10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
14.11.1997
Entrevista a Os Poetas
Os Poetas apresentam "Entre Nós E As Palavras"
O Caminjho Das Letras Que Cantam
Mário Cesariny, Luiza Neto Jorge, Herberto Helder, Al Berto e Franco
Alexandre são os poetas da escrita presentes no álbum de estreia de Os Poetas,
um grupo de músicos atentos ao som das palavras e ao sentido dos sons. “Entre
Nós e as Palavras”, assim se chama o disco, é sesse espaço de abertura e
convergência.
Rodrigo Leão, Gabriel Gomes, Francisco Ribeiro e Margarida Araújo, os
quatro instrumentistas de Os Poetas, falaram ao PÚBLICO da fase actual de um
projecto que pretende alargar-se, num futuro próximo, à área do teatro e a
outros poetas contemporâneos. Cesariny ou Herberto Helder poderão subir ao
palco sempre que quiserem.
FM - Qual é a génese deste projecto?
Margarida Araújo - Surgiu de uma conversa entre o Rodrigo, o Gabriel e o
Hermínio Monteiro, da Assírio & Alvim, quando este último falou da
existência de gravações de poetas a recitarem os seus próprios poemas. Chegaram
à conclusão que seria interessante juntar isso com música. No início deste ano
entrámos em estúdio.
Rodrigo Leão - Começámos em Abril, praticamente do zero. Havia uma ou duas
coisas que eu já tinha feito para um espectáculo para a associação Saldanha...
FM - A quem se deve a escolha dos poemas para o disco e para o espectáculo?
Rodrigo Leão - O Hermínio emprestou-nos as gravações e a partir delas
seguiu-se um proceso de selecção muito espontÂneo. Não nos interessava inventar
um tipo novo de música, mas trabalhar as reações mais imediatas à tonalidade
dos diversos poemas.
Gabriel Gomes - Foi um acto de paixão. Quando começámos a ouvir os discos
dos poetas, as palavras eram demasiado fortes. A partir daí tentámos encontrar
uma cadência tanto para os poemas como para a forma como estes eram expressos
pelos seus autores. Andámos à procura da coincidência entre a palavra e a
música. Fomos experimentando. Umas vezes compúnhamos inspirados directamente na
poesia, tocando sobre ela, noutras a música surgia depois do poema, noutras
ainda compúnhamos o tema e íamos à procura do poema certo para ele.
FM - Em termos estritamente musicais, é difícil não recuarmos aos primeiros
tempos dos Madredeus, até porque há três elementos que fizeram parte desse
grupo...
Rodrigo Leão - É difícil comparar dois projectos tão diferentes, apesar de
haver semelhamças, ao nível da sonoridade. Os Madredeus têm uma cantora, uma
figura que canta a apoesia de outra maneira. No nosso projecto, são os próprios
autores a ler os poemas.
FM - Se tivessem um cantor tudo funcionaria de maneira diferente?
Francisco Ribeiro - Quando há um cantor, toda a instrumentação tem de ser
adaptada a ele. No nosso caso, embora tivéssemos o cuidado de procurar a
tonalidade, as pausas, toda a maneira como o poeta diz, o processo de criação
foi mais livre, sem uma melodia rígida em relação à qual nos tivéssemos de
cingir. também aí divergimos dos Madredeus, na medida em que cada um de nós foi
livre para criar a música.
FM - Como reagiram, em termos de apreciação e posterior composição, A`s
duas formas diferentes de dizer o poema que utilizaram: uma, a gravação com o
próprio autor a declamar e outra, com a declamação, em tempo real, feita pela
actriz Margarida Marinho?
Francisco Ribeiro - A maneira como nos adaptámos à palavra difere de tal
maneira, de poema para poema, e de pessoa para pessoa... Imagine-se, por
exemplo, que temso a Margarida Marinho a declamar uma das poesias de uma forma
mais lenta, aí temos que adaptar a música a essa cadência.
Gabriel Gomes - Digamos que essas duas situações, uma em “off”, outra em
tempo real, são distintas. Se, por um lado, é óbvio que temos de nos adaptar,
por outro, com a Margarida Marinho, o trabalho pode ser feito em simultâneo,
adaptarmo-nos nós ou adaptar-se ela. Pessoalmente, achei supernovo estar a
tocar em palco e, de repente, ser disparada uma voz que não está em palco. Com
a Maragarida Marinho é diferente, é como se ela fosse uma cantora.
Complementando com a palavra, que também é melódica. E há poemas em que a
música é, à partida, como uma página em branco, que nos empurra para a
improvisação, conforme as palavras vão sendo ditas.
Há Uma Palavra Certa
FM - Além da música e da poesia, há uma componente teatral nos vossos
espectáculos, já para não falar no modo como o Francisco Ribeiro canta “quem Me
Dera (Amanhã)2. Tencionam desenvolver mais esta faceta?
Rodrigo Leão - O disco cristaliza o momento, segundo o conceito dos poetas
recitarem a sua poesia e nós musicarmos essa poesia em diversas situações. Nos
espectáculos, temos vindo a desenvolver essa componente mais teatral.
