10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
03.04.1998
Madredeus Grava Um Vídeo Em Sintra
O Sonho Comanda a Vida
Os Madredeus estiveram em Sintra a rodar o teledisco de “O Sonho”, uma
canção do seu último álbum, “O Paraíso”. muito em breve, partirão de novo em
viagem, encetando uma nova digressão pelo estrangeiro. Na calha estão dois
álbuns a solo e um bebé.
Serra de Sintra, o monte da lua. Lugar sagrado, coberto de verde, de água e
de caminhos ocultos. A meio de uma destas veredas, na direcção dos Capuchos, o
silêncio das alturas é quebrado por uma azáfama pouco usual nestas paragens. Em
pleno dia, sob o sol da Primavera, a paisagem é cortada por holofotes acesos,
colunas de som e monitores. Alguém espalha nuvens de fumo sobre umas figuras
sentadas calmamente a tocar guitarra entre as pedras de granito. Uma mulher -
envergando um longo vestido escarlate que lhe dá um aspecto medieval - sai de
uma “roulotte” e dirige-se para o meio do verde e das pedras. Parece começar a
cantar, mas percebe-se que a música vem de outro lugar. O ar enche-se com notas
nítidas de uma canção, várias vezes repetida. Estaremos a sonhar?
A canção que se ouve é “O Sonho”, a mulher chama-se Teresa Salgueiro e toda
esta agitação deve-se às filamgens do teledisco que os Madredeus estão a rodar
na serra de Sintra, antes de partirem para mais uma digressão internacional,
com início marcado para 1 de Abril próximo, na Galiza, e o final agendado para
12 de Junho, em Macau. Em Julho, haverá ainda algumas datas reservadas para
actuações em Portugal. Depois, terão todos descanso. Teresa Salgueiro está
grávida e com isso não se brinca. O rebento nascerá em Outubro.
Carlos Brandão Lucas, um apaixonado pela viagem e pela natureza, realizador
de diversos documentários para a RTP, é o responsável pelo guião e pela
produção deste trabalho. A tradução do sonho em imagens pertence-lhe. Para os
Madredeus a sua escolha tem, segundo Pedro Ayres Magalhães, um motivo óbvio:
“Já há muitos anos que faz este trabalho, uma espécie e antropologia da
paisagem portuguesa.”
Para Carlos Brandão Lucas, a produção de um teledisco é algo que faz pela
primeira vez e que asume como “uma experiência nova”: “Não é que eu esteja
propriamente interessado em enveredar por esta área, a minha área é o
documentário, é aí que me sinto realmente bem, mas achei que devia aceitar, até
tendo em conta o grupo que é, de cuja música gosto muito.”
Sintra tece a sua teia de sortilégios. A voz de Teresa Salgueiro mal
consegue acordar as árvores da sua sesta da tarde. Os acordes de “O Sonho” são
interrompidos por directivas técnicas por parte da vasta equipa responsável
pelas filmagens, nomeadamente pelos dois realizadores do “clip”, Ricardo
Andreia e Pedro Canais.
“A canção pressupõe este ambiente”, diz Brandão Lucas, “este tipo de
arvoredo. Há uma série de coisas que podem acontecer, no fundo, por detrás das
árvores que cada um tem na sua própria vida.”
Além de Sintra, “O Sonho” contará ainda com imagens de arquivo recolhidas
ao longo dos anos e “de uma longa passeata por este país”, pelo cineasta. “Há
aqui uma história dupla que se conta: uma é o sonho, que é o poema e esse sonho
que é povoado por imagens, como todos os sonhos o são, e sobre as quais nem sequer
temos, normalmente, controlo. É um lado do nosso cérebro que não controlamos.
Nos sonhos, somos capazes de voar, por exemplo, acontecem-nos coisas que não
nos acontecem na vida. Este conjunto de imagens mais este fundo das árvores da
vida podem contar de outra forma a história que é contada na canção.”
“E não havia mais nada... Só nós, a luz, e mais nada... Ali morou o
amor...” A letra da canção dissolve-se no ar. O local confunde-se cada vez mais
com amúsica. “Sintra é um lugar mítico na história portuguesa e eu sou um homem
muito ligado à história. E tenho uma relação de alguma intimidade com esta
canção porque sou uma pessoa que sonha sempre coisas, que desejo coisas.”
Pode parecer estranho o nevoeiro que alguém da equipa de filmagens faz
continuamente espalhar sobre os músicos. Sobretudo porque, na ocasião, o dia é
de sol. Mas há uma explicação para isso: “O sonho, exactamente por não ser uma
coisa concreta, aparece como uma coisa enevoada e dessas nuvens que atravessam
os nossos sonhos saem imagens. É esse o papel dos fumos.”
“O sonho” terá apenas imagens reais, com “algum tratamento posterior sobre
as imagens de arquivo. “não vai viver do computador.”
Carlos Brandão Lucas volta a lançar alguns “bitaites”, como ele próprio
diz, sobre o que se vai passando sobre o palco de relva, de guitarras e do
vestido sanguíneo de Teresa Salgueiro. Fala ainda dos outros sons, imagens e
geografias que preenchem o seu quotidiano: “Tenho uma ligação muito profunda a
África, outra, não menos amorosa, à Índia. Uma relação de desejo com a
Mauritânia. Sou um homem que gosta do mundo e das pessoas do mundo. Gosto de
viver a cultura, o calor e o frio dos lugares. O mundo pertence-me e eu não
pertenço a nenhum lugar. nesse sentido, todos os filmes que me contam hitórias
de lugares e depessoas interessam-me. Por todas estas razões, gosto dos sons
que correspondem aos lugares, da música tradicional - de música chinesa, por
exemplo, lá está -, porque me revela imagens. E eu vivo de imagens.”
Peixoto e Trindade a solo
José Peixoto e Carlos Maria Trindade, respectivamente, guitarrista e
teclista dos Madredeus, têm novos projectos discográficos a solo em
perspectiva.
José Peixoto tem pronto “A Vida de um Dia”, nova aventura solista da
guitarra acústica, na linha do anterior “A Voz dos Passos”. “Foram gravados
namesma igreja e com o mesmo engenheiro, o José Fortes”, explica o músico, cujo
disco, “se tudo correr bem”, sairá em Junho, quando acabar a digressão do
grupo.
Carlos Maria Trindade encontra-se, por seu lado, na fase de composição do
seu segundo álbum a solo, depois de “Deep Travel”, sem contar com “Mr.
Wollogallu”, em que fez parceria com Nuno Canavarro. Segundo o seu autor, o
novo disco não andará longe dos anteriores, embora haja a intenção “de fazer
algumas experiências acústicas ou mesmo com a voz”. Ao certo está já a presença
de músicos convidados, “que acrescentem alguma coisa ao que será uma espécie de
fusão”. Carlos Maria desenvolve neste momento um segundo projecto discográfico,
com Miguel Ângelo^, vocalista dos Delfins.