10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
07.05.1997
Entrevista a Stefan Schneider (To Rococo Rot)
Máquinas Em Movimento
Entrevista com Stefan Schneider
Kreidler e To Rococo Rot são dois projectos liderados por Stefan Schneider,
um natural de Düsseldorf que transportou para os anos 90 os sons mecânicos do
“Krautrock” da década de 70 com berço nessa cidade: Kraftwerk, Neu! e La
Düsseldorf. Vizinho de Klaus Dinger, denominador comum destes três grupos,
Stefan Schneider faz o ponto da situação.
Apontados como representantes da ala mais electrónica e radical do
“pós-rock”, os To Rococo Rot gravaram até à data dois álbuns, o último dos
quais, distribuído em Portugal pela Música Alternativa, tem por título
“Veiculo”. Mas Stefan Schneider, com quem o PÚBLICO conversou, concentra a
maior parte do seu tempo nos Kreidler, cujo novo álbum, intitulado “Weekend”
(distribuição Megamúsica), embora igualmente apaixonado pelos sintetizadores e
pelos ritmos maquinais, oferece canções para cantarolar num piquenique do fim
dos tempos.
FM – Por que motivo reparte a sua actividade por duas bandas que até nem
são radicalmente diferentes uma da outra?
SS – São bastante diferentes. A música dos To Rococo Rot (TRR) é muito mais
experimental e minimalista, enquanto os Kreidler se movimentam numa área pop,
com canções estruturadas. Os TRR estão mais próximos da electrónica e da tecno.
FM – Segue métodos de composição diferentes em cada um dos grupos?
SS – Sim, até porque os Kreidler são a formação mais estável e os seus
membros vivem todos na mesma cidade, em Düsseldorf. Ensaiamos e realizamos
espectáculos com assiduidade. Com os TRR, isso é impossível, uma vez que os
dois outros elementos vivem em Berlim. Sempre que queremos fazer alguma coisa
juntos, sou obrigado a deslocar-me lá.
FM – Tanto os Kreidler como os To Rococo Rot fazem música exclusivamente
intrumental...
SS – Não é bem assim, nos Kreidler integrámos algumas letras no primeiro
álbum. O segundo, “Weekend”, é efectivamente instrumental, mas pensamos
regressar aos textos no próximo.
FM – Vive em Düsseldorf, cidade que deu origem, nos anos 70, a grupos como
os Kraftwerk, Neu! e La Düsseldorf. A cidade tem alguma mística especial?
SS – Há com certeza uma ligação. Mas não queremos fazer nenhum resumo dessa
tradição. Essa ligação sente-se mais pela cidade em si, pelo seu ritmo. Há nela
uma indústria da moda, uma proliferação de “Design” artístico, tudo isso nos
influencia, bem como a forma de relacionamento entre as pessoas, a forma como
se vestem e se apresentam. Existe um nível de vida bastante caro. Em Berlim é
diferente, todas as pessoas têm um emprego, é difícil sobreviver aí de outra
forma. Continuam a chegar a Berlim pessoas provenientes de outras cidades da
Alemanha, porque continua a ser uma cidade atraente, ideal para quem não
pretenda fazer coisas especiais.
FM – Na ficha técnica de “Weekend”, dirige um agradecimento a Klaus Dinger,
que pertenceu àquelas três bandas. Assume a sua influência?
SS – Klaus é meu vizinho. Às vezes vem ter comigo, de bicicleta, para
conversarmos um bocado. Há cerca de dois anos convidou-nos para ir ao estúdio
que tem em sua casa. Gravámos algumas coisas juntos. E em Novembro do ano
passado fez dosi espectáculos no Japão com o baterista e teclista dos Kreidler.
FM – O que acha da música dos Cluster, outra das bandas dos anos 70 que
marca, cada vez mais, toda uma geração de novas bandas de música electrónica?
SS – Os discos dos Cluster são muito difíceis de adquirir na Alemanha. Pura
e simplesmente não se encontram nas lojas! Quando muito, existem os discos mais
recentes, editados em CD, mas estes destinam-se mais a um tipo de público
apreciador de música ambiental. Conheço alguns dos seus trabalhos mais antigos,
como “Zuckerzeit”, um álbum impressionante. O problema é que há hoje muita
gente a fazer deste tipo de música sem nunca a ter ouvido. As pessoas lêem os
artigos nas revistas, mas não têm possibilidade de ouvir os discos! Penso que
deve acontecer o mesmo na Inglaterra ou nos Estados Unidos, onde se encontram
discos dos Kraftwerk e pouco mais...
FM – O fenómeno é algo mais que uma moda passageira?
SS – Penso que os jovens estão a começar a explorar uma música, feita há 20
ou 25 anos, que tem muitos pontos de contacto com a música que se faz hoje em
dia. Por isso faz sentido recuar até esse período. Pessoalmente, acho
fantásticos como os dois primeiros dos Neu! bem como toda a música dos
Kraftwerk.
FM – Os Can...?
SS - Fazem parte de outro universo. Gosto imenso de “Tago Mago”, mas têm
outras coisas que acho extremamente aborrecidas.
FM – Existe hoje algo parecido com um movimento organizado de música
electrónica feita na Alemanha?
SS – Bem, estão a aparecer alguns nomes novos e interessantes, como os Mike
Ink, que fazem música electrónica e minimal para dançar. Também apafreceu
recentemente uma nova revista de música chamada “Art Attack”, com uma loja de
discos e uma editora própria, a Profane. Em Berlim, há os Oval (N.E. – fizeram
remisturas dos Tortoise)...
FM – E o circuito da música de dança?
SS – Aqui em Düsseldorf existem clubes de “tecno” que passam a música dos
Kreidler, mas são sítios não comerciais, nada que se pareça com uma “rave”. Em
Colónia, os clubes são maiores e as pessoas podem sentar-se a ouvir música, conversar
ou ver filmes. Claro que os nossos discos podem ser passados nas pistas de
dança, mas ela não é, de forma alguma, música de dança convencional. O que
distingue o que está a acontecer por aqui é a produção de música electrónica
que não se destina a ser dançada mas a ser ouvida em casa, embora também não
seja nada parecido com música ambiental.
FM – Existem pontos de contacto entre alguma das suas bandas e as bandas de
Chicago como os Ui e Tortoise?
SS – Os TRR gravam na mesma editora dos Tortoise, a City Slang. Gosto de
alguns temas deles, com os quais os TRR podem até ter algumas semelhanças. Mas
só no nosso primeiro álbum, no qual também usávamos equipamento analógico,
assim como baixo e bateria convencionais. “Veiculo” vai numa direcção diferente,
no sentido da electrónica total.
FM – Uma electrónica fria e minimalista. A música dos novos homens-máquina
do fim do milénio?
SS – Sim. O “robot” que tocará com os TRR no final do milénio não vai
acabar numa grande explosão, com um clamor enorme, mas sim quebrar-se em
pequenos pedaços. O fim será muito calmo...