Francisco Ribeiro - É mais uma “perfomance” que dá lugar à expressão
corporal. a ideia é, de resto, essa, de juntar diversos campos artísticos.
rodrigo Leaõ - A personagem que o Francisco encarna no tema que canat não
foi estudada, foi surgindo a pouco e pouco, mas agora realmente sentimos que
ele encarna mesmo uma personagem. De resto, ele também já faz a declamação, ao
vivo, do poema “há uma hora, há uma hora certa”, do Cesariny.
FM - Todos os elementos do grupo partilham a mesma forma de encarar os
poemas que foram escolhidos “a priori”?
Gabriel Gomes - Quem assistir aos nossos ensaios perceberá como
funcionamos. Cada um tem uma ideia, mas há como que uma sintonia, porque o
outro já estava a pensar em algo semelhante. Não existe grande confrontação.
Rodrigo Leão - ... Embora também haja momentos de desintonia perfeita!...
Sobretudo nos últimos três meses de estúdio, houve muitas discussões, mas
acabámos, de forma quase inconsciente, por achar as soluções certas e encontrar
uma unidade estética.
Gabriel Gomes - Por exemplo, há um poema do Al Berto com música do
Francisco. Não tínhamos música para ele, mas queríamos mesmo usar o poema,
“XXX”. Porque é que não haveríamos de usar apenas o Al Berto e o violoncelo?
experimentámos com uma música que já estava feita há muotos anos, e que
inclusive já tinha sido tocada em espectáculos dos Madredeus. Foi aproveitada e
funcionou na perfeição na relação entre o poeta solitário Al Berto e o
violoncelo solitário do Francisco.
FM - Já puseram a hipótese de convidar algum dos poetas deste projecto para
declamar ao vivo, co o grupo, em palco?
Gabriel Gomes - Há poucos dias tivemos a honra de fazer um “videoclip” com
o mário Cesariny, que é uma coisa fantástica. Conheci pela primeira vez o
senhor e fiquei bastanrte impressionado. Convidei-o para ir ao espectáculo [que
teve lugar na Aula Magna, na passada terça-feira]. não vamos pedir, obviamente,
que ele vá recitar... A não ser que ele queira mesmo... Já tem idade e posição
suficiente para fazer o que lhe apetece. Se ele disser: “Quero ir recitar”, o
palco é para ele e a música que improvisarmos há-de ser feita. e com o Herberto
Helder também gostaríamos que acontecesse... Quanto ao Franco Alexandre, vai
mesmo colaborara connosco proximamente.
FM - Também não se lembraram de experimentar com a chamada “poesia
fonética”, de Mello e Castro, por exemplo?...
Rodrigo Leão - Podia ser giro, mas é preciso ver que não somos verdadeiros
especialistas em poesia. Só este ano é que começámos a levar para a frente este
projecto, e temos vindo a apaixonar-nos e a envolver-nos cada vez mais com
apoesia. Até é possível que apareça um segundo disco, embora não tenhamos
obrigatoriedade de carreira com este projecto.
Francisco Ribeiro - E há outra situação super-interessante que podemos
explorar no futuro, que é ter poetas vivos, contemporâneos, connosco em
estúdio, para uma criação em conjunto. Composição em tempo real entre a palavra
e a música. Que é o que, de resto, se passa, por vezes, com a Margarida
Marinho.
FM - Um grupo com um poeta no lugar do cantor?
Gabriel Gomes - Exacto. Aliás, a ideia inicial deste projecto incuía a
participação do próprio Al Berto. Infelizmente ele faleceu e isso não
aconteceu. Se calhar, ele até poderia compor poesia original para as nossas
músicas, ou vice-versa... Mas esta ideia permanece de pé, com outros poetas que
eventualmente escolhermos.
FM - “Desde os primórdios que a poesia nasceu para ser cantada ou
recitada”, escreveu Hermínio Monteiro, a propósito do lançamento do disco. A
afirmação é discutível...
Gabriel Gomes - Mas quando ele diz isso está a recuar à época dos gregos, a
poemas como a “Elíada” ou a “Odisseia”, que eram poesia para ser cantada. E na
Idade Média acontecia amesma coisa.
FM - Vocês são os trovadores desta geração?
Francisco Ribeiro - Um pouquinho... Não, estou a brincar.
Rodrigo Leão - Não, temos é a possibilidade de fazer a conjugação das
artes. Ultimamente, cada uma tem caminhado sempre um pouco no seu campo. a nós
interessa-nos juntá-las.
FM - O declamador tradicional tende a desaparecer? Villaret e Mário Viegas
já cá não estão... Será que a poesia necessita, hoje, de ser dita em outros
contextos?
Francisco Ribeiro - É um facto que a poesia tende a ficar cada vez mais
guardada numa prateleira. Neste sentido, o projecto “Entre Nós e as Palavras”
vem mostrar mais uma vez que a poesia existe e está viva.