10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
20.03.1998
Entrevista a Steven Brown (Tuxedomoon)
Ser Ou Não Ser Tuxedomoon, Eis A Questão
Vestir Ou Não Vestir O “Smoking”
“Joeboy in Mexico”, afinal, não é um disco novo dos Tuxedomoon, embora um
rótulo colado na capa proclame “o regresso dos Tuxedomoon”. Mas Steven Brown,
com quem o PÚBLICO falou, diz que não. O México, com o seu “magnetismo” e as
suas “forças espirituais”, determinou a diferença. E - sim - os Tuxedomoon, a
lua de “smoking2, foram a primeira banda pós-rock da História.
Gravado em casa no México, retocado num estúdio comercial, “Joeboy in
Mexico”, apresenta o lado mais obscuro e interessante da música da lendária
banda de São Francisco, aqui explorado por Steven Brown com Peter Principle,
com o convidado muito especial Blaine L. Reininger, o terceiro vértice dos
Tuxedomoon.
FM - “Joeboy in Mexico” afinal não é um álbum dos Tuxedomoon...
STEVEN BROWN - Não é, de facto, e sublinho este “não”. Se fosse um álbum do
grupo, teria essa indicação [Steven Brown deve ignorar a existência do tal
rótulo]. Na realidade, a editora Opción Sónica pediu-me para fazer um novo
álbum na sequência de “Ninerain”. Queriam uma coisa diferente, mais
personalizada. Decidi trabalhar com Peter Principle, a companhia aceitou e ele
veio ter ao México, para trabalhar durante um mês comigo, com Nikolas Klau,
Alejandro Herrera e Juan Carlos Lopez. “keredwin’s reel” foi escrito por Blaine
Reininger, a quem eu pedi que participasse no projecto. Depois disso, Peter
partiu para Roma e Nova Iorque. Eu e os outros acabámos as gravações. Em 1981,
peter e eu já tínhamos gravado “Joeboy in Rotterdam”, daí o nome do álbum.
Qualquer destes dois álbuns aparece com pseudónimo na ficha técnica. É um
segredo.
FM - Há alguma possibilidade de você, Peter Principle e Blaine Reininger voltarem
a tocar juntos ao vivo?
STEVEN BROWN - Tocámos os três juntos, pela primeira vez em oito anos, no
ano passado, em Telavive, Atenas, Salonica e Polverigi, na Itália. Além de que
estamos a planear um novo disco e uma digressão pela Europa no próximo ano.
FM - Como é que se processaram as gravações? Foi ou não um trabalho
colectivo?
STEVEN BROWN - No início a ideia era gravarmos no meu estúdio em casa. Com
todo o tempo disponível para compor e gravar sem quaisquer preocupações
monetárias. Mas uma avaria no equipamento obrigou-nos a mudar para um estúdio
comercial vulgar. a maior parte dos temas foram compostos por mim com Nikolas.
Alguns são peças inteiramente feitas e tocadas por mim, como “Bitter bark” e
“Shipwreck”. “Brad’s loop” e “El Popo” incluem Alejandro Herrera como autor.
Nesta medida, pode considerar-se um projecto colectivo.
FM - Há algum elo de ligação entre este disco e o anterior, “Ninerain”?
STEVEN BROWN - A presença, em ambos, de Alejandro e de Juan Carlos. A
editora também é a mesma.
FM - “Joeboy in Mexico” recupera o lado instrumental e mais experimental
dos Tuxedomoon, de álbuns como “Suite en Sous-Sol” e “The Ghost Sonata”, já
para não falar dos dois primeiros álbuns, “Half-Mute” e “Desire”. Os Tuxedomoon
serão um grupo “maldito” para sempre?
STEVEN BROWN - Tenho orgulho em fazer parte do “underground”, embora
reconheça que é um estilo de vida que exige a existência de “senhorios”
compreensivos...
FM - O espírito e a atitude musical dos Tuxedomoon está bastante próxima do
actual pós-rock, de bandas como os Tortoise e Trans AM. Consideram-se pioneiros
do rock mais radical?
STEVEN BROWN - Não conheço nenhuma dessas duas bandas (mande-me uma
cassete, por favor!9. De qualquer forma, suponho que os Tuxedomoon foram, desde
o início, uma espécie de banda pós-rock, ou pós-moderna. Quando começámos, nos
anos 70, não havia muitos grupos como nós, a usarem violino, saxofone, caixas
de ritmos, guitarra, órgão e fitas magnéticas.
FM - A capa do álbum faz lembrar o grafismo usado por um músico mexicano,
Jorge Reyes...
STEVEN BROWN - Acho a capa fantástica! É um trabalho de Jaime Keller, um
velho amigo meu e um grande artista. Quanto a Jorge Reyes, conheço-o. Gravamos
para a mesma editora.
FM - O facto de o isco ter sido feito no México teve alguma importância no
proceso criativo? Estamos a lembrar-nos dos fragmentos de manifesto
revolucionário que foram usados no tema de abertura...
STEVEN BROWN - Salvador Dali afirmou um dia que teria pintado exactamente
da mesma maneira mesmo se tivesse vivido no Pólo Norte, querendo com isto dizer
que a localização geográfica não desempenha qualquer papel na produção
artística. Já Peter Principle me disse exactamente o contrário, que o local tem
muito que ver com os resultados. Para ele, o México determinou e conduziu todo
o proceso de gravação, devido a um magnetismo ou a quaisquer forças místicas
presentes neste país. A minha opinião está algures entre estas duas.
FM - Tem planos para gravar em breve um novo álbum?
STEVEN BROWN - Há um plano, que tenho em mente há mais de cinco anos, de
gravar com Harold Budd.
FM - Ainda ouve música rock? Que discos é que tem andado a ouvir
ultimamente?
STEVEN BROWN - O mais próximo do rock que tenho ouvido é Olivier Messiaen e
Conlon Nancarrow, um compositor americano que viveu no México há 40 anos e
compunha para executantes de pianola!...
Agora a sério, ouvi o novo de Todd Rundgren, com canções novas feitas ao
estilo bossa-nova. Recentemente, eu e Peter Principle temos andado a trabalhar
uma versão de Isaac Hayes de “Walk on by”, de Burt Bacharach.
FM - Atendendo à importância histórica dos Tuxedomoon, não está prevista
nenhuma reedição remasterizada da sua discografia, como aconteceu, por exemplo,
ainda há pouco tempo, com os Residents?
STEVEN BROWN - É uma boa ideia. Apesar de estar tudo disponível, em edições
normais, através da Crammed, de Bruxelas, e ter sido lançada, em 92, a
colectânea “Solve et Coagula”.
FM - Devemos considerar “Joeboy in Mexico” uma escultura sonora, um
manifesto artístico ou uma boa anedota?
STEVEN BROWN - Folgo em saber que tem sentido de humor!
Nota:
Outros Discos Brilhantes E Obscuros Por Elementos Dos Tuxedomoon:
Steven Brown: “Searching For Contact”, “Zoo Story”;
Steven Brown & Benjamin Lew: “Douzième Journée: Le Verbe, La Parure, L’Amour”, “A Prpopos D’Un Paysage”;
Peter Principle: “Sedimental Journey”, “Tone Poems”;
Blaine L. Reininger: “Instrumentals, 1982-1986”;
Blaine L. Reininger & Mikel Rouse: “Colorado Suite”.