10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
23.01.1998
Entrevista a Ryuichi Sakamoto
Ryuichi Sakamoto Grava Peça Sinfónica
O Pomo Da Discórdia
Ryuichi Sakamoto mudou de visual. Deixou crescer a barba e de ser louro, e
trocou o ar “chic” da sua última visita a Portugal por uns ténis coçados e um
novo álbum debaixo do braço, “Discord”, que irá tocar no nosso país por ocasião
da Expo. Entretanto, voltou a estar por cá, para explicar um sonho que teve,
sobre a fome em África. À pergunta “o que é que podemos fazer?”, e apesar de
ter chamado a um dos seus espectáculos “F”, não respondeu da mesma forma que
Abrunhosa. Compôs uma sinfonia.
Depois das versões para piano de câmara de “1996” e dos divertimentos pop
de “Smoochy”, Ryuichi Sakamoto atirou-se à escrita de uma grande peça sinfónica
em quatro andamentos sobre o tema da salvação. Ou a impossibilidade dela.
Para este japonês diletante - que nos anos 80, com os Yellow Magic
Orchestra, fez sombra aos Kraftwerk como o grupo mais technopop do planeta, e
nos anos 90 se tem dedicado, sobretudo, a representar e a compor para muitos
filmes -, chegou a altura de se preocupar com os grandes problemas que afligem
a humanidade. Notícias sobre a fome em África fizeram-no ter pesadelos. Daí que
tenha sentido um impulso que o levou a escrever sobre a necessidade de
salvação.
“Discord”, o álbum sinfónico resultante, traduz-se numa longa peça
intitulada, paradozalmente, “Untitled 01”, dividida em quatro andamentos. No
último, podem ouvir-se mensagens gravadas e reproduzidas em simultâneo com as
vozes de Patti Smith, Laurie Anderson, Bernardo Bertolucci, David Byrne, David
Torn e DJ Spooky, entre outros. A todos eles Sakamoto perguntou: “O que é que a
salvação representa para si?”
Para ele representou um disco cheio e melancólico, onde a inocência da
magia amarela (como, antes, a do submarino amarelo) deixaram de ser possíveis.
Deram lugar a uma tragédia. Imensamente elegante, como não posia deixar de ser.
FM - É mesmo verdade que o ponto de partida para a composição de “Discord”
foi um sonho?
RYUICHI SAKAMOTO - A ideia inicial, surgida durante a minha digressão de
Janeiro do ano passado, genericamente designada por “F”. foi a de fazer
orquestrações para as versões contidas em “1996”. Mas acabei por desistir.
Tocámos essas canções tantas vezes que acabei por me fartar delas. Fiquei sem
saber o que fazer.
Foi então que tive esse sonho, uma noite, que me disse para esquecer essas
tais orquestrações, deixar para trás o passado e a escrever uma peça de música
completamente nova. Uma peça sinfónica. Foi o que fiz. Corri para o meu estúdio
e comecei ma escrever. A orquestra já tinha ido alugada. Tinha mesmo que
escrever uma sinfonia. Tive um mês para o fazer. O álbum foi gravado com a
orquestra, num concerto ao vivo.
FM - Foi esse sonho que lhe indicou a temática do álbum?
RYUICHI SAKAMOTO - Se tivesse um ano inteiro para pensar no assunto, talvez
tivesse sido diferente. Mas só tinha um mês. Era preciso arranjar uma
motivação. Como que procurei nos arquivos da minha memória algo que fosse
emotivamente forte. acabei por me centrar no sentimento provocado pela leitura
de várias notícias sobre o problema da fome em África. Nas minhas reações a
esse problema.
FM - “Discord” pode ser encarado, de alguma forma, como um manifesto?
RYUICHI SAKAMOTO - A base sobre a qual o fiz foi a sensação provocada pela
pergunta: “há alguma coisa que eu possa fazer para salvar estas pessoas?”
FM - A música pode fazer alguma coisa?
RYUICHI SAKAMOTO - não, a música não pode fazer nada. O que a música pode
fazer é tornar-se numa reacção à realidade, fazer, talvez, as pessoas tomarem
consciência dela, ao mundo o que em vivem. E, em consequência, levá-las, por
seu lado, a reagir. a música pode ainda ajudar-nos a partilhar os nossos
probelmas.
FM - E para a pergunta “o que é que a salvação representa para si?”, tem
alguma resposta?
RYUICHI SAKAMOTO - Não tenho uma resposta. Não é importante eu dar uma
resposta. O importante é cada um tentar responder a uma pergunta que não é
simples. Em conjcreto, o problema passa pela compreensão, nos dias de hoje, da
política, com a economia, a indústria e a história. Tudo está comprimido numa
única realidade.
FM - “Discord” é um disco religioso?
