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04.06.1997

Entrevista a Sérgio Godinho

Facto De Domingo

O dia de domingo foi passado por Sérgio Godinho a escrever mais um punhado de excelentes canções que reuniu no seu novo álbum, “Domingo no Mundo”. Onde a dança das palavras se vestiu de experiências musicais partilhadas com uma série d eoutros músicos e arranjadores. Afinal, como o seu autor as define, “canções como entidades autónomas”. Ou como seres vivos.

 

Convidámos Sérgio Godinho a contar, uma a uma, as histórias de cada canção de “Domingo no Mundo”. Canções diversas. Canções abertas. A muitas vozes. Com direcção musical de Manuel Faria e participações, entre outros músicos, de Manuel Faria, Nuno Rafael, Bárbara Lagido, Carlos Guereiro, Tito Paris, André Sousa Machado, João Nuno Represas, Kalu, Rui Júnior, Tomás Pimentel, Flak, Luís San payo, Carlos Azevedo, João Aguardela, Sandra Baptista, Irene Lima e Ricardo Rocha. “Um rsico mais do que assumido, mas aliciante, de fazer um disco em que várias pessoas tomassem conta dos arranjos.” Um risco que acohe o “hip-hop”, a electrónica industrial e o arraial dos Sitiados e acabou por resultar num dos álbuns mais diversificados, mas também mais estimulantes, do autor de “Pano-Cru”. É um facto. De domingo.

 

“Ser ou não ser”

Arranjo: Kalu

“uma canção que existia já nos disco dos Gaiteiros mas com um nome diferente. Não foi inocentemente que pus o Carlos Guerreiro a tocar gaita-de-foles no meio, de repente provoca uma quebra estilística, a contrastar com aquele universo martelo do ‘loop’ do início (...) É uma canção sobre os artesãos, dos sopradores de ferro e vidro.”

 

“Não respir!”

Arranjo: Kalu

“Tem uma parte ‘rapada’. Prescindir da melodia é, neste caso, uma certa urgência. É a história em três tempos de um jovem ‘junkie’. Uma espe retrato, não moralista. A primeira parte passa-se num bairro, estilo Casal Ventoso, a segunda é a sua descida à cidade, para viver ‘na Rotunda do Marquês de Sade’ e a terceira, a ressaca disso tudo e a constatação de que vive num sítio onde não há ninguém que o aopie. Há a falta de respostas mas também uma certa autocomplacência, no universo de um ‘junkie’. E um certo fascínio, muito dúbio, porque senão as pessoas não era atraídas para a heroína. Há que retratar isso também ,sob pena de não se estar consonate com um fenómeno que perpassa todo o tecido social português e que é uma tragédia, para a qual as actuais respostas são completamente desadequadas. É um permanente desassossego, de ter e não ter as coisas, entre ter e não ter a dose. Uma angústia que é também uma metáfora para o desassossego de uma geração. Em termos musicais, o uso da ‘slide guitar’, pelo Nuno Rafael, dos Despe e Siga resulta bastante enriquecedora.”

 

“Correio Azul”

Arranjo: Manuel Faria

“As minhas palavras devem algo à poesia de Camões. O Camões tem uma grande clareza, joga com os conceitos de uma forma muito simples. Tem uma modernidade por vezes assustadora, mas muito estimulante. Muitas vezes não nos apercebemos de quantas frases dele bailam no nosso inconsciente. Ao escrever esta canção, de repente o refrão surgiu todo feito e eu nem me apercebi que o Camões se estava a insinuar. É uma história de um encantamento e da normalização desse encatamento de uma forma muito positiva. O Tito Paris aparece porque sola muito bem na guitarra, num disco em que estas praticamente não existem. Não pretendi utilizá-lo como um músico especificamente africano.”

 

“Domingo no mundo”

Arranjo: Manuel Faria

“Uso aqui um ‘loop’ que determina o que vai ser a canção. Um ‘loop’ industrial, um bocado assustador. O Manuel compreendeu muito bem o que havia nos quatro tempos desta canção. Há uma descompressão, depois uma parte mais pesada, com guitarras em distorção e onde eu uso um megafone. Dá-me gozo usar sons que evocam atmosferas teatrais. Trata de um tema candente, embora em Portugal em vias de diminuição, que é o trabalho infantil. Em termos narrativos, a ideia é um rapaz que trabalha num sítio, que em princípio seria a coisa mais festiva do mundo,  fogo-de-artifício, mas é a coisa que o faz penar. Há uma sugestão de que ele teria deitado fogo à fábrica... Ou nao... Gosto destas histórias em que há ambiguidade, com um final aberto...”

