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20.06.1997

Entrevista a Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu apresenta primeiro volume de 'easy-listening' nacional

Um Luxo Estereofónico

“Portugal de Luxe” é um objecto tão “kitsch” quanto sedutor. Uma dama loura e carnuda apresenta em pose erótica, no meio de plumas e holofotes, este primeiro volume de “um ‘cocktail’ estereofónico” para apreciadores de fibra e nostálgicos da naftalina.

 

É a estreia do “easy listening”, do bom e verdadeiro, em Portugal. A iniciativa deve-se a Rui Miguel Abreu, responsável por esta compilação que a Norte Sul acaba de lançar no mercado. “Portugal de Luxe” inclui clássicos como “Óculos de Sol”, “Missing You”, “Lisboa à Noite” e “Oh!”. Melodias com que os nosso pais se deleitavam e hoje acenam com um estranho encanto aos ouvidos sobrecarregados de informação do auditor dos tempos modernos.

Rui Miguel Abreu tem 28 anos de idade. Ainda não era nascido quando pairavam no éter as notas exóticas e tropicais do Thilo’s Combo. Descobriu esta música, motivado pela leitura da enciclopédia “Incredible Strange Music”, onde “se falava de nomes esquisitíssimos como a Yma Sumac ou o Esquivel”. Na Feira da Ladra começou a comprar alguns discos” que se encaixavam no ‘easy listening’. Há cerca de dois anos começou a reparar que este seu interesse “tinha um eco lá fora”, quando surgiram no mercado nacional as edições “Sound Gallery” ou “Sound Spectrum” que, “de alguma maneira, pegavam no ‘easy listening’”.

A partir daí foi só “somar dosi e dois”. Rui Miguel Abreu trabalha presentemente numa editora, a Norte Sul, subsidiária da casa Valentim de Carvalho, que tem uma longa história atrás de si. Mostrou o projecto Às chefias e pediu para investigar os arquivos. Deram-lhe carta branca. “Mergulhei à procura de coisas”, diz. Depois, partiu para as audições na companhia de Fernando Cortez, um técnico histórico da Valentim, já com 50 anos de casa. “ia-lhe perguntando, ele lembrava-se de algumas coisas, mais tarde, a partir de conversas com muitas pessoas, fui chegando a alguns nomes. A partir daqui forma meses e meses, com o Pedro Tenreiro, outro AR [artistas & reportório] da Norte Sul, a ouvir as fitas originais e a seleccioná-las.”

Na altura em que se procuram novos nomes para a música portuguesa, tarefa na qual a própria editora Norte Sul está empenhada, que sentido faz desenterrar do baú das memórias nomes como os de Thilo’s Combo (de Thilo Krassmann), o Conjunto Académico João Paulo, Mafalda Sofia ou Natércia Barreto (dos “Óculos se sol”...)? para Rui Miguel Abreu, parece não haver dúvidas de que as pessoas, conforme a geração a que pertencem, se voltaram a interessar, ou começam a interessar-se, por este género de música. O compilador de “portugal de Luxe” tem uma explicação para o fenómeno. “A essência da pop é reembalar e tornar a dar.” Mas encontra factores mais concretos. “por exemplo, no cinema, há uma série de recuperações dos heróis dos anos 60, do 007 à Missão Impossível, passando agora pelo Santo, séries que marcaram muito as pessoas das décadas de 60 e 70. passa-se o mesmo na moda, onde os estilistas voltaram a pegar nas marcas dessa altura e a inseri-las na roupa.”

Em relação à música, Rui Miguel Abreu vai ainda mais longe. “Acredito que parte do ‘trip-hop’ ajudou a voltar a meter estes sons na ordem do dia. porque começaram a ser sampladas sobretudo as bandas sonoras dessa época. Não é à toa que o projecto que lidera a Mo’Wax se chama Unkle, acho que tem a ver com a série de televisão The Man From Unkle. Como não é À toa que os Portishead samplaram o Lallo Schiffrin, conseguindo o que muitos anos de culto não foram capazes de fazer. Assim como não é por acaso que bandas como os Massive Attack foram, sub-repticiamente, metendo este tipod e som na ordem do dia. Tudo isto criou uma predisposição para se voltar a ouvir este tipo de música. É um efeito muito semelhante ao que aconteceu com a banda sonora de ‘Pulp Fiction’, ao incluir aquele tema do Dick Dale, de repente começaram a sair uma série d ecompilações de ‘surf music’ dos anos 60.” Em suma, para Rui Miguel Abreu, “quando há um ‘clic’ qualquer que chama a atenção da spessoas para uma determinada coisa, geralmente gera-se uma onda e curiosidade, que é um argumento muito forte de vendas”.

A questão que se põe, a partir do momento em qu eeste volume de “portugal de Luxe” se encontra disponível nas lojas (o segundo já está igualmente pronto a ser lançado), é saber quem vai ouvir esta música de que o tempo voltou a abrir mão.Os mais velhos, que ainda se lembram? Os mais novos, que acham piada? Uma elite bem informada adepta das delícias do “kitsch”? Para Rui Miguel Abreu, há “duas formas diferentes de a ouvir”. “Eu e o Pedro Tenreiro, quando partimos para a investigação do catálogo, tínhamos em mente uma compilação que, para o nosso meio, funcionasse como funcionou lá fora o ‘Sound Gallery’, o ‘Sound Spectrum’ ou o ‘Inflight Entertainment’, ou seja, uma compilação dirigida a pessoas que têm algumas referências neste tipo de som, nomeadamente através do ‘trip-hop’. Isto porque nós não ouvimos esta música em primeira mão, na rádio. Quando éramos crianças, já se ouvia outro tipo de coisas, eu cresci com o ‘boom’ do rock português, não foi com isto. Só que, quando mostrámos a compilação aos nossos patrões, eles começaram a perceber que esta música iria dizer alguma coisa também à geração que a consumiu em primeira mão.”

É que, de facto, para além de umcerto diletantismo que leva ao consumo, “a posteriori”, do “easy listening” original, há esses tais mais velhos, que não se esqueceram. “Tenho informações”, adianta Rui Miguel Abreu, “de que, nas lojas da Valentim, não há dia que o ‘Óculos de Sol’ toque numa loja e que eles não vendam três ou quatro CD. Se estiverem lá pessoas de uma determinada idade, vão logo a correr ao balcão perguntar onde é que isto está.””Portugal de Luxe” é, então, seja qual for a perspectiva em que se ouça, um luxo.