10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
12.06.1998
Entrevista a Maria Kalaniemi
Maria Kalaniemi Reinventa A Folk Finlandesa
A Vida Fora Da Academia
Niekku, Aldargaz, Zetaboo, The Accordion Tribe são alguns dos projectos em
que a acordeonista finlandesa Maria Kalaniemi esteve ou está envolvida.
Impulsionadora da “new finnish music”, “virtuose” do acordeão, destaca a
importância da criatividade e gosta que a sua música conte uma história.
Maria Kalaniemi, que há 15 dias actuou em Portugal, no festival Cantigas do
Maio, defende a sua posição de “marginal”, o que lhe permite repartir a sua
actividade por múltiplos projectos. Numa entrevista ao PÚBLICO fez o resumo da
sua já recheada carreira.
FM - Parece estar sempre em vários projectos ao mesmo tempo. Sente
necessidade em se dispersar desse modo, em vez de se concentrar numa coisa só?
MARIA KALANIEMI - É muito difícl dizer não. Acontece que há cinco, seis
anos atrás, era impossível viver de uma única actividade, sob pena de se ganhar
pouco dinheiro. Fui, de certa forma, obrigada a fazer muitas coisas ao mesmo
tempo. Mas tmabém é verdade que gosto de trabalhar assim, com diferentes grupos
e pesoas. É saudável. Mas o meu projecto principal é, neste momento, os
Aldargaz, embora esteja também a tocar com outras bandas.
FM - O seu último disco, “Iho”, já saiu há três anos. Tem planos para
editar um novo trabalho?
MARIA KALANIEMI - Sim, vamos gravar um álbum novo no Outouno. E, se tiver
tempo, gostaria também de editar um álbum a solo, só com música de acordeão.
FM - Começou por tocar música clássica, antes de entrar para a Academia
Sibelius - como faz, aliás, a maior parte dos músicos finlandeses - e se
dedicar à folk. A frequência desta academia é uma forma dos músicos enfrentarem
a concorrência?
MARIA KALANIEMI - No início tocava formas muito antigas de música de dança
finlandesa. Depois entrei para a academia e comecei a tocar música clássica.
Não diria que é um forma de lidar com a concorrência, até porque há uma
quantidade de músicos que não frequentaram essa escola. Para mim foi importante
porque, por volta de 1983, quando comecei, taratava-se realmente de uma coisa
nova que me fez pensar de uma maneira diferente sobre a música folk. O
professor que tive, Heikki Laitinen, pretendia que fizéssemos uma música que
nunca tivesse sido ouvida antes. Algo que acontece hoje em dia, a toda a hora,
na Finlândia, com grupos novos a aparecerem constantemente, a fazer música
completamente original. É muito importante para qualquer músico folk ter o seu
próprio estilo. De resto, é impossível copiar os velhos executantes, ainda que
seja necessário conservar a ligação às raízes.
FM - como definirai o seu estilo?
MARIA KALANIEMI - É uma mistura de muitas coisas. Como intérprete folk, ou
apenas como intérprete, num sentido mais lato, ouço música de todo o lado, o
que, evidentement, determina o resultado final. Acima de tudo prezo a
liberdade. É verdade que “Iho” já saiu há três anos, mas é bom poder gravara
apenas quando quero, quando há material que o justifique. É o lado positivo de
se ser um músico “marginal”.
FM - Tem alguma explicação para o facto de, comparando com o que acontece
na Suécia, com grupos como os Hedningarna, a música finlandesa gozar de uma
projecção menor no Ocidente?
MARIA KALANIEMI - Penso que essa situação está a mudar aos poucos, embora
não tão depressa como na Suécia. Na Suécia aquilo que poderíamos designar por
uma “new wave” já existe há mais tempo. A Finlândia ficou um bocado à parte.
Talvez porque estamos próximos da Rússia, enquanto a Suécia tem uma localização
mais central.