 

“As armas do amor”

Arranjo: José Mário Branco

“Aqui o universo das coisas ditas, declamadas, está em consonância com o ‘rap’, com rima livre e depois uma parte lírica cantada. Comecei a escrever este texto - de certo modo, um rio, que vai avançando e apanhando coisas pelas margens - sobre a sida e, mais do que a sida, sobre os aliados da sida: o preconceito, a ignorância, a incompetência e a condescendência, que fazem com que a sida prospere. É uma denúncia. (...) Já não trabalhava com o José Mário há muitos anos. adfastámo-nos em termos criativos. Neste caso fui ter com ele, apeteceu-me que ele trouxesse uma outra contribuição. A ideia surgiu quando estava a ouvir um daqueles discos do Zeca que ele arranjou, nomeadamente o ‘Venham mais cinco’, um dos melhores que ele fez, bastante superior ao ‘Cantigas do Maio’. Apeteceu-me que ele trouxesse as suas ousadias. Esta canção prestava-se a isso.”

 

“É a vida (o que é que se há-de fazer?”

Arranjo: Manuel Faria

“São ‘flashes’ da adolescência. Representa um repouso no disco. É uma canção pop muito simples sobre um adolescente à procura de caminhos para a vida. Não tem história, com um refrão superpositivo. Tenho filhos na adolescência e elees e eos seus amigos dão-me um espelho distorcido daquilo que eu sou. Procuro olhar para a minha própria adolescência e ver como é que tinha reagido há uns anos atrás, como é que eu era, o que é que perdi pelo caminho, o que é que encontrei...”

 

“Mesa”

Letra: Alexandre O’Neill

Arranjo: Tomás Pimentel

“Já trabalhara com o O’Neill em “Pré-Histórias”. Tive uma ideia, que não foi para a frente, de fazer um disco só com poetas musicados, por uma vez prescindir das minhas palavras, mas tenho alguma dificuldade em encontrar as minhas músicas nas palavras dos poetas. Mas o O’Neill é uma referência importante, era um tipo com uma musicalidade nas palavras enorme, com um prazer lúdico nas palavras que tem a ver com o meu. Aqui achei engraçado também pegar nos sopros de uma maneira um bocado desconstruída, como o próprio texto é, e fazer uma amálgama algo pontilhista.”

 

“Lamento de Rimbaud”

Arranjo: Rádio Macau

“Basicamente, é a mesma versão do espectáculo ‘Filhos de Rimbaud’, embora um pouco melhorada. As percussões são mais bem trabalhadas. Não havia registos, nem gravados nem filmados, e achei que era uma pena perder-se pelo caminho. É o exemplo d euma canção que eu não faria sem um contexto bem determinado. Em Rimbaud encontrei uma liberdade poética extraordinária. As últimas coisas que escreveu, ‘Iluminações’ e ‘Uma Estação no Inferno’, têm muito a ver com a poesia contemporânea, uma espécie de torrente poética que se vai ordenando à medida que vai saindo. Esta canção é sobre o mistério de alguém qu efez tudo até aos 21 anos, e dpois, até aos 37, foi traficante de armas e até, dizem, de escravos. A frase ‘E apoesia? mera alínea?’ foi inspirada numa das poucas fotos que existem de Rimbaud, tirada em África.”

 

“Os Afectos”

Música e Arranjo: Jorge Constante Pereira

“O Jorge Constante Pereira, que já tinha trabalhado comigo, inclusive no álbum anterior, ‘Tinta Permanente’, é um músico com uma visão muito pesoal e para quem sempre tive vontade de escrever uma letra, fora do contexto dos discos infantis. a ideia para esta canção surgiu quando me lembrei do teorema de Pitágoras, sobre a relação entre os lados de um triângulo. Há o conhecimento científico e os afectos, que nos fazem mover de uma maneira diferente.”

 

“Aguenta Aí”

Arranjo: João Aguardela

“É uma chula onde falo do Porto como património mundial, pelo lado feliz, mas também pelo das desigualdades sociais nas cidades. É preciso ter consciência que, ao incrementar a qualidade d euma cidade, se deve também incrementar a vida das pessoas. Achei que o João Aguardela casava bem neste universo.”

 

“Dias Úteis”

Arranjo: Manuel Faria e Sérgio Godinho

“Fala da alegria e do prazer. As últimas palavras são: ‘Por motivos talvez claros / O prazer é o que nos torna os dias raros / Por pretextos talvez fúteis / Por motivos talvez claros.’ É uma canção d epuros sentimentos em que a guitarra portuguesa e o violoncelo lhe conferem uma certa gravidade.”

 

Todas as letras e música, exceptuando nos casos indicados, são da autoria de Sérgio Godinho