10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
20.03.1998
Entrevista aos Realejo
Realejo Montam Novos “Cenários”
Deu A Mosca Na Sanfona
Demorou, mas finalmente vai ver a luz do dia o segundo álbum dos Realejo,
intitulado “Cenários”. Excelentes executantes, uma sonoridade única e o prazer
intenso de tocar combinam-se num dos grandes álbuns folk portugueses de sempre.
Os seus autores explicaram ao PÚBLICO as razões da demora, em que a editora tem
culpas no cartório, e a nova postura em palco que trouxeram de Saint Chartrier.
Na Galiza, os Realejo estão a provocar uma pequena revolução.
Fernando Meireles, construtor de instrumentos, tocador de sanfona, bandolim
e cavaquinho, e Amadeu Magalhães, arranjador, gaita-de-foles, ponteira,
flautas, concertina, cavaquinho, bandolim, braguesa e percussões, constituem o
núcleo principal dos Realejo, grupo de música de raiz tradicional originário de
Coimbra e um dos mais originais da cena folk nacional. A estes e a Ofélia
Ribeiro, que já participara no álbum de estreia do grupo, “Sanfonias”,
juntaram-se os novos elementos José Nunes, guitarra e bandolim, e Miguel Areia,
violino. Prosseguindo um trabalho de renovação cujo espírito vai muito além de
uma prospecção do passado, os Realejo são, juntamente com os Vai de Roda e os
Gaiteiros de Lisboa, um dos grupos cuja existência permite acreditar que a
música portuguesa pode avançar no mesmo passo do resto da Europa.
FM - Por que razão foi preciso esperar tanto tempo pela edição deste vosso
segundo álbum?
FERNANDO MEIRELES - No nosso contrato temos uma cláusula em que não podemos
dizer mal da editora! [Risos.] De facto já tínhamos este disco preparado desde
1996 e gravado desde o ano passado. Digamos que houve alguns dos chamados
“problemas técnicos” que atrasaram todo o processo... A verdade é que temos
gravado imenso material e estamos a metê-lo na gaveta. Gravámos o primeiro
disco em 95, o segundo deveria ter sido gravado em 1996, em 97 poderíamos ter
gravado o terceiro e tínhamos agora o quarto... Mesmo o primeiro disco
poderíamos tê-lo feito dois anos antes...
FM - Esse atraso sistemático não tem prejudicado a carreira do grupo?
FERNANDO MEIRELES - Obviamente que sim. São paragens forçadas.
AMADEU MAGALHÃES - O grupo está sempre em evolução. A editora, fazendo este
tipo de coisas, não nos deixa progredir em termos de trabalho. Não conseguem
acompanhar o nosso ritmo.
FM - De acordo com essa evolução, o que é que mudou de “Sanfonias” para
estes novos “Cenários” dos Realejo?
FERNANDO MEIRELES - estamos a tocar cada vez melhor os instrumentos e a
experimentar, com eles, sonoridades e ritmos novos.
FM - O som do grupo sugere uma grande cultura e hábitos de audição
regulares da vossa parte. É verdade?
FERNANDO MEIRELES - Eu ouço muita música. O Amadeu não ouve tanto, o que é
bom, porque acaba por fazer as coisas sem sofrer grandes influências
exteriores.
AMADEU MAGALHÃES - Sou o controlador... Faço os arranjos e componho os
temas originais.
FERNANDO MEIRELES - Em relação aos novos elementos fui eu que lhes incuti o
gosto por esta música. Tenho e ouço imensos discos, que estou sempre a mostrar
aos outros. Por exemplo, comprei ultimamente o novo “Hippjock”, dos
Hedningarna”, dos quais gosto imenso, embora reconheça que estão a entrar um
bocado em demasia nos ritmos de discoteca... Também comprei o disco de estreia
de um novo grupo irlandês, os Danú, que adquiri no Festival de Saint Chartrier
deste ano, no qual participámos. Também comprei um álbum dos franceses Yole. E
estamos a ouvir muito os Berroguetto. Em relação à sanfona, gosto de Nigel
Eaton, e, dos franceses, Gilles Chabenat, Patrick Bouffard...
AMADEU MAGALHÃES - Também ouvimos muito o Júlio Pereria. Na guitarra, gosto
de Preston Redd. Na gaita-de-foles, Carlos Nunez.
FM - Os mais novos do grupo, o que é qu eouvem? Têm alguns heróis?
JOSÉ NUNES - Júlio Pereira! Sou o fã número um dele.
