10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
17.04.1998
Entrevista a Sasha Frere-Jones (Ui)
Debaixo Da Vida
O novo dos Tortoise é bom, o novo dos Trans AM é muito bom, mas o novo dos
Ui, “Lifelike”, é fora de série. Aqui se mistura o grande funk com o “dub” e o
experimentalismo kraut servido por dois baixos poderosíssimos e o gosto pelo
“riff”. O PÚBLICO falou com o “grandmaster” Sasha Frere-Jones e confirmou o que
já adivinhara: Os This Heat são os avós do pós-rock.
Demorou um ano e meio a preparar mas valeu a pena esperar por “Lifelike”, o
mais recente álbum dos Ui. Mas o pensamento do seu principal mentor, Sasha
Frere-Jones, entre recordações vafas de Sun Ra, umas brinacdeiras com os
Stereolab, a devoção aos This Heat e o espanto por conversar com alguém que
ouviu os seus discos, está agora mais voltado para o seu filho de nove meses. É
que “há coisas mais importantes do que o rock’n’roll”, como ele próprio admite.
FM - Ui é um nome bastante estranho. Tem algum significado especial?
SASHA FRERE-JONES - Tem vários. Há uma peça de Bertolt Brecht chamada
“Ascenção e Queda de Arturo Ui”, uma peça antifascista sobre Adolf Hitler. E
David Lee Roth, dos Van Halen, gravou um álbum em espanhol em que no meio de
todas as canções solta um grito lancinate: “Uuuiii”. Depois as letras “U” e ”I”
pronunciam-se “you” and “I” [“tu” e “eu”], exprimem uma relação...
FM - “The 2-Sided EP / The Sharpie”, composto por material antigo, foi
recentemente editado em Portugal. À semelhança do que acontece com outros
grupos de pós-rock, nota-se que ouviram muito os This Heat. É verdade?
SASHA FRERE-JONES - Ah, sim! [solta uma exclamação de prazer]. Aí está uma
banda que adoro. É engraçado estar a mencioná-los, ontem mesmo ofereci um disco
dos This Heat ao autor do “design” da capa de “Lifelike”, Richard McGuire. E há
uma hipótese de tocarmos com Charles Hayward lá para o final do ano. Os This
Heat são sem dúvida uma enorme (“huge”) influência.
FM - Cada um destes discos representa uma fase diferente do grupo ?
SASHA FRERE-JONES - “The Sharpie” foi um “single” gravado há três anos por
obrigações contratuais com a Soul Static Sound. “The 2-Sided EP” é mais ou
menos dessa altura, já não me lembro bem, foi gravado logo a seguir ao álbum
“Sidelong”, que, aliás, já continha parte do que viria a ser “The Sharpie”. Era
uma altura em que procurávamos fazer temas mais longos para discos de doze
polegadas e durante o qual os meus interesses giravam um pouco em torno do
“drum’nbass”. Clem Waldmann, o nosso baterista, toca como um baterista de
“breakbeats”, apenas tínhamos que o mandar tocar e depois acelerávamos a
fita...
FM - Um pouco mais tarde, em 1995, fizeram uma digressão com os Tortoise e
os Labradford, cuja música é bastante ambiental, em oposição à vossa, que é de
uma energia por vezes quase brutal...
SASHA FRERE-JONES - Eis uma comparação inteligente. É das primeiras pessoas
a notar esse lado energético da nossa música, vejo que ouviu os nossos discos,
o que não acontece com a maior parte dos jornalistas musicais com quem tenho
falado [N.R. - Nesta altura, a nossa perplexidade só era comparável ao estado
de dúvida que se instalou relativamente ao jornalismo praticado em terras do
Tio Sam...].
FM - Bom, mas como é que conseguiram esse desempenho energético em estúdio,
em “Lifelike”? É verdade que demoraram cerca de um ano e meio a gravá-lo?
SASHA FRERE-JONES - Mais ou menos. Não estivemos esse tempo todo em estúdio
mas foi quanto demorou a arranjar e a juntar o material necessário. Houve
partes que já estavam feitas desde Junho de 1996, como os metais. Não houve
propriamente ao longo desse ano e meio a intenção de fazer um disco. este
acabou por surgir quase por acidente. Masmo as tais gravações com instrumentos
de sopro foram feitas para serem integradas num disco de “drum’n’bass” que
tínhamos gravado com os Stereolab em Londres. Outro tema, “Blood in the Air”,
destinava-se a uma colectânea da Techno Animal, onde acabou por aparecer com o
título “The Next Feeding”. Em “Lifelike”, nesse tema, uma vez mais, acelerámos
a bateria. Só a partir de Maio do ano passado é que comecei a fazer em estúdio,
em colaboração com Greg Frey, o engenheiro de som, todo o trabalho de mistura e
edição. Senti-me como se tivesse o álbum já todo feito em casa e com o tempo e
a liberdade de poder transformá-lo no que quisesse, com “overdubs”, montagens,
etc.