RYUICHI SAKAMOTO - Talvez espiritual seja o termo mais indicado. Embora não
seja praticante de qualquer religião, sou bastante sensível aos problemas
colocados por eleas. Pensei que as pessoas poderiam ter uma quantidade de
opiniões diferentes sobre o problema da salvação. Por isso, fiz a pergunta a
uma série delas...
FM - Não deixa de ser curiosa a sua evolução: de uma música materialista e
robotizada, como era a dos Yellow Magic Orchestra, para as actuais preocupações
humanistas...
RYUICHI SAKAMOTO - Não sigo um caminho linear, ando aos saltos daqui para
ali, sou um indivíduo frenético. Provavelmente, serei hoje uma pessoa muito
diferente da que era nos anos 80. Embora continue a trabalhar com máquinas, com
sequenciadores, “samplers” e computadores. Mas talvez seja necessário recuar às
razões que me levaram, desta vez, a compor para uma orquestra. A tal ideia de
orquestrar as versões de “1996” partia do pressuposto de utilizar a tecnologia
mais sofisticada para captar o elemento mais analógico de todos: o ser humano.
O meu próprio corpo estava ligado a um computador que transformava os
movimentos em impulsos sonoros e visuais.
No concerto que farei, com base em “Discord”, no próximo dia 11 de
Fevereiro, no World Finacial Centre’s Winter Garden, em Nova Iorque [N.R. - com
a colaboração de DJ Spooky, The electra String Quartet, o guitarrista David
Torn e o violinista Everton Nelson], a tecnologia terá um papel determinante, mas
não propriamente musical. Será transmitido em directo pela Internet e as
pessoas poderão em casa “aplaudir electronicamente”, transmitindo informação
para um ecrã colocado em frente aos músicos da orquestra.
Tornou-se habitual, nos últimos tempos, fazer este tipo de transmissões
“cybercast”, em vez do conceito tradicional de “broadcast”. Mesmo em Dezembro
do ano passado, em Tóquio, quando toquei absolutamente sozinho, estava rodeado
por um enorme aparato tecnológico.
FM - = “man machine” profetizado pelos Kraftwerk?
RYUICHI SAKAMOTO - Sim “the man machine”, uma relação entre o homem e a
máquina. Cada vez mais intensa e mais rápida.
FM - Continua a acompanhar as evoluções tecnológicas na área da música?
RYUICHI SAKAMOTO - Sim, mas a maneira como esta tecnologia é usada varia
muito, um engenheiro e um músico usarão a mesma máquina de maneiras muito
diferentes. O que é útil para um não o é para outro. Há desenvolvimentos
tecnológicos que só começarão a ser plenamente aproveitados daqui a um, dois
anos. Outros, provavelmente, não terão qualquer utilidade. Trata-se no fundo de
uma maneira de expandir a nossa liberdade e criatividade. Como poder trabalhar
a partir de músicas antigas ou tradicionais. Os músicos estão sempre
“esfomeados”.
FM - Coexistem em si um Ryuichi Sakamoto “tradicional” e outro mais virado
para o futuro?
RYUICHI SAKAMOTO - Não tenciono alargar a distância entre esses dois
“extremos”, mas continuarei a explorá-los. O mundo não é tão simples como isso
- uma simples divisão entre o “velho” e o “novo”. É mais uma coisa
tridimensional. É esta tridimensionalidade que tento desenvolver, através da
imaginação.
FM - Entre as pessoas que contactou para recolher as respectivas vozes, no
último movimento de “Untitled 01”, “Salvation”, o nome de Patti Smith parece um
pouco deslocado, entre gente como Laurie Anderson ou DJ Spooky...
RYUICHI SAKAMOTO - Na maior parte das pessoas contactadas, mandei-lhes a
pergunta e eles enviaram-me a gravação com a resposta, numa cassete DAT. No
caso de Patti Smith, foi diferente. Cruzei-me com ela por acaso na plataforma
da estação de comboios de Tóquio, ela estva a fazer na altura, uma digressão
pelo Japão. DJ Spooky conhecia-a e foi ele que ma apresentou. Mas a gravação
foi obtida por acaso. Tinha comigo um computador portátil e pus o microfone à
frente dela.
FM - A propósito de DJ Spooky, continua a interessar-se pela música de
dança?
RYUICHI SAKAMOTO - Costumava ouvir muito “hip-hop”, mas agora interesso-me
mais pelo “drum’n’bass”. Na verdade, em paralelo com “Discord”, vai ser editado
um álbum de remisturas do segundo movimento de “Untitled 01”, “Anger”, na
editora Ninja, por vários DJ, que aproveitaram algumas partes retiradas desta
peça. Não é bem “drum’n’bass”, é difícil de definir... Mas adoro ouvir todas as
remisturas. Mostram-me uma nova direcção: a possibilidade de misturar
“breakbeats” com elementos de música clássica.