10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
12.06.1998
Entrevista a Nuno Rebelo
Nuno Rebelo Compõe Banda Sonora Para Coreografia De Paulo Ribeiro
Músico Português Mutante
“Azul Esmeralda” foi composto por Nuno Rebelo para uma coreografia de Paulo
Ribeiro. Um trabalho de gravação e montagem de solos tocados ao vivo, em tempo
real, por outros músicos, que resultou no álbum “mais acústico” de sempre do
seu autor - o “Fred Frith português”, como já lhe chamou Chris Cutler.
O contrabaixo de Carlos Bica, o trombone e atuba de Greg Moore e a bateria
de Carlos Franco funcionaram como “input” sonoro de “Azul Esmeralda”, a partir
do qual Nuno Rebelo arquitectou uma música inclassificável que prolnga algumas
das propsotas já enunciadas no anterior “M2”. O compositor falou com o PÚBLICO
sobre algumas das técnicas usadas, das dificuldades que teve em trabalhar com
Philippe Genty e da próxima apresentação na Expo de um espectáculo de “guitarra
portuguesa mutante”.
FM - “Azul Esmeralda” é bastante menos electrónico que “M2”...
NUNO REBELO - Não é muito diferente de “Sábado 2”, do álbum anterior. A
outra parte desse disco, “Minimal show”, sim, era mias à base de samplers e
electrónica. Neste novo disco voltei a trabalhar como em “Sábado 2”, com
gravações em disco rígido. Em “Sábado 2” aparecia em destaque aminha guitarra
eléctrica e o saxofone do Paulo Curado. Desta vez gravei três músicos que
vieram tocar a minha casa, mais ou menos 40 minutos cada um, em solo, para o
gravador, sem ouvirem base nenhuma e sem eu lhes dizer ou escrever
absolutamente nada.
FM - Trabalhou dessa maneira pelo gosto do aleatório?
NUNO REBELO - Foi um estímulo. Há um primeiro estímulo que é o bailado em
si, que me dita ritmos, danças, enfim, que me estrutura a música. Depois há o
estímulo do próprio material que me é dado pela identidade de cada um dos
outros músicos. Sem eles haveria menos surpresa.
FM - Mas também utiliza sons como grunhidos de “javalis no Jardim Zoológico
de Lisboa” ou de “crianças a cantar e a brincar em Santa Maria do Sal”. Foram
trabalhados da mesma maneira?
NUNO REBELO - Quase nunca se trata de samplagens, de sons gravados no
sampler e tocados no teclado, mas de gravações em DAT que eu depois monto.
Resultou no mais acústico de todos os meus trabalhos.
FM - Por falar em trabalho acústico, em que ponto se encontra o seu
projecto de “guitarra portuguesa mutante” que vai apresentar na EXPO?
NUNO REBELO - É guitarra portuguesa preparada, amplificada, processada...
Trabalhei este instrumento em 93, quando fiz uma série de composições a solo
que toquei ao vivo numa ou outra ocasião. Um desses temas saiu na colectânea do
Rui Eduardo Paes na Ananana, “No Way Out”, tirado de um concerto meu em Tavira.
Depois disso tenho usado esse instrumento esporadicamente. Agora no contexto do
festival Mergulho no Futuro da EXPO 98 vou fazer um concerto com um “ensemble”
de guitarras mutantes. Dois guitarristas a tocar guitarra portuguesa de uma forma
convencional, com a guitarra ao colo mais os quatro elementos dos Tim Tim por
Tim Tum, cada um com duas guitarras portuguesas montadas em tripés, que irão
ser tocadas de várias maneiras, com um arco de violino ou percutidas. Eu vou
tocar a harpa de um piano, as cordas do piano mas sem o piano.
FM - Ainda a propósito da EXPO, como é que aparece a fazer a música para o
espectáculo “Oceanos e Utopia” do Philipe Genty?
NUNO REBELO - Recebi um telefonema da produção portuguesa, a pedir-me uma
cassete para mostrar ao Philipe Genty. Penso que ele ouviu outras, de outros
músicos portugueses. Gostou do meu trabalho e quis fazer o espectáculo comigo.
Mas não foi um trabalho fácil. Ele não estava nada familiarizado com o meu
universo musical e estava sempre a mostrar-me coisas que têm a ver com o Philip
Glass ou com o Michael Nyman, com as quais, sinceramente não tenho nada a ver e
que não quero, de modo algum, imitar.
FM - Mas o trabalho acabou por ser feito. Com cedências da sua parte?
NUNO REBELO - Não, tive dificuldades no sentido em que para cada cena eu
paresentava uma proposta, ele dizia que não gostava, eu apresentava outra, de
que já gostava menos, e outra ainda de que gostava ainda menos, e ao fim da
quarta ou quinta proposta ele acabava por dizer que a primeira de todas é que
afinal estava bem! Ou seja, as minhas propostas iniciais acabaram por ficar mas
este processo todo causou-me um tal desgaste que até acho que não as desenvolvi
como poderia ter desenvolvido. Há muita gente que me vem dar os parabéns por
este trabalho mas penso que poderia ter ficado melhor.
FM - Chris Cutler chamou-lhe o “Fred Frith português”. A comparação
lisongeia-o ou irrita-o?
NUNO REBELO - Sendo um dos músicos que mais me influenciou, é óbvio que
reconheço que grande parte da minha personalidade musical se deve à grande
quantidade de música que ouvi, e continuo a ouvir, de Fred Frith. Mas entre mim
e ele existe um abismo. Falei uma vez com ele quando cá veio tocar com os Naked
City, ofereci-lhe uma cassete com coisas que eu tinha na altura, em 1990, com
os Ploplopot Pot e ele ofereceu-me um CD dele. Foi uma troca de galhardetes...
FM - Continua a ter uma projecção mediática muito discreta, dando a ideia
de que passa o tempo todo a compor e a gravar música em casa. É assim?
NUNO REBELO - Não tenho ninguém que trabalhe a minha imagem, enquanto os
outros grupos, nomeadamente ao nível da pop, têm os promotores, os “managers”,
essas coisas todas e tal que mandam artigos para a imprensa. Por outro lado
também eu próprio não perco muito tempo com isso. A Internet neste momento
ajuda-me um bocado a esse nível. Cada vez tenho uma lista de e-mail maior.
Sempre que faço alguma coisa nova mando informação para a lista inteira,
mantendo as pessoas interesadas a par do meu trabalho. além de que a minha
própria página na Internet está sempre acessível. (http://ip.pt/nuno-rebelo)