10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
17.07.1998
Entrevista a José Peixoto
Novo Disco De José Peixoto
Deitar Cedo E Cedo Erguer Para Ganhar O Dia
“A Vida de Um Dia”, título do novo álbum a solo de José Peixoto, pode ser a
eternidade. O guitarrista dos Madredeus encontrou o tempo certo no diálogo da
sua guitarra clássica com o silêncio de uma igreja. Em cima e para dentro.
“Para o infinito que pode ser o tempo.”
Depois de “A Voz dos Passos”, editado o ano passado, “A Vida de Um Dia” é o
segundo capítulo de um encontro da guitarra clássica, acústica, com um espaço
de interioridade que só o recolhimento de uma igreja permite. Com José Fortes
na mesa de gravação, José Peixoto aprofundou na Igreja de Cartuxa as vias desse
encontro, que, antes, adquiriu sobretudo os contornos de uma experiência, como
o guitarrista explicou ao PÚBLICO.
FM - Em termos formais, este disco não difere muito de “A Voz dos Passos”,
pois não?
JOSÉ PEIXOTO - Este disco acaba por ser uma espécie de prolongamento do
outro. O outro surgiu como uma experiência que eu nunca tinha feito, de compor
para guitarra solo, enquanto este já parte de uma certeza, de um terreno que eu
conheço.
FM - Ficou, então, alguma coisa por dizer, no álbum anterior?
JOSÉ PEIXOTO - O que ficou por dizer é que tinha, já nessa altura, mais
música do que aquela que está no CD.
FM - Aproveitou alguma coisa dessa música para este novo disco?
JOSÉ PEIXOTO - Aproveitei alguma, coisas antigas que reformulei. Mas a
ideia foi ir um pouco mais longe, aprofundar algumas das ideias.
FM - Aprofundar, como?
JOSÉ PEIXOTO - Ao nível da liberdade de composição. É um terreno um bocado
subjectivo... Aprofundar no sentido de deixar de ser uma experiência, do tipo
“deixa lá ver como é que funciono a compor para um instrumento solo” e já não
haver dúvidas a esse respeito. Partir já com ideias mais sólidas.
FM - Fazer de seguida dois álbuns só de guitarra acústica não será, à
partida, um projecto algo arriscado, e não só em termos comerciais?
JOSÉ PEIXOTO - A guitarra é o meu veículo de expressão. O instrumento que
estudei e que tem sido o meu amigo nestes anos todos. Comercialmente falando, é
um facto que é um luxo eu poder fazer esta música, sem ter preocupações de
vendas.
FM - Esta sua carreira a solo, com gravações em igrejas, é um escpae à
máquina dos Madredeus?
JOSÉ PEIXOTO - É um projecto paralelo que já vinha de trás e que tenho
necessidade de alimentar.
FM - Por que razão voltou a escolher uma igreja, a da Cartuxa, em Caxias,
como local de gravação?
JOSÉ PEIXOTO - Foi uma igreja como podia ser um outro espaço acústico.
Houve a preocupação de encontrar um espaço favorável à emissão de som. A música
não é mais do que ar em movimento. A vantagem de ter uma atmosfera activa, como
a de uma igreja, é não ser necessário usar qualquer artificialismo. A primeira
sensação que tive, das duas vezes em que entrei nesta igreja, foi o próprio som
dos meus passos. É logo uma sensação de prazer que surge de forma automática. O
prazer físico do som.
FM - Um prazer que tem necessariamente de ser solitário?
JOSÉ PEIXOTO - ... Com o José Fortes, que foi uma parte essencial neste
processo todo. Mas é, de facto, uma intimidade absoluta, um prazer solitário.
Mas a minha natureza dá-se bem com esta situações. Estou, como se costuma
dizer, a jogar em casa.
FM - Há alguma razão especial para a escolha do título?
JOSÉ PEIXOTO - “A Vida de Um Dia” pode ser um despertar de várias maneiras.
É um espaço aberto para o interior. Para o infinito que pode ser o tempo. A
medida do tempo é uma coisa muito relativa. A vida de um dia pode ser um todo.
Onde cabe tudo.
FM - Sente-se nesse tempo a presença, muito subtil, quase subliminar, do
flamenco.
JOSÉ PEIXOTO - Eu ouço muito flamenco. É uma expressão incrível e um tipo d
emúsica onde a guitarra cumpre plenamente. Mas não se pode dizer que tenha uma
sensibilidade de flamenco. Identifico-me apenas como ouvinte. Gosto de Paco de
Lucia, Tomatito, Vicente Amigo...
FM - A sua música é uma música triste?
JOSÉ PEIXOTO - É melancólica. Solitária. Estes discos são uma espécie de
auto-retratos. Acabam por ser um espelho do que eu sou.
FM - Como é que cocilia o ritmo de trabalho dos Madredeus com essa sua
costela de solitário?
JOSÉ PEIXOTO - Defendo-me com a disciplina. Durante as viagens, por
exemplo, para poder preservar o meu tempo e o meu espaço. Outro exemplo: a
seguir aos concertos não vou jantar. Não gosto de comer nem de me deitar muito
tarde. Acabo por fazer uma vida mais saudável, que me permite ter mais tempo
para estudar ou para trabalhar.
FM - A guitarra eléctrica não faz parte do seu vocabulário. Poquê?
JOSÉ PEIXOTO - Quando era mais novo tocava guitarra eléctrica. Mas a partir
do momento em que comecei a estudar guitarra clássica abriu-se-me um mundo à
frente que não sei se uma vida inteira chegará para o desbravar. É uma paixão.
Mas também já toquei alaúde árabe...
FM - ... Sob o pseudónimo de “El Fad”. Esse outro mundo, o da música árabe,
ficou para trás?
JOSÉ PEIXOTO - Ficou para trás porque representava apenas uma determinada
fase. Entretanto, vamos amadurecendo e a idade leva-nos para outros lados. Mas
continuo a ouvir música da Tunísia e do Egipto, e músicos como o alaúdista
Anouar Braheim.
FM - Podia perfeitamente editar os seus discos numa editora como a ECM.
Gostava?
JOSÉ PEIXOTO - Acho que sim. Aliás, tenho feito contactos com ela sempre
que gravo. Mas como não tem havido nenhum “feedback”... É preciso dar tempo ao
tempo. E era preciso eu ter esse tempo para me dedicar a esse tipo de
contactos. Embora isso, se calhar, seja mais simples do que se imagina. A
oportunidade pode surgir de repente. A ECM não é uma editora inacessível.
FM - Existe alguma estrutura especial na forma de “A Vida de Um Dia”?
JOSÉ PEIXOTO - É como se desenhasse uma circunferência.
FM - Já se ouviu neste disco?
JOSÉ PEIXOTO - Já. Fiquei surpreendido porque achei que estava bastante
melhor do que quando o acabei de fazer. Tenho a sensação de estar agradecido a
mim mesmo por tê-lo feito. Agradecido porque se não fosse eu a fazer esta
música, ninguém amais a fazia.