10 de Março, 2007: Lançamento da página com os escritos do grande crítico musical Fernando Magalhães
10.07.1998
Ronda Dos Quatro Caminhos - Músicos Da Ronda Estreiam Novo Projecto
Uma Russa Em Santiago
Quatro dos elementos da Ronda dos Quatro Caminhos juntaram-se a uma
violinista clássica, mandaram às urtigas a música portuguesa e as vocalizações,
inspiraram-se em Santiago de Compostela e chamaram ao novo projecto, Santiago.
A violinista é Inna Rechetnikova, formada pelo Conservatório de Leninegrado e
que nos últimos anos tem feito parte da Orquestra Sinfónica Portuguesa. Os
quatro rondas são António Prata, Carlos Barata, Vítor Costa e Pedro Fragoso.
Esqueceram-se por momentos da banda-mãe para pôr em prática novas
concepções musicais. “Já há alguns anos que tínhamos a ideia de fazer um grupo
só instrumental”, diz António Prata, multi-instrumentista dos Santiago, para
quem “há muito pouca música instrumental em Portugal, ao contrário do que
acontece nos outros países da Europa”.
A par do aspecto instrumental há ainda uma preferência pela “música de
autor”. Todos os temas de “Santiago”, disco de estreia do projecto, têm a
assinatura de Prata, Carlos Barata e Pedro Fragoso. Ao contrário da Ronda, que
faz essencialmente recriações de música tradicional portuguesa, nos Santiago
privilegia-se a composição e “a experimentação com outras sonoridades”.
Alguns dos temas de “Santiago”, foram escritos, “na solidão da casa de cada
um”. Outros “contaram com a colaboração de um ou outro músico, em termos de
arranjos ou de uma segunda melodia, sem ser nunca um trabalho colectivo”,
explica Prata. “Havia era uma comunhão de ideias entre os três compositores
principais e tentámos que cada um fizesse alguns temas de acordo com o todo do
disco”. Um disco que, diz, “teria que ser forçosamente alegre”.
No centro de Santiago está o violino da russa Inna Rechetnikova. “É uma
paixão minha [N.R.: o violino, não a russa] e também de todos os outros
músicos”. Os portugueses conheceram-na há dois anos. E “como as conversas são
como as cerejas” e ela “gostou da ideia”, não foi difícil integrá-la no
projecto. “Foi um desafio grande compor para o seu violino e fazer todo o disco
girar em volta dele”, garante António Prata.
Ouvindo certas batidas de “Santiago” pensa-se nos Fairport Convention.
Prata assume a influência. “Comecei a ouvir música em casa aos 12 anos. Vamos
assimilando tudo o que ouvimos. Por um processo natural de exclusão, ficamos cá
dentro com aquilo que é bom, como é o caso dos Fairport Convention, um dos
grupos que ouvi bastante”.
Serão os Santiago, à semelhança dos Fairport, uma banda de folk rock?
António Prata prefere o termo “pop folk”. Porque “não há dúvida de que os
ritmos do continente europeu estão bem marcados no disco”, embora “com uma
sonoridade mais pop” do que na Ronda. Cita, como exemplo, a inclusão da
bateria, “que não tem nada a ver com o modo como é utilizada na Ronda ou as
próprias malhas da guitarra e a sequência de acordes”.
De futuro se verá como os quatro elementos que dividem a sua actividade
entre os dois grupos lidarão com o facto de poder haver sobreposição. Prata é
bem claro: “Não avançámos com o Santiago apenas para fazer um disco. Planeámos
uma carreira, embora saibamos que é difícil um grupo impor-se com um projecto
instrumental. Mas somos perseverantes e se as coisas não correrem bem com este
disco esperamos que corram melhor com o próximo”. E se os Santiago tiverem
êxito? ”Num Verão em que haja muitos espectáculos dos dois grupos, teremos que
conviver com essa situação”.
A Santiago de Compostela, na Galiza, onde se deslocam com frequência para
actuar, foram os Santiago portugueses buscar inspiração. “É uma cidade que
sempre teve um universalismo que nós gostaríamos que existisse também na nossa
música”.