10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
23.01.1998
Entrevista a Rão Kyao
Rão Kyao viaja em “Navegantes”
Bambu E Especiarias
Foi-se o fado, mas as ondas do mar continuam a empurrar Rão Kyao na
direcção de uma música cada vez mais ampla e com mais espaço para respirar. Em
“Navegantes”, o seu novo álbum, a flauta de bambu dança com as vozes, um
saltério e uma secção de cordas. Índia, Jamaica, Arábia, Portugal olhado do
Oriente. Mapa de uma viagem interior atenta ao sopro dos mestres e do mundo.
“Navegantes” é um álbum acústico em que Rão Kyao desenha as cores do que
ele próprio chama o “uno no múltiplo”. Uma espécie de espectáculo ao vivo da
alma do músico, inspirada no movimento das águas e na sabedoria de um dos
mestres indianos da flauta, Hariprasad Chaurasia.
FM - “Navegantes” recorre a uma quantidade de meios técnicos e humanos
pouco habitual nos seus discos. trata-se de um alargamento da sua visão musical
ou de algo mais?
RÃO KYAO - Há, efectivamente uma mudança. Gravar um novo disco, só por
gravar, não fazia sentido. É uma ideia que já tinha com o Luís Pedro Fonseca
[produtor e arranjador do álbum], de apresentar um disco basicamente acústico,
uma direcção que quero aprofundar cada vez mais, bem como uma utilização
orquestral, algo que já havia feito antes, mas de uma forma ligeira.
FM - Afirma na capa que este disco é “uma viagem interior”.
RÃO KYAO - Um dos títulos que cheguei a ponderar muito para este disco, só
que não consegui reduzi-lo a uma palavra, era “o uno no múltiplo”. a unidade da
expressão musical manifestada através de certas experiências que me são
intímas. Essa viagem interior passa por vários pontos que são, no fundo, o meu
legado musical, a minha espiritualidade musical. É um tipo que está a navegar,
navegação no sentido interior.
FM - Uma viagem sob o signo das águas...
RÃO KYAO - Águas, porque é, de todos os elementos, o mais associado à
própria sonoridade da flauta de bambu.
FM - “Navegantes” navega explicitamente nas águas da “world music”. Na
contracapa aparece mesmo o rótulo “rare things from Portugal”. Uma aposta para
o estrangeiro?
RÃO KYAO - Espero que sim. Interessa-me alargar o meu mercado o mais
possível. Parece-me que há um interesse, lá fora, por este tipo de música, não
só por ser “world music”, mas por um tratamento natural dos sons. “Navegantes”
é quase um disco de rua.
FM - “No balanço” tem por base um ritmo reggae...
RÃO KYAO - É uma coisa de rua. Um aceno a um ritmo de que gosto muito e que
se tornou internacional. É um tema que temos vindo a tocar ao vivo, que confere
à música uma coloração muito festiva.
FM - A música árabe aflora em “Arab”.
RÃO KYAO - Isso é mesmo, abertamente, um aceno aos nosso amigos árabes,
cuja música constitui para mim uma grande influência.
FM - Depois há a música indiana. O mais interessante é que, para além dos
temas em que esta música assume, de forma inequívoca, esta influência, ela está
presente, de forma mais subtil, nos temas que tomam por base a tradição
portuguesa. Isso nota-se, por exemplo, nas interpretações vocais. Até a
convidada Filipa Pais soa algo indiana quando canta uma canção como “Na
vindima”...
RÃO KYAO - Acho giro que diga isso, embora talvez não gostasse de vê-lo
escrito, poderia soar a uma pretensão absurda da minha parte...
FM - não é uma crítica, antes pelo contrário...
RÃO KYAO - Pois, a nossa música, através de todas as suas formas, tem
realmente esse aspecto. Digamos que eu, ao interpretá-la, vou mais para esse
lado. É algo que me é íntimo. Uma música que, sendo portuguesa, tem essa
costela mais desértica, no sentido daquela sonoridade que vem da Índia.
