10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
04.06.1997
Entrevista a Sérgio Godinho
Facto De Domingo
O dia de domingo foi passado por Sérgio Godinho a escrever mais um punhado
de excelentes canções que reuniu no seu novo álbum, “Domingo no Mundo”. Onde a
dança das palavras se vestiu de experiências musicais partilhadas com uma série
d eoutros músicos e arranjadores. Afinal, como o seu autor as define, “canções
como entidades autónomas”. Ou como seres vivos.
Convidámos Sérgio Godinho a contar, uma a uma, as histórias de cada canção
de “Domingo no Mundo”. Canções diversas. Canções abertas. A muitas vozes. Com
direcção musical de Manuel Faria e participações, entre outros músicos, de
Manuel Faria, Nuno Rafael, Bárbara Lagido, Carlos Guereiro, Tito Paris, André
Sousa Machado, João Nuno Represas, Kalu, Rui Júnior, Tomás Pimentel, Flak, Luís
San payo, Carlos Azevedo, João Aguardela, Sandra Baptista, Irene Lima e Ricardo
Rocha. “Um rsico mais do que assumido, mas aliciante, de fazer um disco em que
várias pessoas tomassem conta dos arranjos.” Um risco que acohe o “hip-hop”, a
electrónica industrial e o arraial dos Sitiados e acabou por resultar num dos
álbuns mais diversificados, mas também mais estimulantes, do autor de
“Pano-Cru”. É um facto. De domingo.
“Ser ou não ser”
Arranjo: Kalu
“uma canção que existia já nos disco dos Gaiteiros mas com um nome
diferente. Não foi inocentemente que pus o Carlos Guerreiro a tocar
gaita-de-foles no meio, de repente provoca uma quebra estilística, a contrastar
com aquele universo martelo do ‘loop’ do início (...) É uma canção sobre os
artesãos, dos sopradores de ferro e vidro.”
“Não respir!”
Arranjo: Kalu
“Tem uma parte ‘rapada’. Prescindir da melodia é, neste caso, uma certa
urgência. É a história em três tempos de um jovem ‘junkie’. Uma espe retrato,
não moralista. A primeira parte passa-se num bairro, estilo Casal Ventoso, a
segunda é a sua descida à cidade, para viver ‘na Rotunda do Marquês de Sade’ e
a terceira, a ressaca disso tudo e a constatação de que vive num sítio onde não
há ninguém que o aopie. Há a falta de respostas mas também uma certa
autocomplacência, no universo de um ‘junkie’. E um certo fascínio, muito dúbio,
porque senão as pessoas não era atraídas para a heroína. Há que retratar isso
também ,sob pena de não se estar consonate com um fenómeno que perpassa todo o
tecido social português e que é uma tragédia, para a qual as actuais respostas
são completamente desadequadas. É um permanente desassossego, de ter e não ter
as coisas, entre ter e não ter a dose. Uma angústia que é também uma metáfora
para o desassossego de uma geração. Em termos musicais, o uso da ‘slide
guitar’, pelo Nuno Rafael, dos Despe e Siga resulta bastante enriquecedora.”
“Correio Azul”
Arranjo: Manuel Faria
“As minhas palavras devem algo à poesia de Camões. O Camões tem uma grande
clareza, joga com os conceitos de uma forma muito simples. Tem uma modernidade
por vezes assustadora, mas muito estimulante. Muitas vezes não nos apercebemos
de quantas frases dele bailam no nosso inconsciente. Ao escrever esta canção,
de repente o refrão surgiu todo feito e eu nem me apercebi que o Camões se
estava a insinuar. É uma história de um encantamento e da normalização desse
encatamento de uma forma muito positiva. O Tito Paris aparece porque sola muito
bem na guitarra, num disco em que estas praticamente não existem. Não pretendi
utilizá-lo como um músico especificamente africano.”
“Domingo no mundo”
Arranjo: Manuel Faria
“Uso aqui um ‘loop’ que determina o que vai ser a canção. Um ‘loop’
industrial, um bocado assustador. O Manuel compreendeu muito bem o que havia
nos quatro tempos desta canção. Há uma descompressão, depois uma parte mais
pesada, com guitarras em distorção e onde eu uso um megafone. Dá-me gozo usar
sons que evocam atmosferas teatrais. Trata de um tema candente, embora em
Portugal em vias de diminuição, que é o trabalho infantil. Em termos
narrativos, a ideia é um rapaz que trabalha num sítio, que em princípio seria a
coisa mais festiva do mundo,
fogo-de-artifício, mas é a coisa que o faz penar. Há uma sugestão de que
ele teria deitado fogo à fábrica... Ou nao... Gosto destas histórias em que há
ambiguidade, com um final aberto...”
