10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
24.10.1997
Entrevista a Paulo Bragança
Paulo Bragança, no CCB
"Quando vejo o abismo sou o primeiro a saltar"
O rosto lívido. Um espectro. A capa de Coimbra, levantada sobre o pescoço,
sugere o vampiro, o sugador de sangue. O ambiente é gótico, arrepiante. O novo
fado de Paulo Bragança, que amanhã se apresentará no Grande Auditório do CCB,
atrai pelo lado obscuro. O “Fado falado”, de Villaret, fala agora do problema
da heroína. No final, o fadista sai de si mesmo, numa busca ávida de luz.
FM - Como vai ser a estrutura do espectáculo?
Paulo Bragança - É quase uma peça de teatro. Há um personagem que está em
conflito consigo próprio e que vai, à medida de cada tema, pensando se fica nas
raízes do fado ou se as subverte. O começo vai ser com fado puro, embora com
algumas dissidências em termos verbais e musicais. Depois surgem mpmentos de
conflito. No “Fado do Herói” já há, quase, um aviso à nação. A seguir é o
“Adeus”. “Adeus pátria linda, adeus querido lar, adeus Tejo amado até eu
voltar...”, aí o personagem já está numa galera, seguindo-se um processo
interior, com nova quebra e dois temas intimistas, “Pecado I” e “Pecado II”,
até se chegar a uma transnacionalidade, uma “transfusogressão” (fui eu que
inventei a palavra), onde surgem temas que não são portugueses nem sequer são
cantados em língua portuguesa. Dois temas na língua “roman”, dos romenos, uma
língua cigana. É a procura do singular no universal, sem perder as raízes. Até
se chegar ao último tema que se chama “Névoa”, onde se diz que “há sempre entre
mim e o mundo uma névoa que às vezes me ataca e me faz refém de uma solidão tão
fria que não me dá trégua, guardador de um cofre onde não há vintém”. As
palavras são do Carlos Maria Trindade com música minha. É já um novo ser, que
não opina, não julga, é só um “voyeur” que observa tudo de cima. O corpo não
existe, só existe um ser pensante. Quas euma diáspora kafkiana.
FM - Falou há pouco de uma “viagem” à Roménia. É impossível não pensar na
célebre personagem do Conde Drácula que assombra a sua apresentação...
Paulo Bragança - Na origem, não foi propositado. Essa ligação fez-se
recentemente. É a ligação ao sangue. Depois, a música cigana é tão fado como o
nosso Fado. Desde miúdo, quando era “teenager”, que comecei a estudar romeno
sozinho, de modo a conhecer melhor alguns dos poetas deles. Mas não é o terror
que me assusta, vejo o terror apenas como um aspecto fantástico, como a ficção
científica.
FM - O seu espectáculo centra-se no lado mais sombrio do fado...
Paulo Bragança - Se reparar, a capa de Coimbra tem a ver com isso. Por
acaso a capa que uso agora é mais vampiresca... Uma capa, quando existe, é para
guardar qualquer coisa escondida, é um mistério. O estudante de Coimbra também
transporta em si algum desse vampirismo. Ou devia...
FM - Que tipo de envolvimento com o público procura criar?
Paulo Bragança - De um modo geral as pessoas ficam desconcertadas. Pela
positiva. Não se sentem assustadas mas, talvez, intimidadas. Embora houvesse
quem sentisse realmente medo e se agarrasse à cadeira... Porque o medo também
suscita fascínio.
FM - Eo Paulo Bragança, não se auto-sugestiona com a personagem que criou?
Paulo Bragança - Quando vejo o abismo sou o primeiro a saltar. Não tenho
medo. Mas tenho respeito pelo medo.
FM - Prseumo que, cada vez mais, a sua relação com os puristas do fado é
conflituosa?
Paulo Bragança - Eles, à minha frente, nunca me negam. Dão uma no cravo e
outra na ferradura. Eu até percebo a posição deles. Mas isto não é nada contra
eles, mas sim contra a estagnação do fado. Enquanto que eles, por vezes, me
atingem directamente, eu não os procuro atingir a eles. O que procuro atingir é
a consciência colectiva nacional.
FM - Que tipo de som se poderá escutar amanhã no CCB?
Paulo Bragança - Um som estranho. Com um compromisso entre a ciência e um
lado acústico. Guitarras portuguesas lada a lado com “samplers” e tecnologia
MIDI.
FM - De que modo é explorada a tal teatralidade que há pouco referiu?
Paulo Bragança - Por exemplo, abro com o “Fado Falado”, onde reverti o
texto, pegando nele como símbolo do teatro e transformando-o num monólogo, com
uma nova interpretação sonora e textual, bastante dissidente. Por isso lhe
chamei “Fado Falado Mudado”. Aproveito para falar do problema da heroína. É um
texto bastante duro, em que chamo as cosias pelos nomes, numa história que de
facto se passou na Meia-Laranja. Em termos formais, ouvi uitas vezes o original do Villaret. A minha
versão é codificada ao milímetro, sílaba por sílaba, metricamente igual.
FM - Qual é a sua atitude perante o problema da toxicodependência?
Paulo Bragança - Não estou a julgar ninguém mas a constatar uma realidade.
Algo de grave que se está a passar no país. Ninguém diz que o rei vai nu. Não
hánenhuma família portuguesa, hoje em dia, que não tenha essa mácula, seja por
um filho ou por um primo. E também verifico que a polícia só apanha cocaína e
haxixe. Heroína nunca se apanha. Chega-se a uma ladeia, como eu já cheguei - e
isto é o que me dizem porque eu não preciso nada dessas merdas - a uma ladeia
de Trás-Os -Montes, seja onde fôr, no local mais recôndito, queres um charro,
não há. Ou se houver, custa dez contos a grama. Cocaína pode custar 25 contos
uma grama. E a heroína custa mil escudos e há a toda a hora. 24 horas por dia,
nas barbas da polícia, em todo o lado. O Casal Ventoso é uma imagem pálida do
que se está a passar no resto do país. E o mais grave é que a heroína é gerida
por questões de Estado, por alguém... Por isso é que eu canto uma parte que diz
“mãos de sangue na seringa que rasgada a veia pinga, mãos de Estado maquilhado,
mãos de serra e queima a terra, mãos bem vendidas, muito finas, mãos vendadas a
arrecadar, não há paixão, crime ou morte onde há um filão a correr forte”... É
uma situação que me incomoda. Repito: é preciso dizer que o rei vai nu.
FM - Uma forma velada de manter os jovens sob controle?
Paulo Bragança - É uma forma de adormecer as pessoas. E não sõa só os mais
novos. As velhas, neste país, andam todas drunfadas, porque o que se vende mais
no país são drunfes e é o que tem desconto da Assistência Social. Não há uma
velhinha que não tenha um drunfe em cas, um Xanax, um Valium, um ansiolítico
qualquer. Depois, os putos têm heroína. Putos de 16 anos, que eu conhecço, que
picam, nem sequer fumam, picam! Interessa a alguém, de facto, que o povo ande
acalmado. Dêem heroína ao pessoal, para se tornarem nuns energúmenos que não
chateiam!...