10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
27.03.1998
Entrevista a Nathan Means (Trans AM)
Trans AM Vigiam A América Em “The Surveillance”
Quando O Dique Rebenta
Com “The Surveillance”, os Trans AM tornaram-se na mais formidável máquina
de ritmos do pós-rock. Para esse efeito construíram o seu “Kling Klang”
privado, transportando para os anos 90 o conceito do estúdio como unidade
portátil de composição musical, criado há duas décadas pelos Kraftwerk. E
Nathan means explicou ao PÚBLICO por que razão na América, em 1998, se instalou
a paranóia.
Antes de responderem às questões propriamente ditas, os Trans AM fizeram
questão que fosse publicado um pequeno manifesto que, por si só, explica o
essencial dos seus processos criativos: “Não somos nenhuma espécie de colectivo
político-artístico como são, por exemplo, os Negativland. Todos temos as nossas
concepções políticas que discutimos ocasionalmente entre nós. Mas a nossa
música quase nunca é concebida como um espaço político limitativo, que é aquilo
que a maior parte dos críticos pensa de nós. A música de ‘The Surveillance’ foi
composta como resultado de uma busca nossa, mais ou menos casual, e da experimentação
com novos sons e equipamentos. Os aspectos políticos e teóricos dos nossos
álbuns são sempre concebidos ‘a posteriori’, como uma superestrutura que seja
capaz de impor a cada trabalho alguma espécie de coerência.”
FM - “The Surveillance” é um álbum de temática violenta que fala da
paranóia e dos medos escondidos da América em 1998...
NATHAN MEANS - Sim, os títulos falam todos de uma linguagem ridícula que se
está a vulgarizar, de propaganda de sistemas de segurança para as casas,
iniciativas anticrime, políticas de tolerância zero e comunidades fechadas.
Noto cada vez mais sinais que mostram que a resposta da América ao problema da
pobreza e a outros problemas sociais a ela associados está a passar de uma
situação com base na assistência social para outra de diminuição de subsídios
que se concentra na repressão e em meter cada vez mais pessoas nas prisões. Um
certo nível de paranóia - que instiga medo e aversão às classes sociais mais
baixas, cada vez mais responsabilizadas pelo aumento da criminalidade - é
extremamente útil ao poder, como forma de vender o seu programa ao povo
americano.
FM - Qual é o inferno mais próximo. O de “Brave New World”, de Aldous
Huxley, ou o de “1984”, de George Orwell?
NATHAN MEANS - “1984” deu-nos a ideia para o conceito do “Big Brother Is
Watching Us” [“O Grande Irmão Está a Observar-nos”, uma das máximas do livro de
Orwell]. Infelizmente, nos Estados Unidos, esta espécie de paranóia dirige-se
mais ao “Grande Governo” 8atingindo, como consequência, algunsesforços comunitários
que visam a melhoria das condições de vida...), e menos ao “Grande Negócio”, o
qual, pessoalmente, considero mil vezes mais ameaçador. Evidentemente, a
distinção entre os dois pode ser suspeita, mas...
FM - A tecnologia é uma arma. De que forma a manipulam?
NATHAN MEANS - Os instrumentos são tão responsáveis pela composição das
canções como nós.
FM - Existe actualmente uma dicotomia curiosa entre as bandas de pós-rock.
Enquanto grupos como vocês, os Tortoise ou os Labradford tocam uma música mais
orgânica (analógica?), outras, como os Microstoria ou os Oval, têm um som mais
doentio, como se as máquinas estivessem infectadas por um vírus.
NATHAN MEANS - Nunca tinha pensado nisso antes, mas vejo onde quer chegar.
No nosso caso e no das outras duas bandas que refere, derivamos todos de uma
estética tipicamente americana, em que tocámos todos ao vivo em grupos rock ou
punk antes de nos fecharmos em estúdio com a electrónica e com todos os
aspectos que andam associados ao pós-rock. Não conheço bem a história dos Oval,
mas sei que são dois tipos alemães que talveaz não tenham tido essa formação ao
vivo que costumam ter as bandas americanas.
