOHN HERNDON - Não é suficiente?...
FM - Pode ser, mas as pessoas têm a tendência para querer conhecer mais
pormenores, ideias, perspectivas. Os Tortoise não se preocupam com estas
questões comezinhas?
JOHN HERNDON - A nossa única preocupação é tocarmos os nossos instrumentos
da melhor maneira que pudermos.
FM - Que música é que costuma ouvir em casa?
JOHN HERNDON - “The Dream Police”, dos Cheap Trick, “Back in Black”, dos AC/DC, “Hail to England”, dos Manowar...
FM - Por que razão escolheram um título como “TNT” para um álbum tão pouco
explosivo?
JOHN HERNDON - Precisamente, é o título de um álbum dos AC/DC. É uma
espécie de homenagem de um fã...
FM - Influências. Tentemos por aqui. Por vezes, o som do disco é muito
parecido com o dos Stereolab. Não acha?
JOHN HERNDON - Ocasionalmente, usamos o mesmo tipo de sintetizadores.
FM - E Steve Reich, não me vai dizer que os temas “Ten-day interval” e
“Four-day interval” não são directamente inspirados na música deste compositor,
pois não?
JOHN HERNDON - São, sem dúvida. Durante a nossa última digressão, andávamos
a ouvir “Music for 18 Musicians”. pareceu-nos uma boa música de fundo para uma
viagem através dos Estados Unidos. Soa muito bem quando se atravessa o
deserto... Sei também que John McEntire dedicou algum do seu tempo ao estudo do
minimalismo.
FM - “Swung from the gutter” tem o mesmo tipo de “drive” instrumental de
algum jazz-rock, uma aproximação que também está presente nos Squarepusher ou
nos Isotope 217º...
JOHN HERNDON - Essa é, sem dúvida, uma influência. Ouço bastante o
Squarepusher, mas também jazz-rock dos anos 70, como Herbie Hancock.
FM - “TNT” apresenta um interessantíssimo trabalho de produção. Como é que
trabalharam este disco em estúdio?
JOHN HERNDON - Usámos dois tipos de trabalho. Umas vezes, desmontámos
secções de música, pedaço por pedaço, noutras fomos juntando as partes até
chegar a um todo. Não se trata bem, como alguém disse, e nos remisturarmos a
nós próprios, mas de tentarmos criar sons novos. Uma das tendências é pegarmos
num excerto de música mais forte que já tenha sido gravado, ampliá-lo,
manipulá-lo e processá-lo ao ponto de, no final, o som se ter tornado
totalmente irreconhecível em relação ao original. Mas é apenas uma parte do
processo...
FM - Como é que transportam esse “approach” para o palco?
JOHN HERNDON - É diferente. No estúdio é como se estivéssemos num
laboratório. A partir daí, é como se aprndêssemos diferentes versões dos temas
que possam funcionar ao vivo.
FM - Em “XXX faster light” trabalham de forma bastante original uma
“groove” de “breakbeats”...
JOHN HERNDON - Foi estranho... Gravámos primeiro o núcleo desse tema e
depois fomos experimentando por cima as partes de bateria. Tentámos vários
ritmos, mas nada parecia resultar. Por fim, decidimos aproveitar uma dessas
tentativas, basicamente um “break”, para funcionar como medida do tema inteiro.
Gravámos essa parte e processámo-la através de um filtro de um sequenciador de
ritmos. Depois eu próprio toquei bateria sobre essa sequenciação electrónica. É
como se eu fosse a banda a tocar bateria...
FM - Há uma diferença entre a abordagem rítmica das bandas germânicas como
os Mouse On Mars ou To Rococ Rot e a dos músicos de Chicago, como os Tortoise,
Trans AM ou Gastr Del Sol?
JOHN HERNDON - Não tenho bem a certeza... Não conheço muito bem a música
dos To Rococ Rot. Os Mouse On Mars, sim, são bastante mais electrónicos.
FM - Questão inevitável: em que ponto se encontram as relações dos Tortoise
com o legado musical do “krautrock”?
JOHN HERNDON - Não conheço nada. Dave Pajo [um ex-membro dos Tortoise] será
a pessoa mais indicada para falar desse assunto.
FM - Sabe por que é que ele deixou o grupo?
JOHN HERNDON - Penso que quis dedicar mais tempo ao seu projecto a solo, os
Aerial M.
FM - Há alguma razão especial para o uso intensivo de sintetizadores
analógicos na maior parte dos grupos de... hã... pós-rock?
JOHN HERNDON - Uma certa aleatoriedade na criação das texturas musicais.
FM - Qual foi a maior dificuldade com que se depararam na gravação de
“TNT”?
JOHN HERNDON - Dar ao álbum um ar de coesão, de maneira a não parecer uma
colagem de elementos díspares. Por vezes foi díficil alcançar essa unidade,
juntar todas as partes separadas que já estavam gravadas, sobretudo ao nível
das misturas e do “editing”.