10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
28.05.1997
Carlos Bechegas grava na Leo
Flauta de Leão
Carlos Bechegas,
flautista, compõe e improvisa, na flauta, sobre o que chama “música
contemporânea improvisada electro-acústica”, utilizando, para tal, um “sistema
interactivo midi de controle em tempo real”, com o qual explora “a articulação
da linguagem electrónica (sintetizadores, ‘samplers’, processadores de som,
fita magnética) com as diferentes sonoridades e ‘nuances’ tímbricas dos
instrumentos acústicos, em composições variavelmente estruturadas com e sem
partituras”.
É neste âmbito
que, inesperadamente, surge a gravação de um compacto de Carlos Bechegas no
selo inglês Leo Records, especializado em “novas músicas”. O disco divide-se em
duas gravações ao vivo, efectuadas noutras tantas edições de um encontro de
música improvisada, realizadas no Teatro do Oriental. A primeira, com Carlos
Bechegas (flautas, processadores, sintetizadores, teclados e controlador de
midi) integrado no seu trio IK*Zs(39, ao lado de Ernesto Rodrigues, em violino,
e José Oliveira, em percussões, foi gravada em 1995. A segunda parte, gravada
em 1993, tem por título “Flute Solos/Movement Sounds” (com dedicatórias a Evan
Parker e Steve Lacy) e é constituída por solos de flauta em interactividade com
electrónica.
O “resultado estético”,
de acordo como o que o próprio músico explica nas notas do texto promocional,
“caracteriza-se por uma narrativa enérgica de imprevisível alternância, através
de universos e tipologias da música, nomeadamente estruturas rítmico-atonais,
etno-modais, texturas “minimal-free” de rasgada tensão e densidade abstracta,
contrastando com depuradas atmosferas, tranquila e desconstruidamente
a-concretas, paisagens-ambiências sonoras de cores e timbres oniricamente
intimistas”.
Curiosamente, o
material que aparece no disco da Leo não é aquele de que Carlos Bechegas estava
à espera. “Tinha gravado em casa, no ano passado, material à base d eflauta
acústica. Entretanto peguei nesse material e juntei a esses ‘takes’, como um
‘portfolio’, duas outras gravações que tinha, em concerto, que são as que
aparecem no disco. Na Leo responderam-me que tinham mais interesse em editar a
segunda cassete do que a primeira, porque estava mais de acordo com a
perspectiva da música do catálogo, além de que um trabalho a solo é sempre mais
difícil de vender, sobretudo para quem não é conhecido.”
Para Carlos
Bechegas tal opção não constituiu motivo de grande desagrado, embora
reconhecendo que a sua vontade inicial era apresentar “o instrumento em si,
mais virgem, mais limpinho”. Actualmente, já sem a presença de Ernesto
Rodrigues, Carlos Bechegas perspectiva a gravação do trio como “uma
correspondência” ou “uma extensão” do seu trabalho a solo, estreado em 1989, na
Comuna. “O grupo tem a ver com a articulação das linguagens electróncia e
acústica, baseada numa improvisação estruturada”. Explica-se o método: “As
estruturas aparecem a seguir aos ensaios. As pessoas improvisam, depois
analisamos e repescamos o material mais interessante.”
“Flute
Solos/Movement Sounds como um complemento, onde “as coisas são trabalhadas mais
em pormenor, havendo diferenças substanciais de tema para tema na utilização da
electrónica. Mais um trabalho de pesquisa”.
Consumada a
edição do compacto, co-produzido pelo próprio Bechegas em conjunto com a
editora, fica aberta a possibilidade de futuros trabalhos - gravações e
espectáculos - no estrangeiro. “O nosso mercado é muito reduzido. Com a minha
dinâmica de não me acomodar, inconformado por natureza, encaro este disco como
um cartão de visita para o mundo inteiro que vou tentar potencializar ao
máximo”.
Este compacto de
Carlos Bechegas poderá ser adquirido através da Ananana, em Lisboa, ou da
Áudeo, no Porto.