FM - Vive em Brooklyn, em Nova Iorque. Não há registos de qualquer ligação
dos Ui à cena “downtown” da cidade? Um tema como “News to go farther” tem um
balanço muito jazzy...
SASHA FRERE-JONES - Essa ligação ao jazz surge sobretudo pelo lado de Wilbo
Wright, que já tocou com Marc Ribot. Agora relações do grupo com a “downtown”
nunca houve. Também não conhecemos muitos músicos da cidade, mas se
conhecêssemos não seriam decerto dessa área, não gosto da música que fazem.
FM - sob a designação de Uilab, gravaram em colaboração com os Stereolab o
mini CD “Fires” onde se incluem quatro versões diferentes de um tema de Brian
Eno, “St. Elm’s Fire”. Houve alguma razão especial para essa escolha?
SASHA FRERE-JONES - Foi uma ideia que surgiu quando andávamos em digressão
pela Europa, arranjámos uma semana para gravar. É uma canção que já tinha na
cabeça, discuti isso com eles e acabámos por gravar as versões em Londres. Há
outra canção feita de parceria com os Stereolab, com uma secção rítmica
composta por Wilbo e Clem que não aparece em “Fires” e que será editada num
próximo single.
FM - Em “Fires” aparece também o tema “Impulse Rah”, creditado como uma
composição de Sun Ra de parceria com os Ui e os Stereolab...
SASHA FRERE-JONES - Só a linha de baixo é que pertence a Sun Ra, ou, pelo
menos, soa como se pertencesse a Sun Ra... Acho que faz parte de um dos seus
álbuns, não me consigo lembrar de qual. Em todo o caso, achei que devia incluir
o nome dele na ficha técnica. [Nesta altura, Sasha cantarolou a tal linha de
baixo...]. É sem dúvida de Sun Ra!
FM - “Less Time” é o único tema creditado como Ui…
SASHA FRERE-JONES - É um dos meus temas favoritos. Ensaiámo-lo pela
primeira vez há muitos anos, na América. Queríamos incluir em “Fires” outra
cosia qualquer que fosse diferente e decidimos ouvir as fitas de ensaio.
Começámos todos a entoar a melodia! [Sasha volta a imitar a linha de baixo...].
FM - É verdade que os Ui não têm qualquer espectáculo ao vivo programado
para os próximos meses?
SASHA FRERE-JONES - Acontece que tenho um filho com nove meses e decidi
consagrar os tempos mais próximos apenas à família.
FM - Decidiu? É você quem toma as decisões pelo grupo?
SASHA FRERE-JONES - Eis uma questão algo controversa... Mas neste caso
acontece que os outros membros da banda também têm em casa filhos pequenos para
cuidar. Por mais que gostemos todos de tocar ao vivo, achamos que a família é
mais importante. Há coisas mais importantes que o rock’n’roll [risos]! O meu
filho é uma delas [N.R. - Seguiu-se um interessante diálogo particular sobre os
filhos de uns e de outros e os respectivos nomes que acabou por ir dar a João
Gilberto, daí que...]. Sou um fã da bossa-nova: João Gilberto, Os Mutantes,
Caetano Veloso...
FM - Para terminar, fale-nos na sua actividade como DJ, sob o pseudónimo
The Calvinist, e da sua própria editora, Bingo.
SASHA FRERE-JONES - Toda a gente me pergunta sobre The Calvinist. Não sou
propriamente um DJ profissional, acontece apenas que, por vezes, quando saio à
noite, ponho uns discos de que gosto a tocar. Em relação à Bingo, é diferente.
Os Uilab, por exemplo, foram editados por nós, na América. Também existe uma
compilação chamada “The Day my Favourite Insect Died” com grupos de rock
alemães da cidade de Waldheim, como os Notwist, a tocarem música electrónica.
Vamos lançar a seguir um disco dos The Tide and Tickle Trio e outro de Derek
Bailey com uma série de gente a fazer as secções rítmicas e ele a tocar
guitarra por cima.