FM - Construíram um estúdio privado especialmente para a gravação do novo
álbum. É a vossa versão do estúdio Kling klang que os Kraftwerk construíram na
década de 70?
NATHAN MEANS - Sim, construímos o nosso próprio Kling Klang. Só que depois
da gravação tivemos de o desmontar porque os senhorios da cave em que estava
instalado se mudaram. Estamos à procura de um novo local para voltar a
construir o estúdio, numa base permanente.
FM - Já definiram o som do novo álbum como possuindo uma “qualidade
perigosa”. Podem ser mais específicos?
NATHAN MEANS - O nosso “som Especial” é o que resulta da explosividade do
nosso som ao vivo. Queríamos, por exemplo, que a bateria soasse tão gigantesca
como em “When The Levee Breaks” (“Quando o dique rebenta”) dos led Zeppelin.
Nos dias de hoje, em que somos agredidos por todos os lados pelo “rock
domesticado” de grupos como os Stone Temple Pilots, Live ou Three Eye Blind,
nada é mais perigoso ou controverso do que os rock “com os tomates no sítio”.
FM - Qual destes dois discos acham que representa melhor o espírito dos
anos 90: “The Man Machine” dos Kraftwerk ou “Metal Machine Music” de Lou Reed?
NATHAN MEANS - Nem um nem outro. Infelizmente os anos 90 são provavelmente
representados pelo álbum mais recente dos Third Eye Blind ou por Puff Daddy. As
rádios comerciais estão a tornar-se cada vez mais dóceis e inimaginativas à
medida que as estações vão sendo compradas pelas multinacionais. Em Washington
D.C., por exemplo, os programas até cheiram mal! É um fenómeno de
homogeneização corporativista que está a tornar-se evidente por toda a parte.
FM - O início de “Armed Response” é puro metal sobre metal, esmagamento de
guitarras e ruído. Os Trans AM têm o mesmo espírito punk, por exemplo, dos This
Heat, nos anos 80?
NATHAN MEANS - Sem dúvida. O nosso espírito é esse mesmo. Da mesma forma
que os AC/DC eram tão punks como os Ramones. Quer uma quer outra destas bandas
baseavam a sua música em acordes inacreditavelmente simples e numa energia
bruta que ainda hoje impressiona, em contraste com a neuratesnia que vigora na
música comercial dos anos 90. E adoro os This Heat!. Sinto-me lisonjeado que
tenha pensado neles ao ouvir o nosso álbum.
FM - Falou-se há pouco dos Kraftwerk. As programações de “Access
control” misturam “The man machine” com “Autobahn”. “Prowler’ 97”, “Shadow Boogie” e “Home Security”
também soam muito a esta banda germânica. Os Kraftwerk são a influência
principal em “The Surveillance”?
NATHAN MEANS - “Home Security” é a canção mais kraftwerkiana do álbum.
“Prowler’ 97” sugere-me mais a música de “breakdance” ou um filme de suspense.
“Access control” acabou por se parecer um bocado com uma banda finlandesa
chamada Panasonic. Se puder vê-los ao vivo, não hesite. São espantosos!
FM - “The Surveillance” pode também ser encarado como um jogo de e sobre o
poder. Como é que se termina este jogo?
NATHAN MEANS - Gostaria de poder dizer que a música tem o poder de uma
única arma política, necessária para combater o terror do tal Estado de
Segurança que mencionei há pouco, mas não acredito que seja verdade...
Nota:
Os Trans AM vão tocar a Espanha no próximo dia 10 de Junho e gostariam de
poder actuar em Portugal. Nathan Means refeiur o prazer que isso lhe daria. De
passagem diz que fala um pouco de espanhol e que o baterista do grupo,
Sebastian, é argentino.