FM- “Oca” e “Ecos tribais” são exercícios solitários, respectivamente na
ocarina e na flauta de bambu, onde recorre à técnica de “multitracking”. Um
desejo de interiorização mais abstracta?
RÃO KYAO - São as tais viagens. Se assistir a um espectáculo meu, seria
incompleto não aparecer esse aspecto... Não é só o “multitracking”, mas a
maneira como se joga com a sonoridade e as possibilidades do instrumento. A
flauta pode ser vista de uma forma percussiva, de uma forma cantada, de uma
formaencantatória... Os “Ecos tribais” têm um aspecto ritualizado...
FM - Nunca tinha tocado ocarina antes, nos seus discos. Trata-se de
experimentar diferentes tipos de respiração, no sentido mais lato deste termo?
RÃO KYAO - Sim. Tenho várias maneiras de desenvolver as técnicas de
respiração. Por exemplo, estou a introduzir, lentamente, a utilização da
respiração, da sua sonoridade, pelo nariz, como um ritmo alternado à flauta.
Uma das cosias que a música tem que ter é uma boa respiração. Num músico de
sopros essa respiração é-lhe naturalmente dada pelo facto de ter que respirar.
FM - Também toca, pela primeira vez, em “Lençóis de trigo”, um saltério,
que nem sequer é um instrumento de sopro...
RÃO KYAO - Utilizo-o apenas para obter um determinado tipo de ressonância.
FM - E canta muito neste disco...
RÃO KYAO - É uma coisa que tenho andado a fazer nos espectáculos ao vivo.
Pensando bem, este disco é como se fosse um espectáculo meu ao vivo. Uso a voz
de uma forma onomatopaica que não pode ser escutada separada da flauta.
FM - A espiritualidade que ressalta da sua forma de tocar fez-nos lembrar o
flautista indiano Hariprasad Chaurasia. Conhece a sua música?
RÃO KYAO - É um grande amigo meu! Coneci-o na Índia, onde estive muitos
anos a estudar flauta, numa altura em que eu tinha arranjado emprego a tocar em
filmes indianos. Tornámo-nos amigos. Sou fã dele e reconheço-o como uma
influência muito grande na minha música.
FM - E Stephan Micus, outro músico que me parece cada vez mais próximo de
si?
RÃO KYAO - Esse já pelo aspecto do conceito. É um músico que já chamo de
“vanguarda”, no sentido de ir à frente, de ver a música com outra profundidade
e de abrir novos caminhos...
FM - Trata-se de alguém cuja música está muito ligada aos elementos e que,
inclusive, já tocou em pedras e em vasos. Sente também essa ligação forte com a
Natureza?
RÃO KYAO - É um dos aspectos que sempre me fascinou. Nunca quis tocar uma
flauta transversal, metálica. A flauta de bambu sempre representou a minha
aproximação a um elemento natural.
FM - Considera-se um músico de fusão?
RÃO KYAO - O termo só me desagrada por achá-lo exagerado. Ou seja, não como
frango por ananás. A fusão só faz sentido, ou concordância, ou consonância, na
ligação de estilos. Se formos a ver, toda a música que tem uma raiz funa no
mundo nasceu de uma fusão. O jazz, por exemplo, é uma música completamente de
fusão, no entanto tem uma característica própria. E a nossa própria música
tradicional - mais fusão é impossível... Há, realmente, coisas que surgem e se
mantém pelo tempo, criam uma raiz e dão frutos de fusão. Mas, ao mesmo tempo,
sou um músico que pensa muito emtermos de uma m´suica de raiz, há aqui uma
bipolaridade. O maior músico é aquele que tem uma raiz muito profunda, mas, ao
mesmo tempo, está sempre aberto a encontros.
FM - Como e quando é que vai levar “Navegantes” para a estrada?
RÃO KYAO - Vou levar os músicos todos. O início da digressão pelo país vai
ser no próximo dia 3 de Fevereiro, no espaço Roma, em Lisboa. O que não quer
dizer que vá fazer o mesmo nos espectáculos de província - não é para
minimizar, mas não posso andar com 40 músicos atrás. Aí teremos que fazer um
apleo aos “samplers”.