MIGUEL AREIA - Eu ouço outro tipo de coisas, devido à minha formação
clássica. No violino clássico admiro o Isaac Stern. Na tradicional ainda não
encontrei referências.
OFÉLIA RIBEIRO - Violoncelistas da clássica: Pablo Casals, Rostropovitch,
Misha Maiski.
FM - No início de carreira assumiam-se como um grupo de folk de câmara.
Mantêm a mesma postura, sobretudo em palco?
FERNANDO MEIRELES - Não, estamos mais voltados para o público, há uma
empatia maior. Em certos temas tocamos de pé. E o novo reportório é mais
dançável, mais extrovertido.
FM - Mas esse lado mais intimista, pelo menos a julgar pelo álbum, não
desapareceu...
FERNANDO MEIRELES - Claro, não deixámos nunca de assumir esse lado.
Continuamos a actual, sempre que nos pedem, em igrejas ou em salas de museus.
Só que agora, quando tocamos ao ar livre, o som é diferente, a dinâmeica mudou
completamente, amplificámos os instrumentos...
FM - Podendo parecer odiosas as comparações, é lícito afirmar que, em
oposição ao lado mais conceptual dos Vai de Roda ou dos Gaiteiros, os Realejo
são mais espontâneos, mais estritamente “musicais”?
AMADEU MAGALHÃES - Para nós é simples. O que gostamos tocamos - com toda
uma vivência cultural implícita. O que precisamos, e o que queremos, é tocar
bem,
tirar o maior partido possível dos diversos instrumentos. Não queremos sintetizadores
para fazer a chamada “cama”. Preferimos desenvolver ao máximo os instrumentos
tradicionais. Só depois é que poderemos, eventualmente, partir para outros
caminhos.
FM - Em Portugal, e em particular neste género de música, essa exigência
técnica não faz parte dos hábitos da maioria...
FERNANDO MEIRELES - Nunca houve preocupação dos construtores em fazer bons
instrumentos. E as pessoas que os tocam não têm a preocupação de os tocar bem.
O único que deu um pontapé nesta situação foi o Júlio Pereira. A partir dele é
que apareceu muita gente a aperceber-se de que era possível fazer melhor com os
nossos instrumentos, a nossa cultura e as nossas vivências. Em Portugal começa
a acontecer agora o que há muito já acontece na Irlanda e, mais recentemente,
na Galiza, em que o nível técnico médio dos executantes é elevadíssimo. Em
Coimbra está a acontecer um pouco isso. O Amadeu dá aulas. Eu ensino a fazer
instrumentos. Já há gente que aparece a querer tocar o bandolim ou o cavaquinho
como eles devem ser tocados. Mas tem sido um trabalho apenas custeado por nós,
os apoios oficiais são nulos.
FM - Os Realejo têm, cada vez mais, um som europeu, na linha de timbres
quentes (gaita-de-foles, sanfona, violino, ausência quase total de percussões)
de grupos como os Yole ou os Ad Vielle Que Pourra. Concordam?
AMADEU MAGALHÃES - Sim, e as referências tradicionais estão, sobretudo,
implícitas. Um tema como a “Cantiga do realejo” não soa a tradicional mas a
música de câmara ou a música antiga.
FERNANDO MEIRELES - Não vamos tocar a música de um cavador como ele a
tocava na origem. Pegamos nos temas apenas porque gostamos deles. É a única
forma de manter viva uma tradição.
FM - Qual tem sido a recepção da vossa música no estrangeiro?
FERNANDO MEIRELES - Como já dissemos, tocámos o ano passado em Saint
Chartrier. Foi uma experiência muito intensa para todos nós. Nunca tínhamos
estado num ambiente musical tã intenso. Apercebemo-nos de muitas coisas. Mesmo
a nossa nova postura em palco mudou um bocado por causa disso.
FM - E a Galiza?
FERNANDO MEIRELES - Já tocámos lá várias vezes. Aconteceu mesmo uma coisa
muito gira. Conhecemos muita malta da Galiza e, quando os conhecemos, os
galegos eram muito fundamentalistas. Agora já não são tanto; se calhar, um
bocadinho por causa da nossa influência. Já não é só a gaita com gaita, começam
a meter guitarras. Tocam na sanfona temas para gaita. Até já querem a “mosca”
[pormenor técnico que permite, por uma espécie de sacudidela brusca na
manivela, obter um timbre adicional e contrastante com a “drone” de fundo] na
sanfona!