10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
01.05.1998
Entrevista a Maria João e Mário Laginha
Maria João E Mário Laginha Gravam A Cores
Atirar A Melodia Ao Ar E Apanhá-la
Maria João escreveu todas as letras, todas as palavras. Mário Laginha
compôs os sons. “Cor” é uma viagem entre a “confusão indescritível” de Nova
Deli e a “felicidade” do canto africano.
“Cor” tem todas as cores da voz de Maria João e do piano de Mário Laginha
que unem a Índia a Moçambique. Contou ainda com a bateria e as percussões do
indicano Trilok Gurtu e com as guitarras de Wolfgang Muthspiel. Música do
mundo, numa encomenda feita pela Comissão dos Descobrimentos para a exposição
“As Culturas do Índico”, no âmbito da Expo-98. Na calha está uma remistura de
dança de um dos temas.
FM - Escolheram a Índia e Moçambique como as duas margens para o álbum.
estiveram mesmo lá? Estudaram as culturas?
MÁRIO LAGINHA - Fomos realmente aos sítios, mas houve a preocupação de não
estudar cada estilo, cada raga, por exemplo, o que, provavelmente, resultaria
em música indiana pior do que aquela que é feita por músicos indianos. O mesmo
em relação a África. Fomos lá, inspirámo-nos, ouvimos música, comprámos discos,
cheirámos, passeámos, captámos o pulsar de um país.
FM - Para a Maria João foi mais natural integrar a voz na vertente
africana?
MARIA JOÃO - É-me mais familiar. Não tenho estado em África nos últimos
anos, nem tenho uma memória presente da música africana, embora tenha ido a
Moçambique com a minha mãe, que é natural de lá. Digamos que a África está
actualmente mais próxima da minha própria lingaugem. Depois do scat e das
músicas de vanguarda, a África desaguou na minha personalidade. É uma forma
feliz de utilizar a voz e isto tem a ver com a felicidade, com estar bem.
Exprimir coisas sem utilizar palavras. Sons próximos dos sons africanos. É o
que apetece logo.
FM - E a música indiana? Custou mais?
MARIA JOÃO - Fiquei em pânico. Eles têm uma maneira de colocar a voz muito
matemática que não é maneira africana de improvisar. mas esta forma rápida de
cantar, característica da Índia, tem estado sempre presente na minha música...
As pessoas podem perguntar: “Como é que ela faz, onde é que lea foi buscar?”
Não fui buscar a lado nenhum. Ou fui buscar aos milhares de sons que andam no
ar, que saem dos CD, das cassetes, das vozes das pessoas, milhões de sons que
passam pela nossa cabeça e pelos nossos ouvidos. Uns que ficam, outros não.
Depois tudo se traduz naturalmente cá dentro e acaba por ser a minha própria
for ma de ver as coisas.
FM - Depois da “cantora de jazz” e da “cantora de música contemporânea”,
temos a Maria João “cantora de world music”?
MARIA JOÃO - Esse termo agrada-me. Música do mundo. E a música do mundo
engloba também o jazz, onde continuo a ter um pé. E o coração. Foi o género que
gerou o meu amor pelo improviso, o meu amor ao som. Cantora de world music?
Fixe!
FM - O tema de abertura, “Horn, please”, está cheio de ruídos de trânsito.
Foi assim o início da viagem?
MÁRIO LAGINHA - Foi o que sentimos na nossa chegada à Índia. Mas é um caos
mais pacífico que o caos português. O trânsito em Portugal é infinitamente mais
agressivo, sendo menos caótico. Gravámos as buzinas em Nova Deli.
MARIA JOÃO - Não se vê choques, o que é uma coisa fantástica! Nunca vi um
acidente na Índia, em Nova Deli, no meio daquela confusão indescritível do
trânsito. E, sobretudo, nunca vi ninguém a discutir. Sente-se uma paz, algures,
um certo “veiva e deixe viver”.
MÁRIO LAGINHA - Aliás, o título do tema refere-se ao que escrevem na
traseira dos carros, “Horn, please” 8”Buzinem, por favor”), o que é um contra-senso
para um europeu que, quando muito, escreveria algo como: “Por favor, não
buzine!”
FM - O tema seguinte chama-se “Há gente aqui”...
MARIA JOÃO - É uma continuação. Uma pessoa chega à Índia e vê o quê? A
primeira coisa, além do calor que nos assalta logo, é, além do tal trânsito,
uma enormidade de gente que há na rua. É inacreditável. Há gente em todo o
lado!
FM - A África surge em “Rafael ou a cor de Moçambique”, onde a voz percorre
os registos agudos, muito africanos. É aí que se sente mais à vontade?
MARIA JOÃO - É. Talvez o agudo e o grave, nos extremos, seja onde me sinto
mais à vontade. O registo médio é onde eu tenho mais complicação a cantar. Mas
também se faz (risos)! Mas este nem é dos temas mais agudos. Há um momento,
mais à frente, agudísimo, que foi mal misturado. A minha voz é de soprano,
suponho eu. Um soprano com graves. estas coisas africanas saem porque a voz
dispara sem problemas, sem entraves, sem pensar.
FM - Depois há os temas mais “conrolados”, mais próximos da balada, como
“Nazuk”, em que a felicidade de que falava há pouco é substituída por uma certa
melancolia...
