10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
25.09.1998
Entrevista a Kepa Junkera
Kepa Junkera, Navegador Da Trikitixa, Parte De Bilbau Para O Resto Do Mundo
Basco Da Gama
“Bilbao 00:00h” é uma metáfora. De uma cidade, Bilbau, e de uma maneira
pluralista de entender a música do mundo. Uma “hora mágica”, um “começo” e um
“ponto de encontro” do Norte celta, do Sul árabe e do mar, nas margens do País
Basco. No meio da imensidade de estrelas convidadas por Kepa Junkera, está Dulce
Pontes.
Kepa Junkera é um navegador. Das possibilidades ocultas da trikitixa
(acordeão diatónico) e das m´sucias que nascem do encontro entre diversas
tradições. O “vituose” basco descreveu para o PÚBLICO algumas das etapas desta
viagem.
FM - “bilbao 00:00h” é um disco sobre uma cidade ou um disco sobr o mundo?
KEPA JUNKERA - É um trabalho em que procurei reflectir a forma como encaro
a música, uma espécie de resumo da minha carreira, iniciada há 15 anos, de
todas as experiências que fui acumulando durante este tempo. É também um disco
sobre o mundo, o mundo musical, mas é sobretudo uma homenagem à minha cidade, a
terra onde nasci e cresci, um meio urbano que influenciou a minha maneira de
ver a música. É ainda outra homenagem, a Astor Piazzola, um dos músicos que
mais me marcou, pela sua música e pelo seu carácter.
FM - Por que razão escolheu para título uma hora como a meia-noite?
KEPA JUNKERA - Pretende ser uma metáfora. É uma hora mágica, um começo, um
ponto de encontro. Atravessamos um momento no qual muitos jovens músicos
começam a destacar-se, reclamando a atenção de público.
FM - Quem é Román Urraza, a quem o disco é dedicado?
KEPA JUNKERA - Era o meu avô materno. Tocava pandeireta. Ele e a minha mãe
foram as pessoas que me deram a conhecer as raízes musicais do meu país.
FM - Gostaria que pormenorizasse um pouco, algumas colaborações do disco:
La Bottine Souriante, Dulce Pontes, Hedningarna, Phil Cunningham, Alasdair
Fraser, Mairtin =’Connor e Liam O’Flynn.
KEPA JUNKERA - Os La Bottine Souriante, considero-os uma das melhores
bandas de todos os tempos. Conheci-os há cinco anos, num festival no Quebeque.
Dulce Pontes tem uma voz que não consegue passar despercebida. Convidámo-la
para um concerto em Madrid, em Dezembro do ano passado. Propusemos-lhe gravar
em basco um tema tradicional, “Maita nun zira?”, que ela cantou logo à
primeira. Faz algum tempo que a música portuguesa tem uma palavra a dizer no
panorama internacional, é um país de grandes músicos. Sempre me interessei, por
exemplo, pela concertina, tão presente na música do Norte de Portugal. Quanto
aos Hedningarna, a sua forma de tratar as melodias tradicionais, combinando-as
com instrumentos vanguardistas, facilitou a ruptura com velhos esquemas,
transportando a música para terrenos inexplorados.
Phil Cunningham, Alasdair Fraser, Mairtin O’Connor e Lyam O’Flynn
representam a perspectiva celta, a partir do Norte.
FM - “Fali-faly” foi feito de propósito para mostrar o “virtuosismo” dos
vários solistas envolvidos?
KEPA JUNKERA - É um hino à alegria onde cada músico contribui com os
respectivos instrumentos, timbres e formas de interpretação específicos.
Definitivamente, é o tema que melhor reflecte o que este disco pretende contar.
FM - Como aparece a referência a Portugal, em “Del Hierro a Madagascar”?
KEPA JUNKERA - A letra foi escrita por Pedro Guerra que, melhor do que
ninguém, captou a componente da viagem que este disco necessariamente tem. E
quando se fala em viajar não se pode evitar fazer referência ao mar e a
Portugal, um dos países que melhor soube integrar outras culturas na sua
cultura. Para os portugueses, como para os bascos, o mar constitui uma parte
importante da sua tradição.
FM - Além de um forte contingente galego (Nunez, Budino, Beceiro),
participam neste disco músicos ligados às tradições do Sul de Espanha, como o
Luis Delgado ou o Fain Duenas...
KEPA JUNKERA - Sim, e o Sebastian Rubio ou o Pedro Estevan. Nos últimos
tempos temos sido bombardeados por música celta, eles trazem consigo outras
formas de expressão que se fundem com naturalidade.
FM - O que mudou, de “Leonen Orroak”, com Ibon Koteron, para este novo
álbum?
KEPA JUNKERA - “Leonen Orroak” era um trabalho mais experimental, uma
tentaiva de descoberta de todas as possibilidades de um instrumento ancestral,
a alboka, de exploração dos seus segredos e mistérios. “Bilbao 00:00h” é
diferente, uma reunião, algo aberto, motivo de alegria e de festa, onde podemos
encontrar a alboka e a txalaparta compartilhando o mesmo espaço com a valiha, o
acordeão e os teclados.
FM - “Bilabo 00:00h” é uma aposta evidente no mercado internacional. Este
facto influenciou, de alguma forma, aspectos musicais como a produção ou os
arranjos?
KEPA JUNKERA - Não. Através dos meus discos procurei sempre colaborar com
outros artistas, explorar diferentes timbres, sonoridades e instrumentos. Não é
um disco muito diferente dos outros. A quantidade de convidados é, sem dúvida
maior, mas a ideia central permanece a mesma. Não se trata de uma moda, mas de
uma necesidade.