FM - Também dá a ideia de que os novos grupos finlandeses fazem uma música
mais delicada do que os suecos. Basta comparar o som dos Hedningarna ou dos
Garmarna com as Varttina ou as Niekku. Concorda?
MARIA KALANIEMI - É verdade. Gosto que exista esa diferença. É a velha
questão de ter, ou naõ, uma atitude rock. Não há necessidade de que todos os
grupos tenham bateria.
FM - As Niekku, das quais fez parte, foram dos primeiros grupos a fazer o
que vulgarmente se chama “new finnish folk”?
MARIA KALANIEMI - Sim, absolutamente. Fomos o primeiro grupo a sair do
departamento de música folk da Academia Sibelius. De certa forma fomos nós que
demos início a todo o movimento.
FM - Arto Jarvella era o único homem do grupo. Não encontarram nenhuma
violinista à altura que fosse mulher?
MARIA KALANIEMI - Não se trata disso. Os Niekku eram um grupo de
estudantes; não era, de forma alguma, um grupo profissional. Nunca sabíamos
quem é que vinha estudar para o nosso departamento. Era quase por acidente que
nos encontrávamos uns aos outros.
FM - Uma das características técnicas que distingue o seu estilo é a
utilização que faz do teclado esquerdo do acordeão.
MARIA KALANIEMI - Em geral, na maioria da música folk, os acordeonistas
usam esse lado esquerdo apenas como acompanhamento da mão direita. Mas, se
usarmos o acordeão com “baixos soltos”, podemos tocar também melodias no
teclado esquerdo. Duas melodias diferentes ao mesmo tempo, uma em cada teclado.
Tocar apenas acordes com a mão esquerda limita a música.
FM - Costuma ouvir outros acordeonistas, como John Kirkpatrick ou Kepa
Junkera?
MARIA KALANIEMI - Claro, e gostaria de tocar com alguns deles, se tivesse
tempo. O meu favorito é Dino Saluzzi.
FM - O que distingue os Aldargaz de outro grupo em que também toca, os
Zetaboo?
MARIA KALANIEMI - Nos Aldargaz todos os músicos vieram de géneros musicais
diferentes. Têm na cabeça as suas próprias especificidades, embora todos tenham
ligações com afolk em várias das suas formas - como o “bluegrass”, ou a música
irlandesa, no caso de Petri Hakala, por exemplo. Nos Zetaboo os músicos vêm
todos da cena jazz.
FM - Também acompanhou a cantora Anna-Kaisa Liedes. Sente-se confortável no
papel de acompanhante?
MARIA KALANIEMI - Sim. Neste momento estou a tocar com outra cantora, esta
muito mais tradicional, Vesa-Matti Loiri, que também é flautista e actriz. O
prazer que me dá acompanhar cantores tem a ver com a necessidade de não me
ouvir apenas a mim, de fazer coisas em conjunto com outras pessoas. Gosto de
ouvir e compreender as palavras que são cantadas. Eu própria, embora não use as
palavras, tento que a minha música conte uma história.
FM - Nos The Accordion Tribe interpreta música contemporânea com outros
quatro acordeonistas, entre os quais Guy Klucevsek e Lars Hollmer, que muito
admiramos...
MARIA KALANIEMI - Gravámos um disco de um dos nossos concertos onde cada um
de nós tem o seu solo e as suas composições próprias, além de tocarmos as
músicas uns dos outros.
FM - Ainda continua a dar aulas na Academia Sibelius? Qual é a mensagem
principal que passa aos seus alunos?
MARIA KALANIEMI - Desde a Primavera passada que estou d elicença. Não tenho
tempo para ensinar. Mas adorei, enquanto o fiz. O que lhes dizia era para
criarem o seu próprio estilo, para descobrirem o que de mais forte neles
existe. Não queria que eles fossem cópias d emim. É uma das razões por que não
quis dar aulas durante muito tempo.