“As armas do amor”
Arranjo: José Mário Branco
“Aqui o universo das coisas ditas, declamadas, está em consonância com o
‘rap’, com rima livre e depois uma parte lírica cantada. Comecei a escrever
este texto - de certo modo, um rio, que vai avançando e apanhando coisas pelas
margens - sobre a sida e, mais do que a sida, sobre os aliados da sida: o
preconceito, a ignorância, a incompetência e a condescendência, que fazem com
que a sida prospere. É uma denúncia. (...) Já não trabalhava com o José Mário
há muitos anos. adfastámo-nos em termos criativos. Neste caso fui ter com ele,
apeteceu-me que ele trouxesse uma outra contribuição. A ideia surgiu quando
estava a ouvir um daqueles discos do Zeca que ele arranjou, nomeadamente o
‘Venham mais cinco’, um dos melhores que ele fez, bastante superior ao
‘Cantigas do Maio’. Apeteceu-me que ele trouxesse as suas ousadias. Esta canção
prestava-se a isso.”
“É a vida (o que é que se há-de fazer?”
Arranjo: Manuel Faria
“São ‘flashes’ da adolescência. Representa um repouso no disco. É uma
canção pop muito simples sobre um adolescente à procura de caminhos para a
vida. Não tem história, com um refrão superpositivo. Tenho filhos na
adolescência e elees e eos seus amigos dão-me um espelho distorcido daquilo que
eu sou. Procuro olhar para a minha própria adolescência e ver como é que tinha
reagido há uns anos atrás, como é que eu era, o que é que perdi pelo caminho, o
que é que encontrei...”
“Mesa”
Letra: Alexandre O’Neill
Arranjo: Tomás Pimentel
“Já trabalhara com o O’Neill em “Pré-Histórias”. Tive uma ideia, que não
foi para a frente, de fazer um disco só com poetas musicados, por uma vez
prescindir das minhas palavras, mas tenho alguma dificuldade em encontrar as
minhas músicas nas palavras dos poetas. Mas o O’Neill é uma referência
importante, era um tipo com uma musicalidade nas palavras enorme, com um prazer
lúdico nas palavras que tem a ver com o meu. Aqui achei engraçado também pegar
nos sopros de uma maneira um bocado desconstruída, como o próprio texto é, e
fazer uma amálgama algo pontilhista.”
“Lamento de Rimbaud”
Arranjo: Rádio Macau
“Basicamente, é a mesma versão do espectáculo ‘Filhos de Rimbaud’, embora
um pouco melhorada. As percussões são mais bem trabalhadas. Não havia registos,
nem gravados nem filmados, e achei que era uma pena perder-se pelo caminho. É o
exemplo d euma canção que eu não faria sem um contexto bem determinado. Em
Rimbaud encontrei uma liberdade poética extraordinária. As últimas coisas que
escreveu, ‘Iluminações’ e ‘Uma Estação no Inferno’, têm muito a ver com a
poesia contemporânea, uma espécie de torrente poética que se vai ordenando à
medida que vai saindo. Esta canção é sobre o mistério de alguém qu efez tudo
até aos 21 anos, e dpois, até aos 37, foi traficante de armas e até, dizem, de
escravos. A frase ‘E apoesia? mera alínea?’ foi inspirada numa das poucas fotos
que existem de Rimbaud, tirada em África.”
“Os Afectos”
Música e Arranjo: Jorge Constante Pereira
“O Jorge Constante Pereira, que já tinha trabalhado comigo, inclusive no
álbum anterior, ‘Tinta Permanente’, é um músico com uma visão muito pesoal e
para quem sempre tive vontade de escrever uma letra, fora do contexto dos
discos infantis. a ideia para esta canção surgiu quando me lembrei do teorema
de Pitágoras, sobre a relação entre os lados de um triângulo. Há o conhecimento
científico e os afectos, que nos fazem mover de uma maneira diferente.”
“Aguenta Aí”
Arranjo: João Aguardela
“É uma chula onde falo do Porto como património mundial, pelo lado feliz,
mas também pelo das desigualdades sociais nas cidades. É preciso ter
consciência que, ao incrementar a qualidade d euma cidade, se deve também
incrementar a vida das pessoas. Achei que o João Aguardela casava bem neste
universo.”
“Dias Úteis”
Arranjo: Manuel Faria e Sérgio Godinho
“Fala da alegria e do prazer. As últimas palavras são: ‘Por motivos talvez
claros / O prazer é o que nos torna os dias raros / Por pretextos talvez fúteis
/ Por motivos talvez claros.’ É uma canção d epuros sentimentos em que a
guitarra portuguesa e o violoncelo lhe conferem uma certa gravidade.”
Todas as letras e música, exceptuando nos casos indicados, são da autoria
de Sérgio Godinho