MARIA JOÃO - “Nazuk”, que significa “frágil”, foi o único tema composto em
Nova Deli. É acerca de um elefante. Um elefante que anda pelas ruas carregado
de pinturas e de coisas no meio daquela confusão de gente. Um pobre elefante
com ar perfeitamente submisso. Fez-me impressão. Andei no elefante no meio da
rua, desclaça, subi para cima dele. Mas aquilo tocou-me. É um elefante fora do
sítio.
FM - “Saris e capulanas” regressa a um lugar pouco determinado.
MÁRIO LAGINHA - É um tema com uma história engraçada. Eu tinha um balanço
para o que se devia chamar “O meu sari amarelo” (como se percebe, um título
inventado pela João, aliás como todos os outros), mas não estava a sair nada
indiano. O Trilok estava a tocar tablas e só me dizia: “I don’t know what to do
here...”
MARIA JOÃO - Até que às tantas descia voz, ouvi o ritmo, e pus-me a dançar samba. E logo o Trilok: “Ah, brazilian! Now I know what to do!”.
No fim do tema há uma percussão vocal minha e dele que me deu muito gozo
fazer.
FM - O solo de guitarra no meio de “Preto e branco” foi composto ou
improvisado?
MÁRIO LAGINHA - É um improviso. Continuamos a ser, para todos os efeitos,
músicos ligados ao jazz. E é isto, aliás, que nos afasta um bocado da world
music, que é muito mais fechada, não tão livre como a música que nós fazemos.
MARIA JOÃO - E onde eu mudei a melodia, das coisas que maior gozo me dão.
Não dar cabo da melodia mas moldá-la, dar-lhe voltas, atirá-la ao ar e
apanhá-la outra vez.
FM - Quem é o Charles de “Charles
on a Sunday with Sunday clothes”? É
o tema que se aproxima mais da típica balada de jazz.
MÁRIO LAGINHA - Aqui a ideia tem a ver com a Inglaterra que está
completamente presente no tema. Chegámos a perguntar à Comissão dos
Descobrimentos se não havia problema em focarmos um aspecto que fugia um pouco
à temática principal.
MARIA JOÃO - O meu filho, no Natal, fez um desenho para dar ao pai que
dizia: “Carlos, no Natal, com roupa de Natal.” Achei o título delicioso. Então
comecei a imaginar um inglês, em 1920 - quando os ingleses ainda estavam na
Índia -, com as suas roupas escuras, que leva com aquele bafo de cor, bafo de
gente. Mas é alguém que fica absolutamente apaixonado, viciado na Índia.
FM - É verdade que já houve uma proposta para fazer uma remistura de música
de dança para “Nhlonge yamina”, o tema seguinte?
MARIA JOÃO - Sim, uma dance remix, proposta pela Polygram.
MÁRIO LAGINHA - Temos que ouvir primeiro antes de dar uma opinião. É que a
versão do álbum já é dançável, não tem é aquela vertente de discoteca. Mas
atrai-me a ideia do tema ser dançado numa discoteca.
FM - Nunca se interessaram pela electrónica?
MÁRIO LAGINHA - Não tenho nenhum preconceito contra. Só que neste momento
há muita gente a tocar teclados, toda a gente toca. Acabo por achar que sou
mais especial, que tenho uma “voz” mais identificável, enquanto pianista
acústico.
MARIA JOÃO - As cantoras de vanguarda que tenho ouvido, já desde a Flora
Purim, utilizam a electrónica como extensão da voz para conseguir efeitos. Isso
irrita-me! O que gosto de fazer é usar as minhas reais capacidades e levá-las
ao limite. Mas se calhar, daqui a cinco anos, vai-me apetecer imenso fazer algo
nesse campo... As vozes das pessoas têm n cores. A maior parte dos e das
cantoras tendem a cantar numa só direcção, numa cor e voz, e a instalar-se aí.
Eu posso cantar em todas as cores. Todas as que me passam pela cabeça. Do mais
claro ao mais escuro.
FM - A viagem fecha com “Forbidden love affair”, de novo com acompanhamento
de buzinas...
MÁRIO LAGINHA - É um dos temas mais indianos e um dos que concretizam uma
ideia central deste trabalho: não entrar por jogos de palvras
pseudo-intelectuais, mas sim contar histórias bem e de uma forma musical.
MARIA JOÃO - Foi um tema que aprendi no estúdio e o último a ser feito.
Havia um sítio para improvisar, só que não me apetecia nada improvisar aqui,
improvisar o quê? Então decidi improvisar com uma letra. Veio-me à cabeça uma
série que passou na televisão há muito tempo, “A Jóia da Coroa”. Lembro-me que
havia a história de um indiano e de uma inglesa, passada em 1908, que se
chamava, precisamente, “A forbidden love affair” (“Um amor proibido”). Havia a
dificuldade de eles atravessarem uma ponte para se encontrarem.
Nota:
Lobos Sinfónicos
Além de “Cor”, Maria João e Mário Laginha têm outro disco já pronto. Chama-se “Lobos, Raposas e Coiotes” e foi
gravado com a Orquestra Sinfónica de Hannover, dirigida por Arild Remmereitt. A
paresentação ao vivo está marcada para 2 de Junho, no Dia de Honra da Siemens,
na Praça Sony no recinto da Expo. A 4 de Junho os “Lobos, Raposas e Coiotes”
irão até ao Europarque, em Vila da Feira, Porto. O quarteto de “Cor”, com o
percussionista indiano Trilok Gurtu e o guitarrista alemão Wolfgang Muthspiel,
actua, por sua vez, a 10 de Junho, no palco das docas, também na Expo.